8 de agosto – o Dia da Sobrecarga e o vermelho do déficit ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“Uma pessoa é rica na proporção do número de coisas de que ela é capaz de abrir mão”
Henry Thoreau

 

pegada ecológica e biocapacidade

 

[EcoDebate] A cada ano, a humanidade esgota mais cedo sua cota de recursos naturais do planeta. Com base em estatísticas oficiais de 150 países, a Global Footprint Network registra que o dia 08 de agosto é o Dia da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day) de 2016. Ele marca o momento em que a humanidade consumiu todos os recursos naturais produzidos pelo planeta no decorrer de 12 meses. Portanto, o dia 08 de agosto é o dia em que a civilização global sai do verde do superávit ambiental e entra no vermelho do déficit ambiental. Significa que a humanidade já gastou em pouco mais de 7 meses tudo aquilo que poderia gastar em um ano. No restante do ano, vamos entrar no cheque especial. Vamos dilapidar a herança deixada por milhões de anos de evolução da natureza. Vamos comprometer o futuro das próximas gerações de humanos e dilapidar as condições de vidas das demais espécies vivas da Terra.

O cálculo da Sobrecarga é feito a partir de duas medidas realizadas para se avaliar o impacto humano sobre o meio ambiente e a disponibilidade de “capital natural” do mundo. A Pegada Ecológica é uma metodologia de contabilidade ambiental que permite avaliar a demanda humana por recursos naturais, com a capacidade regenerativa do planeta. A Pegada Ecológica de uma pessoa, cidade, país ou região corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e mar necessárias para gerar produtos, bens e serviços que utilizamos. Ela mede a quantidade de recursos naturais biológicos renováveis (grãos, vegetais, carne, peixes, madeira e fibra, energia renovável entre outros) que estamos utilizando para manter o nosso estilo de vida. O cálculo é feito somando as áreas necessárias para fornecer os recursos renováveis utilizados e para a absorção de resíduos. É utilizada uma unidade de medida, o hectare global (gha), que é a média mundial para terras e águas produtivas em um ano. A Pegada Ecológica serve para avaliar o impacto que o ser humano exerce sobre a biosfera. A Biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana por consumo, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza.

Como mostra a figura acima, quando a Pegada Ecológica fica acima da Biocapacidade há um déficit ambiental (vermelho no mapa) e, ao contrário, quando a Pegada Ecológica é menor do que a biocapacidade há superávit ambiental (verde no mapa). Como se vê, parte da América do Norte (os Estados Unidos e o México) possuem déficit ambiental, enquanto o Canadá tem superávit ambiental.

Toda a faixa que vai da Europa, o Norte da África, o Oriente Médio e até o leste da Ásia possui déficit ambiental. Já os países nórdicos e a Rússia, com amplos ecossistemas e baixa densidade demográfica, apresentam superávit ambiental. Na Oceania também existe superávit ambiental, pois tanto a Austrália e a Nova Zelândia possuem pouca população e muita biocapacidade.

Evidentemente, quanto mais o mapa fica vermelho, mais o caminho é insustentável. A humanidade só consegue manter seu modelo de produção e consumo devido à herança acumulada no passado no seio da Mãe Terra (Pachamama). Ao sobre dimensionar as atividades antrópicas, o ser humano está esgotando as reservas de combustíveis fósseis, que são fontes energéticas criadas a milhões de anos pela decomposição de material orgânico. Está também desmatando as florestas, sobre utilizando as fontes de água limpa, reduzindo os estoques de peixe e zerando diversos recursos naturais. Existe um processo de vandalização do meio ambiente.

Desta forma, para evitar o colapso ambiental e o mapa inteiro em vermelho nos anos vindouros, será preciso, por um lado, estabilizar o tamanho da população e, por outro, diminuir o impacto do padrão de consumo médio da humanidade (o que vai requerer redução das desigualdades sociais e de renda). A humanidade precisa sair do vermelho do déficit ecológico e voltar para o verde do superávit ambiental, resgatando as reservas naturais.

 

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O dia 08 de agosto é um momento atual para se discutir o momento da Sobrecarga. No ano 2000 este dia ocorreu em 05 de outubro. No ano 2010, ocorreu em 31 de agosto. A cada ano, o Dia da Sobrecarga chega mais cedo. Esta realidade precisa mudar. O Planeta é um só e não vai suportar a atual taxa de degradação ambiental imposta no Antropoceno. O Planeta, como astro físico, vai continuar por muito tempo, mas boa parte da vida na Terra pode desaparecer precocemente em função do egoísmo, da avareza e da ambição humana desmedida.

Referência:
Earth Overshoot Day 2016 http://www.overshootday.org/

Dia do Excesso da Terra
http://www.overshootday.org/
http://www.footprintnetwork.org/pt/index.php/gfn/page/earth_overshoot_day/

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 08/08/2016

[cite]

 

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