A internet das coisas, ou as coisas da internet? artigo de Antonio Silvio Hendges

 

 

[EcoDebate] A “internet das coisas” ou internet of things – IoT é um conceito proposto em 1999 por Kevin Ashton do Instituto de Tecnologia de Massashusetts – MIT que expôs a possibilidade de conexão na rede mundial não apenas por computadores, mas também de outras maneiras e através de outros objetos utilizados no cotidiano das pessoas em suas atividades.

Como funciona? Cada aparelho eletrônico possui uma identificação única, geralmente realizada por radiofrequência, Radio Frequency IDentification – RFID, armazenada em um banco de dados. Quando o dispositivo se conecta com uma rede como a internet que acessa o banco de dados, é possível identificar cada dispositivo registrado e interconectá-lo com outros aparelhos possibilitando uma interação de uns com os outros. Com os aparelhos identificados e interconectados com a rede e entre si, possibilita-se a interatividade e a troca de informações entre todos eles. Outras tecnologias complementares são a Comunicação por Campo de Proximidade ou Near Field Communication – NFC e o Bluetooht. A capacidade de processamento, a “inteligência” própria de cada objeto possibilita o aumento do poder da rede ao devolver informações processadas para diferentes pontos.

Na internet das coisas, não somente os computadores e celulares são programados para acessarem a rede, mas muitos outros equipamentos, desde eletrodomésticos, máquinas industriais, automóveis, objetos de uso pessoal como óculos, roupas, calçados, lâmpadas, fechaduras, qualquer dispositivo que tenha sua identificação acessível em um banco de dados da rede mundial. A inteligência artificial, a nanotecnologia, a miniaturização, a robótica e a biologia sintética entre outras ciências tecnológicas, possibilitam que dispositivos muito pequenos e mesmo invisíveis estejam interconectados e troquem informações. A combinação destas tecnologias e a interligação dos diferentes objetos de modo sensorial e inteligente torna a IoT uma realidade aplicável aos mais diversos setores da produção e do consumo de bens e serviços.

Alguns exemplos da aplicação da IoT: sensores utilizados nas roupas registram as variações da temperatura e ajustam de acordo com o conforto térmico do usuário; automóveis reconhecem o(s) usuário(s) e se adequam de acordo com as características deste, selecionando músicas, sugerindo rotas e reconhecendo engarrafamentos, inundações, acidentes e obstáculos através da comunicação com outros automóveis e com a pista; geladeiras realizam os pedidos dos itens que estão faltando diretamente aos fornecedores depois de pesquisas sobre preços e qualidade; as casas reconhecem as necessidades dos moradores e personalizam o ambiente para o conforto destes, como a iluminação e a temperatura ambiente. Muitas atividades não serão nem mesmo notadas pelos seres humanos, tornando a IoT uma presença constante e permanente no cotidiano e no meio ambiente das pessoas e empresas.

A IoT representa mudanças que otimizarão aspectos como o transporte urbano através da intercomunicação entre os veículos, fazendo com que o tráfego se desloque de forma coordenada e constante, economizando combustíveis, planejando os melhores trajetos e evitando acidentes; sensores instalados em sistemas elétricos e hidráulicos possibilitarão a economia destes recursos e evitarão desperdícios em residências, empresas ou nos locais em que se encontram os equipamentos de distribuição; o monitoramento da qualidade do ar, da água, da poluição em áreas densamente povoadas ou industriais e a adequação a padrões aceitáveis será facilitado com as informações recebidas em tempo real; na agricultura extensiva de precisão, o uso de sensores para monitorar os processos agrícolas dependentes do clima, umidade, luz solar, adubação e outros fatores externos, economizará recursos naturais como a água e evitará a contaminação dos solos pelo excesso de adubos nitrogenados, por exemplo. A aplicação em sistemas macro como uma cidade, facilitará a administração dos serviços públicos de transporte, limpeza urbana, iluminação pública e segurança.

Estes são apenas alguns aspectos simples do uso da IoT na infraestrutura e em setores econômicos, mas as aplicações são muito amplas e abrangentes, desde a simples identificação de uma caixa ao ser transportada, às tecnologias mais avançadas e complexas como a robótica e a biologia sintética, por exemplo, possibilitando a intercomunicação precisa entre os dispositivos artificiais programados, entre si ou com as centrais de monitoramento.

Existem também preocupações com a cibersegurança dos sistemas e a privacidade dos usuários, por exemplo, a invasão por hackers que podem acessar as informações pessoais ou das empresas e utilizá-las ou modifica-las de acordo com os seus interesses. Este perigo foi identificado em estudos da HP Security Research que concluiu que 70% dos dispositivos atuais relacionados com a IoT são vulneráveis. O acesso aos dados fornecidos ou inseridos é uma das principais preocupações dos desenvolvedores da IoT. Como serão muitos os dispositivos interconectados, o acesso a um pode levar aos outros, fornecendo informações completas sobre os seus usuários. Serão necessárias atualizações constantes dos softwares e interfaces compatíveis para o desempenho funcional adequado e seguro da IoT. Estima-se que nos próximos vinte anos e principalmente a partir da internet 5G a IoT será uma realidade totalmente integrada às atividades humanas.

Para o meio ambiente, a banalização da IoT trará algumas vantagens como já exposto em parágrafos anteriores, possibilitando a organização de cidades inteligentes e funcionais, com maior eficiência dos serviços públicos e o planejamento de suas necessidades, produção de bens e consumo. Mas também introduzirá novos resíduos provenientes de seus dispositivos tecnológicos, muitos deles provenientes da nanotecnologia, da biologia sintética e de outras tecnologias. Isso pressupõe o aumento destes resíduos tecnológicos obsoletos e também dificuldades para o seu descarte seguro, inclusive dos dados que contém.

Indispensável destacar que os recursos naturais continuarão sendo a base de sustentação da sociedade, no entanto, em um mundo maciçamente interconectado há o risco de uma alienação coletiva ainda maior em relação a estes, parecendo que as coisas, produtos, bens e serviços surgem a partir da programação dos dispositivos e da interconexão, negligenciando a consciência de que o meio ambiente, além do socialmente construído, também é composto de elementos naturalmente dispostos na natureza.

Neste sentido, explica-se o título deste artigo, pois a internet das coisas pode trazer amplos benefícios, mas terá que ser entendida como uma ferramenta que possibilita a melhoria da qualidade de vida e não como o principal fator de desenvolvimento humano, seja em seus aspectos econômicos de produção e consumo ou nas relações pessoais e sociais. É indispensável que se entenda que o ambiente socialmente construído pode ser impactado de modo positivo, mas que para além das funcionalidades também existirão impactos sobre os recursos naturais e o meio ambiente natural que continuará sendo o principal fator da sustentabilidade e da vida humana.

Observação: este artigo não pretende ser conclusivo ou mesmo estar isento de contradições ou erros, nem mesmo interpretar de modo definitivo os benefícios ou riscos da IoT. Foi escrito para despertar o debate sobre os aspectos e possíveis impactos ambientais da IoT e da interconexão global.

Referências:
– A internet das coisas: os riscos de uma revolução. Disponível em: http://www.ey.com/br/pt/about-us/a-internet-das-coisas-os-riscos-de-uma-revolucao. Acesso em: 21/06/2017.
– Internet das coisas. Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Internet_das_coisas. Acesso em 21/06/2017.
– O que é a Internet das Coisas (Internet of Things)? Emerson Alecrim. Disponível em: https://www.infowester.com/iot.php. Acesso em 21/06/2017.
– Kevin Ashton – entrevista exclusiva com o criador do termo “internet das coisas”. Disponível em: http://finep.gov.br/noticias/todas-noticias/4446-kevin-ashton-entrevista-exclusiva-com-o-criador-do-termo-internet-das-coisas. Acesso em: 21/06/2017.
– O perigo da internet das coisas. Ana Laura Paraginski. Revista UCS, maio-julho/2015, ano 3, nº 17. Disponível em: https://www.ucs.br/site/revista-ucs/revista-ucs-17a-edicao/o-perigo-da-internet-das-coisas/. Acesso em: 21/06/2017.

Antonio Silvio Hendges, Articulista no EcoDebate, Professor de Biologia, Pós graduação em Auditorias Ambientais, assessoria e consultoria em Educação Ambiental.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/06/2017

"A internet das coisas, ou as coisas da internet? artigo de Antonio Silvio Hendges," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/06/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/06/27/internet-das-coisas-ou-as-coisas-da-internet-artigo-de-antonio-silvio-hendges/.

 

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