Pesquisa mostra que apenas 25% da população de São Paulo vive próxima a uma estação de transporte público

 

Publicação inédita de organizações internacionais da área de transportes aponta que esse número poderia triplicar e passar de 70% até 2025.

 

Foto: Agência Brasil/Arquivo
Foto: Agência Brasil/Arquivo

 

A cidade de São Paulo é a sétima mais populosa do mundo. Contudo, apenas um quarto de seus moradores vive próximo a uma estação de transporte público de qualidade, ou seja, a um raio de 1 Km, distância que pode ser facilmente percorrida a pé. A informação consta de um estudo realizado pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil) e pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis.

“Ao apresentar esse trabalho às vésperas da eleição municipal de 2016, nossa ideia é somar esforços para qualificar o debate político, as propostas de transporte público e subsidiar a sociedade civil com informação de qualidade, relevante e acurada do ponto de vista técnico, de tal forma que os cidadãos possam fazer melhores escolhas e uma análise crítica do que está sendo proposto pelos candidatos ao Executivo e Legislativo”, afirma Clarisse Cunha Linke, diretora-executiva do ITDP Brasil.

De 25% em 2015, São Paulo poderia saltar para um patamar de mais de 70% em 2025. Isso quer dizer que quase dois terços de sua população estaria a uma distância acessível a pé de uma estação de transporte público. Tal cenário foi projetado no estudo do ITDP e do WRI Cidades Sustentáveis a partir das metas previstas no Plano Diretor Estratégico e no Programa de Corredores Metropolitanos (EMTU).

Esse cálculo denomina-se PNT (sigla da expressão People Near Transit). Trata-se de um indicador que expressa a porcentagem de pessoas que vive em um raio de até 1 km de estações de metrô, trem, BRT, monotrilho e a 500 m de corredores de ônibus dividido pelo total da população do município.
Rede insuficiente

São Paulo tem um PNT muito baixo se comparada a outras metrópoles mundiais, a exemplo de Rio de Janeiro (47%), Cidade do México (48%), Pequim (60%), Nova Iorque (77%) e Paris (100%). “Uma das conclusões elementares de quem se debruça sobre os números da capital paulista é que ela precisa urgentemente expandir e qualificar sua rede de transporte, ampliando a integração física, tarifária, operacional e de informação entre os diferentes modos públicos e privados”, explica Luis Antonio Lindau, diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis e Phd em transportes pela universidade inglesa de Southampton.

Clarisse, que é mestre em Políticas Sociais, ONGs e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science, complementa: “A rede de transporte público de qualidade é insuficiente para atender à demanda. Os protestos de junho de 2013 mostraram o quanto mobilidade urbana é uma questão urgente. A falta de acesso ao transporte dificulta o desenvolvimento econômico e social, além de contribuir para aumentar a histórica desigualdade social, tão presente nas cidades brasileiras”.
Soluções a curto prazo

As organizações que produziram o estudo apontam o que boa parte dos paulistanos já sabe e deseja. Pesquisa de Mobilidade Urbana realizada em 2015 pela Rede Nossa São Paulo, em parceria com o Ibope, revelou que83% dos moradores de São Paulo estariam dispostos a trocar o automóvel por um transporte público de qualidade.

Dos 1,3 mil quilômetros de rede previstos para 2025, 65% são de BRT e de corredores de ônibus. “O transporte público por ônibus é uma das opções mais viáveis para aumentar o acesso da população ao transporte de qualidade. Os BRTs podem ser tão confiáveis quanto sistemas sobre trilhos, a um custo de implantação de seis a dez vezes menor. O tempo de construção também é muito inferior, o que atende à urgência da situação atual”, ressalta Lindau.

Ao analisar o acesso ao transporte para diferentes faixas de renda, os especialistas observaram que quem mora mais perto do transporte público de qualidade é justamente quem ganha mais. Em contrapartida, a expansão e a requalificação de uma rede integrada de transportes traria maior benefício a quem mais precisa: o PNT passaria de 18% para 61% para os paulistanos com renda de até meio salário mínimo, isto é, mais que triplicaria. Portanto, focar nessa área significa reduzir desigualdades.

A adoção da bicicleta também foi analisada. Ela pode facilitar ainda mais o acesso ao transporte público para viagens mais longas, ao se criar uma cadeia de deslocamentos e combinando as bikes com opções de viagem intermodal. Com a ampliação da rede em São Paulo até 2025, 97% da população estaria próxima a uma estação de transporte público de qualidade, que pode ser facilmente percorrida de bicicleta (3 quilômetros nos parâmetros do PNT).

Triplicar o PNT de São Paulo pode parecer missão impossível, mas não é. Desde 2010, a cidade do Rio de Janeiro vem elevando seu indicador: era de 26% e deve chegar a 56% em 2017. Em São Paulo, as metas já estão previstas e os planos, desenhados. “Os governos municipal e estadual precisam unir esforços para — além de expandir e requalificar a rede — promover o adensamento e implementar políticas de habitação nas proximidades do transporte público, em um conjunto de ações integradas que não tratam apenas de transporte ou mobilidade urbana, mas sim de enxergar a cidade como um todo”, destaca Lindau. “Dados, informação de qualidade e reflexões críticas são fundamentais para transformar São Paulo em uma cidade mais justa, sustentável e acessível”, conclui Clarisse.

 

in EcoDebate, 20/09/2016

 

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