Universidade e a ecologia de saberes, artigo de Roberto Naime

 

artigo

Universidade e a ecologia de saberes

[EcoDebate] A universidade é constituída não só por diferentes concepções de mundo, como por arranjos antagônicos, e a produção de conhecimento, as atividades de extensão e o aprimoramento curricular universitário, são processos apropriados por relações de poder.

A articulação dos conhecimentos existentes com o sistema econômico vigente orienta a formação de profissionais para as demandas explícitas do mercado. Isto fica evidente nas formas curriculares, na escolha de quais conhecimentos devem fazer parte da formação e nas ausências que denunciam o descaso legado a projetos contra-hegemônicos.

As atividades universitárias foram atingidas por forças que amplificaram sua condição de dependência dos setores econômicos hegemônicos, pois isto de alguma maneira se vincula com empregabilidade, se afastando das demandas sociais necessárias para um projeto democrático de país. Ou seja, tem ocorrido aproximação do mundo empresarial por quase uma necessidade mercadológica, havendo afastamento do interesse público.

Os saberes produzidos pela universidade são eleitos por determinados grupos sociais como legítimos, representativos e merecedores de serem reproduzidos.

A degradação ambiental, o risco de colapso ecológico e o avanço da desigualdade e da pobreza são sinais muito graves da crise do mundo globalizado. Na agricultura, assistimos à perda da soberania alimentar, à fome, à violência no campo, à perda de diversidade genética e dos solos, ao avanço da concentração de terras, ao desmatamento, ao envenenamento por agrotóxicos.

Também se assiste a uma ofensiva de setores conservadores do Congresso Nacional sobre os direitos fundamentais de indígenas, contra o Código Florestal e a Lei de Biossegurança. Se presencia a aprovação indiscriminada de transgênicos, sem os estudos necessários e a devida responsabilidade social e científica. Isto ocorre por interesses econômicos em vários países, isto para não afirmar que ocorre em todas as paragens.

As universidades contribuem para a manutenção do paradigma hegemônico, formando pessoas aptas a lhe dar continuidade e produzir conhecimento que alimenta e fortalece seus preceitos. Na área de Ciências Agrárias, as atividades acadêmicas geralmente se articulam em torno do paradigma do agronegócio como cânone de desenvolvimento do país.

Não importa que a razão que permeia o agronegócio tem como características o capitalismo e a globalização neoliberal, a total dependência de insumos finitos e externos ao sistema agrícola, a simplificação genética e a concentração de terras e riquezas. Entre outros aspectos não enunciados e completamente avessos à sustentabilidade socioambiental.

A organização das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, sigla em inglês) divulgou recentemente um relatório sobre Comércio e Meio Ambiente, intitulado “Acorde antes que seja tarde demais: torne a agricultura verdadeiramente sustentável agora para a segurança alimentar em um clima em mudança”.

O relatório, para além de alertar sobre os danos do paradigma hegemônico de produção agrícola, aponta a adoção da agroecologia como fundamental para evitar o agravamento da crise socioambiental e prováveis crises alimentares futuras é exatamente o oposto do que vem sendo desenvolvido pela grande parte das universidades brasileiras.

A construção de uma racionalidade ambiental para o enfrentamento destes problemas em oposição à racionalidade econômica exige a elaboração de novos saberes e a participação dos grupos historicamente silenciados e que mais sofrem as consequências nefastas da crise da modernidade na construção destes saberes.

No espaço da universidade, isto implica em internalização das discussões socioambientais nas atividades de ensino e pesquisa, a abertura do diálogo com outras formas de saber e o repensar do papel da extensão universitária na perspectiva da efeméride que Boaventura de Sousa Santos chama de ecologia de saberes.

A abundância de conhecimento no mundo é muito superior ao o conhecimento disponível em um currículo de determinada área. Além disso, a escolha de quais conhecimentos são legítimos e válidos, é feita pelos grupos sociais dominantes, que historicamente oprimiram os grupos sociais hoje excluídos.

Por fim, esta relação de poder guarda em si a força da hierarquização, onde os saberes que não passam nesse crivo são considerados alternativos, lendas, crenças, manifestações locais e assim são descredibilizados.

É preciso uma mudança nas prioridades da universidade, ou seja, a determinação do que, como e para quem pesquisar e ensinar.

Todo isto não se opera de forma desconectada das estruturas sociais. Embora possa ser espaço de resistência, questionamento e promoção de transformação social, a universidade é sobretudo reprodutora de paradigmas mais amplos. E opera de acordo com dinâmicas sociais que por vezes são transcendentes.

Assim, não há possibilidade de se construir conhecimento contra-hegemônico de forma descolada dos grupos que mais sofrem as violências do conhecimento hegemônico nem à revelia de outros setores da sociedade.

Há a necessidade de se avançar para uma ecologia de saberes que, segundo Boaventura, é o confrontamento da monocultura do saber e do rigor científico pela identificação de outros saberes e de outros critérios de rigor que operam em práticas sociais, tradições ou hierarquias históricas.

As mudanças não podem ser implementadas apenas por alguns, mas é pela força de alguns poucos que elas ganharão projeção institucional. Sua promoção faz sentido em contextos específicos, com lutas conectadas com a história de cada instituição, apesar de fortalecerem e serem fortalecidas por lutas mais amplas, de outros grupos sociais, de outros lugares, de outros movimentos, de outras escalas e outras identidades culturais.

Não há possibilidade de se pensar a inclusão de saberes socioambientais na universidade, sem que isto seja tratado em termos epistemológicos e metodológicos. Epistemológicos porque promover o debate sobre sustentabilidade na universidade requer uma ecologia de saberes que luta contra a injustiça cognitiva. E metodológicos, uma vez que a inserção deste saber, pela sua própria complexidade, está imbricado também no questionamento crítico acerca dos métodos e estruturas em que se pauta atualmente o ensino superior.

Referência:

http://outraspalavras.net/posts/universidade-entre-agroecologia-e-agronegocio/

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/07/2017

[cite]

 

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