Até que enfim, artigo de Paulo Afonso da Mata Machado

 

trnsposição do rio São Francisco

 

Esta obra da transposição não vai começar; se começar, não vai continuar; se continuar, não vai terminar; se terminar, não vai funcionar.

Tal frase, que relembra outra de Carlos Lacerda a respeito da candidatura, eleição e posse de JK, foi dita em um debate na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Nesse debate, ao final da palestra do representante do Ministério da Integração Nacional, uma assistente foi à mesa e lhe disse que a transposição não iria acontecer, ajuntando:

Praga de cachorro magro pega!

Essas declarações mostram o clima de reação à transposição que havia quando apenas se anunciava sua realização. Tenho à mão o livro intitulado “Toda a verdade sobre a transposição do rio São Francisco”, em que são feitas severas críticas a esse projeto por renomados professores universitários, sendo o prefácio de Ives Gandra, atual presidente do Superior Tribunal de Justiça.

Michel Temer disse que a paternidade do projeto pertence ao povo brasileiro. Ele está certo. As obras começaram no governo Lula e se intensificaram no governo Dilma, mas não podemos dizer que a transposição seja obra dos governos do PT, pois já era cogitada na corte de D. João VI, no Rio de Janeiro, antes mesmo da independência. Entretanto, tivesse o presidente dito isso alguns anos atrás e seria vaiado, pois havia reação contra a transposição até mesmo nos estados que serão beneficiados pelo projeto.

Há poucos anos, como era difícil achar alguém que defendesse a transposição, fui convidado para mais de um debate na função de contraponto ao palestrante principal. Na primeira vez, levei um amigo para tocar ao violão a canção “O ciúme”, de Caetano Veloso. Fiquei surpreso quando, antes de começar a tocar, ele fez questão de declarar que era contrário à transposição.

Também me chamou atenção o fato de que, ao concluir minha alocução, recebi os aplausos isolados de uma única mesa. Prestando atenção, verifiquei que nessa mesa estava meu filho.

De outra feita, fui convidado para fazer contraponto ao presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. O apresentador deu sua opinião antes das alocuções. Disse que a transposição melhoraria a vida de meia dúzia de famílias e o Governo faria uma enorme propaganda disso. Em seguida, passou a palavra ao presidente do CBHSF e, depois, a mim. Não me passou despercebido ter sido comunicado que devia encerrar minha alocução em dois minutos quando fui mostrar no mapa o alcance das obras.

Nesse evento, não eram permitidas perguntas durante as exposições, devendo os assistentes fazer suas observações por escrito. O orador principal era o outro, mas os questionamentos foram dirigidos a mim. Entretanto, não tive oportunidade de respondê-los, porque o evento foi encerrado assim que terminei minha fala.

Certa vez, em uma festa de casamento, um promotor público passou a fazer pregação contra a transposição. Apesar de não ser momento para isso, dirigi-me a ele e lhe perguntei quantas transposições havia no Brasil. Ele não soube responder. Contei, então, que o Sistema Cantareira, que abastece São Paulo, e o Sistema Guandu, que abastece o Rio de Janeiro, são transposições. Ele tentou levantar a questão de que, nesse caso, a água era para abastecimento público, não para o agronegócio, como ele julgava que seria a transposição (muito embora São Paulo seja o maior polo industrial da América Latina). Perguntei se era de seu conhecimento alguma transposição, já existente, de águas do Velho Chico. Ele disse que não. Lembrei, então, que Aracaju é abastecida por uma transposição do São Francisco, mas ele contestou que Aracaju pertencesse à bacia do São Francisco. Expliquei-lhe que nossa cidade, Belo Horizonte, é a única capital inserida na bacia do Velho Chico.

Lembro esses episódios para mostrar o clima de contestação que havia em torno da transposição. Devo lembrar, no entanto, que, embora Henrique(*) tenha-se declarado contrário ao projeto, jamais se recusou a publicar neste EcoDebate meus artigos e comentários sobre a transposição.

Diante da calamidade hídrica que assola o Nordeste, muitos dos que faziam oposição ao Projeto São Francisco passaram a defender sua conclusão o mais rápido possível. Portanto, posso agora tornar público o debate sobre um detalhe que tive com a coordenação do projeto.

Não concordo que os trechos em corte dos canais, em terreno cristalino, sejam concretados e não simplesmente assentados sobre o solo. O principal argumento para a utilização de canais concretados nesses trechos é o de se evitar a perda por infiltração. Acontece que a água da transposição não será conduzida apenas por canais. Serão utilizados, também, os leitos dos rios intermitentes Salgado, Jaguaribe, Apodi, Piranhas-Açu e diversos outros. Não haverá infiltração nos leitos desses rios? Por que haveria diferença significativa entre a infiltração nos canais escavados em solo cristalino e nos leitos dos rios intermitentes?

Afora essa questão, a qual não foi suficientemente esclarecida, até que enfim as obras estão chegando a seu final, apesar da praga de cachorro magro e da paródia da fala de Carlos Lacerda.

Paulo Afonso da Mata Machado é Engenheiro Civil e Sanitarista

Nota da redação: (*) Henrique Cortez, ambientalista e editor da revista eletrônica EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/03/2017

"Até que enfim, artigo de Paulo Afonso da Mata Machado," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/03/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/03/28/ate-que-enfim-artigo-de-paulo-afonso-da-mata-machado/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate, ISSN 2446-9394,

Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta enviar um email para newsletter_ecodebate+subscribe@googlegroups.com . O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Remoção da lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate

Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para newsletter_ecodebate+unsubscribe@googlegroups.com ou ecodebate@ecodebate.com.br. O seu e-mail será removido e você receberá uma mensagem confirmando a remoção. Observe que a remoção é automática mas não é instantânea.

Top