Conflitos raciais, desigualdades e endividamento nos Estados Unidos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

I hope the United States of America is not so rich that she can afford

to let these wildernesses pass by, or so poor she cannot afford to keep them”

Margaret Murie

[EcoDebate] No dia 04 de julho se comemora a Independência dos Estados Unidos. No dia 05 de julho de 2016, um homem negro foi morto por dois policiais, em Baton Rouge, capital do Estado americano Louisiana. Alton Sterling, de 37 anos, era pai de cinco filhos e foi declarado morto no local. Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra a cena em que dois policiais o imobilizaram e o mataram O incidente provocou protestos da comunidade negra da região, além de comentários na internet contrários à atitude das autoridades. Horas após o caso, um grupo de mais de duzentas pessoas se reuniu para protestar contra a morte de Sterling, fechando ruas nos arredores do local do incidente e gritando “Vidas negras importam”. As demonstrações seguiram durante toda a madrugada em Baton Rouge.

No dia 06 de julho, um policial atirou e matou outro homem negro que estava dentro de seu carro durante uma blitz, em Minneapolis. Segundos após o incidente, a namorada da vítima fez uma transmissão ao vivo em seu perfil no Facebook, mostrando a cena que se seguiu. Nas imagens trágicas é possível ver Philando Castile, de 32 anos, baleado e agonizando no banco do motorista, enquanto a mulher narra o que está acontecendo. O policial que realizou o disparo segue na janela com a arma apontada para dentro do carro, enquanto ela diz “Ele só estava pegando a carteira de motorista e a identidade”. Estes não foram casos isolados, pois Sterling e Castile foram a 122ª e 123ª vítimas negras da polícia neste ano, de acordo com o jornal Washington Post.

No dia 07 de julho houve manifestações por todo os Estados Unidos. Na cidade de Dallas, no Texas, o protesto começou e permaneceu pacífico por duas horas, com cerca de 800 pessoas. Mas um atirador negro matou cinco policiais e feriu outros sete. Micah Xavier Johnson, identificado como o franco-atirador, era um veterano do Exército americano, que serviu no Afeganistão e foi morto por um robô da polícia. Ele queria matar policiais brancos.

O ataque foi classificado pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de “perverso, calculado e desprezível”. O primeiro presidente negro da história dos EUA tenta se equilibrar como defensor dos direitos civis —o movimento Black Lives Matter (As vidas negras importam) é o atual elo na luta pelos direitos das minorias raciais — e ao mesmo tempo defender a honra da maioria dos policiais e a hierarquia da ordem pública.

Porém, o clima de guerra e a secular tensão racial americana ganhou novos contornos com a tecnologia e a falta de mecanismos de controle de armas. Por exemplo: na semana anterior ao 4 de julho, pelo menos 64 pessoas foram baleadas em Chicago. A taxa de homicídios na cidade aumentou 50% em 2016 e as autoridades estão tendo dificuldades para lidar com rápida escalada violência de gangues. Por conta de tudo isso, o fim de semana foi de manifestações em todo os EUA.

O fato é que os conflitos raciais, a violência e a xenofobia estão crescendo, enquanto o bem-estar social declina. O gráfico acima mostra que a renda média domiciliar está caindo nos anos 2000 e que os latinos e negros são os grupos sociais com menor poder de compra, enquanto os asiáticos apresentam as maiores rendas. Como mostra reportagem da BBC, o êxito dos asiáticos nos estudos colaborou para que eles ocupassem posições economicamente sólidas na sociedade americana. Enquanto isto, latinos e negros estão apresentando dificuldades crescentes.

A economia dos Estados Unidos (EUA) se recuperou depois da crise financeira de 2009, mas a recuperação aconteceu em um ritmo muito lento. A taxa de desemprego caiu para um nível abaixo de 5%, mas o nível de emprego não cresceu, pois, muita gente saiu do mercado de trabalho. Além disto cresceu, mais do que proporcionalmente, o emprego de baixa remuneração e de tempo parcial. Com isto, aumentou a desigualdade de renda e diminuiu ou reverteu a mobilidade intergeracional ascendente.

Desde a década de 1970, o número das famílias norte-americanas de renda média tem diminuído, como mostra artigo de Ali Alichi, publicado no site do FMI. O Gráfico abaixo mostra que a parcela da população das famílias de renda média caiu de cerca de 58% do total em 1970 para 47% em 2014. Até o ano 2000 (ainda no governo Bill Clinton) o declínio da classe média foi compensado pelo aumento das famílias de alta renda. Mas no século XXI, a queda da classe média foi realizada com um movimento declinante, com o crescimento das famílias de baixa renda.

O Gráfico seguinte mostra que a participação do rendimento das famílias de renda média, que era de cerca de 47% do total das receitas em 1970, caiu para cerca de 35% em 2014. Essa queda no rendimento das famílias de renda média corresponde ao aumento na parcela de renda das famílias de alta renda. Enquanto isso, a parcela das famílias de baixa renda se manteve estável durante todo o período em torno de 5% da renda total. A baixa produtividade do trabalho e o menor dinamismo do mercado de trabalho contribuíram para o agravamento da distribuição de renda. O que mostra que a tal de quarta Revolução Industrial não está fazendo efeito na produtividade e na geração de uma sociedade afluente.

Cerca de 70% do produto interno bruto (PIB) dos EUA vem de gastos do consumidor e a queda do poder de compra da classe média é não só um problema de justiça social, mas também uma questão que afeta a demanda agregada. De fato, os pilares que sustentam a economia EUA estão mais frágeis do que estavam antes da Grande Recessão de 2009, mesmo depois de trilhões de dólares injetados pelos bancos centrais e da prática de juros baixos ou até negativos em alguns países.

Mas em algum momento os juros vão começar a subir, pois as taxas artificialmente baixas estimuladas pelo FED, através da flexibilização quantitativa, diminuíram os retornos sobre os investimentos e incentivaram o endividamento sem precedentes. A dívida total acumulada no mundo é maior agora do que era antes do início do colapso do Lehman Brothers em 2008. Desde então, o mundo assumiu um adicional de US$ 57 trilhões em dívida. A partir do final de 2014, o planeta devia US$ 199 trilhões, para uma economia mundial de cerca de US$ 80 trilhões, segundo estudo da Mckinsey. A economia EUA está sendo apoiada na base de crédito e do endividamento, dando ilusão de prosperidade continuada, mas o sistema é insustentável. Como mostra o gráfico abaixo, a dívida total dos EUA já está em US$ 19,2 trilhões, o que representa mais de 100% do PIB.

A economia dos EUA e o seu sistema financeiro se mantiveram saudáveis, nas décadas de 1950-1960, alimentado pelas vantagens comparativas da 2ª Revolução Industrial e por uma ampla disponibilidade de petróleo doméstico barato. Nesse período os EUA foram a força motriz do mundo. No entanto, como o passar dos anos e com a produção doméstica de petróleo diminuindo, os americanos apelaram para o cartão de crédito. Em 2016, esta situação se agravou devido ao declínio na produção de óleo e gás de xisto. O último gráfico mostra que o setor de Energia americano está pagando 86% de seus lucros operacionais apenas para pagar os juros da dívida das companhias. Isto é um estopim para uma grande crise.

A fraca economia mundial está colocando pressão adicional não apenas nos mercados acionários globais, mas também no intercâmbio com os EUA. Estudo do FMI mostrou que grande parte do sistema financeiro global está ancorado nas taxas de empréstimos dos EUA. Um aumento nas taxas de juros pode agravar ainda mais a situação dos países emergentes, o que reverteria negativamente no próprio EUA.

O fato é que a economia americana já vem apresentando sinais de fragilidade há bastante tempo e o agravamento das iniquidades sociais só agrava o quadro geral. Os conflitos raciais são um dos aspectos do declínio da renda e do aumento da desigualdade e mostram que existe um “barril de pólvora” pronto para explodir. O ano de 2016 não está se mostrando um bom ano para a economia dos EUA, pois é crescente a possibilidade de uma nova recessão, uma perda de energia e uma grande crise financeira. Os Estados Unidos estão fraturados em termos de desigualdades sociais (de renda, gênero, raça, geração, etc.) e em termos de retórica e de intolerância.

E tudo isto pode ficar muito pior se Donald Trump ganhar as eleições presidenciais de novembro. Como disse Tyler Durden, parece que os Estados Unidos são uma nação que foi fundada por gênios (como Thomas Paine), mas é governada por idiotas (“A nation that was founded by geniuses but is run by idiots”). O Congresso dos EUA tem um índice de aprovação de 14,4% e um índice de reprovação de 76,4% (segundo o site Real Clear Politics). Assim, a crise política pode agravar as crises social e econômica e a coesão social, pode ocorrer uma espécie de guerra civil latente ou aberta. Os riscos de uma ruptura do tecido social aumentam.

Referência:

Ali Alichi. Rising Income Polarization in the United States, iMFdirect, June 28, 2016

https://blog-imfdirect.imf.org/2016/06/28/rising-income-polarization-in-the-united-states/

BBC. Saiba qual grupo étnico mais bem pago nos EUA, 6 julho 2016

http://www.bbc.com/portuguese/geral-36722352

SRSrocco. Why The Collapse Of The U.S. Economic & FInancial System Has Accelerated, 01/07/16

http://www.zerohedge.com/news/2016-07-01/why-collapse-us-economic-financial-system-has-accelerated

Tyler Durden. A Nation Run by Idiots? Jul 8, 2016

http://www.zerohedge.com/news/2016-07-08/nation-run-idiots

US Census Bureau. Income and Poverty in the United States: 2014, setembro de 2015

https://www.census.gov/content/dam/Census/library/publications/2015/demo/p60-252.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista da revista eletrônica EcoDebate,  é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População,Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 11/07/2016

Conflitos raciais, desigualdades e endividamento nos Estados Unidos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/07/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/07/11/conflitos-raciais-desigualdades-e-endividamento-nos-estados-unidos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

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Um comentário em “Conflitos raciais, desigualdades e endividamento nos Estados Unidos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Capitalismo e religiões são, e continuarão sendo, as forças propulsoras da total e inevitável destruição, em exíguo espaço de tempo, das condições de vida – já tão debilitadas – em todo o planeta Terra.

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