Produção orgânica, reforma agrária e preservação florestal: a história do sítio A Boa Terra, Parte 1/3, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] Maurício Ayer, do site Outras Palavras desenvolve didática explanação do histórico do sítio “A Boa Terra”, com produção totalmente orgânica, reforma agrária, preservação florestal e moradia para os agricultores. Como funciona o projeto agrícola alternativo do Sítio A Boa Terra.

Eles ganhavam um bom dinheiro com o cultivo de flores em Holambra. “Até demais”, ironizam. Com o tempo, contudo, observaram que, enquanto concentravam terras e recursos, os moradores da região empobreciam e eram obrigados a deixar a terra.

Usando agricultura convencional, com agrotóxicos e adubação química, viram trabalhadores intoxicados ou queimados por veneno terem de ser levados às pressas ao hospital.

Essas foram as maiores razões para o casal de holandeses Tini Schoenmaker e Joop Stoltenborg, hoje com cerca de 70 anos, criarem o Sítio A Boa Terra. Lá, além de cultivar orgânicos, manter uma grande área de preservação e oferecer aulas de “alfabetização ecológica” a alunos da rede pública local, implantaram uma mini-reforma agrária e organizaram um movimento de sem-teto para construir 100 casas em mutirão.

Criado ainda nos anos 1980 e pioneiro numa atividade que apenas engatinhava, um dos produtores orgânicos mais antigos que se mantêm em atividade, o Sítio está localizado a meio caminho das cidades de Casa Branca e Itobi, no estado de São Paulo, próximo à divisa com Minas Gerais.

Hoje, entrega seus produtos para mais de 500 famílias em 18 cidades, entre elas São Paulo, Guarulhos, Osasco, Sorocaba, Campinas, Americana, Ribeirão Preto e Poços de Caldas. E, para aproximar as pessoas que se alimentam de seus produtos dos trabalhadores que os cultivam, organiza quatro vezes ao ano o Café das Estações, celebrando cada mudança originada pelo movimento da Terra em torno do Sol.

Foi num evento que anunciava o início do outono, que o site Outras Palavras conheceu a extraordinária história desse nosso novo parceiro. Além de saborear café da manhã e almoço inteiramente preparados com produtos orgânicos, os visitantes percorrem todo o sítio, das lavouras às áreas de preservação e instalações destinadas à logística. E adquirem consciência do alcance profundo da alimentação.

Joop nos recebeu num salão simples e bem cuidado, cercado de janelas e por isso mesmo com muita luz e ar fresco, além de impecavelmente limpo. Nas mesas, pães recém-saídos do forno, geleias da casa, frutas, iogurte, manteiga e queijo minas caseiro. Cerca de 40 visitantes se distribuíam pelas mesas.

Num gramado em leve declive do outro lado do salão, que se estende até um pequeno curso d’água proveniente de uma mata preservada localizada atrás das casas dos proprietários, a uns 80 metros dali, cercadas por mangueiras.

Aquelas árvores existiam no local antes da chegada das famílias, as únicas num longo terreno de pasto degradado. A mata portanto tem a mesma idade do sítio. Na outra direção, abaixo do córrego, estende-se uma ampla área de várzea até o horizonte, onde se avistam casas de um bairro rural.

Subimos então numa carreta com bancos, puxada por um trator, que nos levou para ver de perto as lavouras. O comboio foi parando no caminho para vermos cada cultivo. Colhemos e comemos milho verde direto do pé, surpreendentemente macio e saboroso, doce como se levasse açúcar; vimos os pés de abobrinha brasileira e italiana, entre diversos outros cultivos. Sob as estufas, todo tipo de folhas, como variedades de alface, rúcula e agrião.

A história do Sítio A Boa Terra começa em Holambra, onde, nos anos 1950 e 60, chegaram as famílias holandesas de Tini e Joop. Mas sua origem remonta ao pós-Segunda Guerra Mundial, quando muitos holandeses eram estimulados a emigrar, sobretudo para países como Canadá, Nova Zelândia e Austrália.

Tini chegou ao Brasil aos 11 anos de idade, em 1959. “Naquele tempo se pensava que os filhos tinham que seguir o ofício dos pais. Éramos agricultores e a Holanda, densamente povoada, não tinha mais como crescer”, explica ela. “Nossa mãe não queria. Mas depois de ouvir uma palestra sobre Holambra, uma colônia no Brasil de pessoas do seu país, ela considerou mais fácil.”

Já Joop decidiu, no início dos anos 1960, atender ao convite de um tio que vivia em Holambra, não sem antes passar uma temporada no Canadá e depois descer, de fusca, até o Brasil. Junto com um amigo, cruzaram Estados Unidos, México, Honduras, Guatemala, até o Panamá. “Ali precisamos colocar o carro num barco para a Colômbia, pois não tinha estrada.”

Seguiram então pelo Equador, Peru, Bolívia e Chile, depois voltaram pela Argentina, Uruguai e finalmente Brasil. “O fusca chegou caindo aos pedaços. Só sobrou a placa, pendurada ali na varanda”, diz Joop, sorrindo.

Joop e Tini vêm de regiões diferentes da Holanda. “Ela nasceu debaixo d’água”, brinca ele, sobre a região abaixo do nível do mar em que Tini nasceu, enquanto ele vem de uma cidade que fica a “importantes” 20 metros de altitude.

Ambos, no entanto, se criaram em famílias de agricultores e em “manadas” de onze irmãos, sendo, nos dois casos, quatro mulheres e sete homens. Conheceram-se em Holambra e, quando o namoro evoluiu, os pais de Tini convidaram Joop a participar do negócio. “Tivemos muito sucesso, ganhamos muito dinheiro. Até demais”, ironiza Joop.

A plantação de flores demandava sempre novas áreas de cultivo, o que significava uma forte pressão para a expansão das propriedades. Não há expansão de um lado sem recuo do outro, então havia um intenso processo de concentração de terras. “Víamos muita gente ser expulsa do campo.”

Joop mostrou fotografias comparando a forma de agricultura dita “convencional”, com uso de agrotóxicos e adubação química, e a orgânica. “Mudei para a orgânica depois de muitos anos praticando a agricultura convencional. Eu era um especialista em herbicidas, inseticidas, fungicidas.”

Uma das razões foi os danos que causavam aos trabalhadores das suas lavouras. “Mesmo seguindo todas as normas de segurança, muitas vezes tivemos que levar trabalhadores correndo para o hospital por causa de intoxicação ou queimaduras”, contou Joop.

São impressionantes as imagens de peles queimadas pelo veneno usado nas lavouras. Também fica evidente que não adianta lavar uma folha ou fruta, pois o veneno é lançado diretamente sobre as plantas e em todo o ambiente, logo penetrará pela seiva das plantas e invadir todas as suas fibras.

Joop lembrou que, no início, esses produtos químicos eram chamados de “veneno”, depois passaram a ser “agrotóxico” e hoje muitos os chamam de “defensivos agrícolas”. De algo que envenena passou a algo que defende…

Um episódio da biografia de Joop é tão estarrecedor quanto didático para se entender o momento em que os venenos foram incorporados às práticas agrícolas. Nascido em 1939, na Holanda, ele era criança quando a Segunda Guerra Mundial acabou.

“No final da guerra, todo mundo tinha piolho, sarna etc. Então pegavam umas bombas e iam borrifando a gente com um pó branco. Todo mundo ficava inteirinho branco, dos pés ao cabelo. Depois eu soube que aquilo era DDT.”

Na época, toda agricultura era orgânica. Mas daí começaram a pesquisar novos usos para as sobras da guerra química. Foi então, no momento de massificação das tecnologias, quando se difundiu o “american way of life” pela Europa e por grande parte do planeta.

Que se tornou padrão o uso de produtos químicos na agricultura, produtos estes que tornavam mais rápidos e cômodos e principalmente mais lucrativos os processos produtivos nas lavouras.

Referência: MST

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 26/07/2016

Produção orgânica, reforma agrária e preservação florestal: a história do sítio A Boa Terra, Parte 1/3, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/07/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/07/26/producao-organica-reforma-agraria-e-preservacao-florestal-a-historia-do-sitio-a-boa-terra-parte-13-artigo-de-roberto-naime/.

 

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4 comentários em “Produção orgânica, reforma agrária e preservação florestal: a história do sítio A Boa Terra, Parte 1/3, artigo de Roberto Naime

  1. Grande casal dedicado a causa.Indo na direção contraria a exploração socioambiental.Obrigado.

  2. Como já disse, aprecio muito seus artigos, Roberto Naime, são de uma lucidez incrível e muito acrescentam à nossa compreensão de certos fatos tão importantes para o nosso dia-a-dia no Brasil e no mundo. Obrigado.

  3. Bom exemplo. Queria saber da possibilidade de levar um grupo de agricultores para conhecer, seria de fundamental importância para eles que estão construindo um processo de certificação orgânica social.

Comentários encerrados.

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