Campanha nacional contra o uso de agrotóxicos, artigo de Roberto Naime

 

campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida

 

[EcoDebate] Em reportagem de Maria Mello, se registra que mais de 20 entidades da sociedade civil brasileira, movimentos sociais, entidades ambientalistas e grupos de pesquisadores lançaram uma campanha nacional, de caráter permanente, contra o uso dos agrotóxicos no Brasil.

A campanha [Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida] pretende abrir um debate com a população sobre a falta de fiscalização, uso, consumo e venda de agrotóxicos, a contaminação dos solos e das águas e denunciar os impactos dos venenos na saúde dos trabalhadores, das comunidades rurais e dos consumidores nas cidades.

O secretário-executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Denis Monteiro, apresenta os objetivos da campanha.

A primeira questão é que nós precisamos estabelecer uma coalizão, uma convergência ampla dos movimentos da área da saúde, da agricultura, comunicação e direito, para fazer a denúncia permanente desse modelo baseado no uso de agrotóxicos e transgênicos que tornou o Brasil campeão mundial do uso de agrotóxicos; e os impactos são gravíssimos na saúde dos trabalhadores, no meio ambiente, na contaminação das águas. ’’

Segundo Monteiro, além do caráter de denúncia, a campanha pretende também apresentar à sociedade o modelo proposto pelas entidades, mais saudável, baseado na pequena agricultura.

Outro campo de articulação é mostrar para a sociedade e avançar na construção de outro modelo de agricultura, baseado na agricultura familiar, camponesa, em toda sua diversidade, dos povos e comunidades tradicionais, assentamentos de reforma agrária, e que este modelo sim pode produzir alimentos com fartura, alimentos de qualidade, com diversidade e sem uso de agrotóxicos”.

Ele prossegue “temos estudos que mostram que a agroecologia é viável, produz em quantidade e em qualidade, e o local para a agroecologia acontecer são as áreas da agricultura familiar. Então outro campo de articulação importante é avançar na construção destas experiências em agroecologia que a gente já vem construindo, multiplicá-las pelo país, mostrando que este é o futuro da agricultura, e não vai ter futuro para o planeta se a gente não construir este modelo alternativo ao modelo que está aí’’

Monteiro aponta ainda que a atuação no âmbito das políticas públicas também se constituirá em um eixo importante da campanha.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) tem um trabalho de análise de resíduos de agrotóxicos e alimentos, que precisa ser ampliado para mais culturas, ter aumentada sua abrangência; está também fazendo reavaliações de agrotóxicos que têm um impacto terrível na saúde, propondo restrição ao uso e banimento de produtos. Por outro lado, precisamos avançar nas políticas direcionadas à agricultura familiar, para que elas possam fomentar o resgate da biodiversidade, o resgate das sementes crioulas, possam fortalecer as experiências de comercialização direta dos agricultores familiares com os agricultores. O Programa Nacional de Alimentação Escolar precisa ser efetivado, uma alimentação de melhor qualidade nas escolas, que o dinheiro público usado para alimentação escolar seja destinado à compra da agricultura familiar e lei aprovada obriga que no mínimo 30% seja destinado para a compra da agricultura familiar; temos que lutar para que esta conquista seja efetivada’’.

De acordo com Letícia Silva, da ANVISA, é preciso que a campanha consiga promover uma grande consulta junto à sociedade brasileira sobre o tema.

Não sei o tempo: quando colocamos a possibilidade de retirada de um produto agrotóxico do mercado, muitas vezes a gente recebe poucas manifestações favoráveis à retirada daquele produto no mercado, e muitas manifestações pela manutenção do produto no mercado. Então acho que a primeira coisa, a mais simples e que independe até de uma grande mobilização são as organizações da sociedade mostrarem o que estão pensando a respeito, mostrar o seu desejo com relação aos produtos agrotóxicos. Querem realmente que sejam controlados? Que produtos precisariam ser banidos, quais estão causando intoxicação?

A campanha nacional contra o uso de agrotóxicos também promoverá iniciativas ligadas à educação com a produção de cartilhas para as escolas, e realizará seminários regionais e audiências públicas.

Referências:
* A campanha nacional contra o uso de agrotóxicos

* No EcoDebate, a tag Agrotóxicos

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 02/02/2016

Campanha nacional contra o uso de agrotóxicos, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/02/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/02/02/campanha-nacional-contra-o-uso-de-agrotoxicos-artigo-de-roberto-naime/.

 

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8 comentários em “Campanha nacional contra o uso de agrotóxicos, artigo de Roberto Naime

  1. Peço a gentileza de publicarem artigo sobre a venda de produtos da CEASA como se fossem orgânicos. O programa Fantástico, da Globo, no domingo passado, mostrou o crime que tem sido cometido contra o Movimeto Ecológico e contra as pessoas que acreditam nas Redes de Confiabilidade. É hora de os verdadeiros Ecologistas agirem sob pena de se perder todo um trabalho árduo e demorado.
    Os primeiros a fazerem inspeção não deveriam ser as próprias associações/redes de Confiabilidade ??!!
    Sem clientes … não adiantará produzir orgânicos … e a credibilidade está em jogo, sim.

  2. Sempre é importante ressalvar que as grandes produções não são viáveis no sistema de pequena agricultura familiar.

  3. Tens toda razão Roberto, mas em parte a reportagem foi útil para alertar que inescrupulosos atuam muito neste mercado pouco fiscalizado…

    Grande abs…

    RNaime

  4. Tua visão é adequada Eloy. Mas vou te contar história…quando morei em Cuiabá era da comissão de meio ambiente da Aprosoja, e todos concordavam que seria melhor mudança planejada do que corretiva…uma vez uma lavoura ficou sem soja, porque as abelhas polinizadoras morreram…

    Mas a concepção que tu tens pode estar correta…

    Grande abs…

    RNaime

  5. Muito importante esta discussão. Lamentável é que isto fique restrito a uma minoria. O desejável seria que essa campanha pudesse ser socialmente massificada, de modo a chegar a todos os cantos do país. Algo assemelhado ao que vem sendo feito em relação epidemia do Zica vírus, causada pelo Aedes aegypti, na atualidade, reconhecida pelo Estado e pela Sociedade uma questão de saúde pública. Afora isso, no contexto de um cenário real, naquilo que dependa de Ação Pública, seria muito interessante engajar a participação efetiva do Ministério Público nesse processo. E outra ação interessante seria oferecer mídias de informação e auto defesa ao consumidor; ou seja, que o consumidor, esclarecido e seguro, tenha o direito de escolher no mercado que produto melhor convém para sua alimentação saudável. Sem veneno na mesa. Por outro lado, vale lembrar ainda, que os produtores agroecológicos, sem custos de agrotóxicos, fertilizantes químicos e sementes transgênicas, poderiam rever seus custos de produção e colocar no mercado produtos com preços mais acessíveis ao público consumidor. Dessa forma todos sairiam ganhando. Sem veneno na mesa e na natureza.

  6. Apoio incondicionalmente esta campanha. Sou designer, especialista em publicidade e marketing, e há um ano sou também pequeno agricultor na chácara que moro com minha família. Hoje vejo, sinto e sufro o problema terrível do agrotóxico pela janela do meu escritório, a cada vez que o vizinho aplica o glifosato na soja. 4x por campanha pelo menos. Coloco à disposição desta campanha toda minha experiência como marketeiro para contribuir a construir uma mensagem mais efetiva para chegar ao coração de toda a população.

    Para ter sucesso nesta campanha, precisamos usar as mesmas armas do inimigo, isto é, as mais avançadas técnicas de propaganda e marketing, Deixo aqui algumas sugestões de como abordar o público:

    • Mensagens o mais curtas e contundentes possíveis, para atingir o coração das pessoas. Reduzir o peso das mensagens negativas (como a do avião jogando veneno no prato), e mostrar mais imagens e depoimentos da beleza das pequenas propriedades orgânicas, como é saudável a comida que se come nas hortas agroecológicas, como é saudável a vida nas chácaras etc.

    • Falar especialmente para o público consumidor: quem define a viabilidade comercial do pequeno produtor rural é o público consumidor. Se ele compra, aumenta o mercado e o pequeno produtor pode viabilizar.

    • Reduzir ao máximo possível os apelos que possam ser lidos com nuances políticas: isto não é um problema de esquerda x direita, é um problema de toda a população, independente do seus sistema de crenças.

    • Exercer enorme pressão aos governos federais, estaduais e também municipais para o incentivo ao pequeno agricultor e à transição para o orgânico. Sem apoio financeiro do governo é impossível fazer a transição.

    • Convidar às pessoas da cidade a visitarem as pequenas propriedades próximas aos grandes centros. Para isto, é necessário investimento das prefeituras em infraestrutura mínima: pelo menos estradas rurais em bom estado, mesmo que sejam de chão.

    enfim, são algumas sugestões, fico à disposição para ajudara construir uma mensagem que funcione e faça mudar rápidamente esta realidade absurda.

    Um abraço a todos, desejo sucesso nesta campanha.

  7. Compartilho esta campanha contra o trabalho escravo. Creio que é um bom exemplo de equilíbrio entre contundência da mensagem, apelo emocional e chamado á mobilização das pessoas. Vejam que interessante como a campanha oferece às pessoas o download de anúncios para ajudarem a espalhar a notícia:
    http://somoslivres.org

  8. Agradeço as manifestações Ricardo e Ney…

    Grande abs…

    RNaime

Comentários encerrados.

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