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Artigo

No meio do caminho tinha uma seca … artigo de João Ricardo Raiser

 

crise hídrica

 

[EcoDebate] Gosto de escrever, de rascunhar versos, em sua maioria feitos de rimas pobres, sem muita métrica, mas que sempre me ajudaram a organizar as ideias e a pensar. Recentemente resolvi enveredar por outras formas de escrita, e tomei a liberdade de usar um poema de Drumond – “E agora, José?” – como inspiração para escrever algumas linhas sobre outra paixão, o meu oficio, a gestão de recursos hídricos, intitulado “E a água, José?”, traçando paralelos entre o poema de Drumond e a importância e as perspectivas futuras no que diz respeito a água, um recurso imprescindível não só à vida, mas também a toda e qualquer atividade exercida pelo homem.

Parece que tomei gosto pela coisa, por usar poemas de Drumond para pensar em outras questões, no caso, esta seca incomum que nos assola, aí veio à lembrança o poema “No meio do caminho”, corrompendo-o para “No meio do caminho tinha uma seca, Tinha uma seca no meio do caminho…”

Mas será que essa pedra é realmente incomum ou seria só falta de conhecimento sobre o caminho? Seria realmente inesperada ou seria previsível? Seria fruto das temíveis mudanças climáticas ocasionadas por nós e nossos hábitos ou seria apenas parte do quase desconhecido Ciclo Hidrológico? Seria evitável ou apenas possível que nos preparássemos para ela? De forma muito sincera e responsável, creio que não há como afirmar com certeza e rigor científico qual é a sua origem, restando então, lidar com as suas consequências. Consequências que tem incomodado bastante, e vem expondo problemas que pareciam não existir. Problemas em sua grande parte relacionados à nossa deficiência em planejar, e na cultura ou ilusão de abundância que reina em nossas mentes e ações. A seca, somada a essas duas questões tem provocado severos prejuízos ao abastecimento das populações, à produção, não somente agrícola, mas também industrial, à geração de energia, ao transporte e, por incrível que pareça, pois alguns acham menos significante, até ao lazer.

Parece que aquela pergunta “E a água, José? e suas consequências (desabastecimento, conflitos e prejuízos a todos os setores)” chegou antes do que se imaginava, e se converteu na triste constatação: “Tem uma seca no meio do nosso caminho”, escancarando que a água não é abundante, que se não forem respeitadas as mínimas condições ambientais, como as matas ciliares e áreas de recarga dos aquíferos, imprescindíveis à manutenção da sua quantidade e qualidade, se a água não for gerida como um recurso, cujo uso deve ser planejado, orientado e fiscalizado, rapidamente serão agravados os problemas de escassez e conflitos, prejudicando o abastecimento das populações e o desenvolvimento do nosso Estado.

Para mim, é inegável que um dos maiores tesouros do Estado de Goiás é a sua disponibilidade hídrica. Um recurso que já é escasso em outros estados e regiões. Um diferencial que propicia o franco desenvolvimento da agricultura irrigada, a instalação de indústrias, a geração de energia, o abastecimento das populações, entre outros usos. Ou acaso alguém tem dúvida que a água é um dos principais vetores do desenvolvimento? Exemplo nacional marcante é a transposição do São Francisco, que, de forma simplificada, nada mais é do que um projeto de desenvolvimento regional baseado na disponibilização de água, o principal fator de restrição ao desenvolvimento da região nordeste, ou, para ser menos polêmico, a transposição do rio Paraíba do Sul (dessa pouca gente comenta), um rio que em seu terço final tem mais de 50% da sua vazão transposta por sobre a Serra do Mar para abastecer as indústrias e a população da cidade do Rio de Janeiro e de sua região metropolitana.

Mas e o que estamos fazendo para conservar e melhor aproveitar esse diferencial? Como estamos cuidando de um dos nossos mais preciosos recursos?

Essa seca pode nos trazer muitos ensinamentos, desde que estejamos dispostos a aprender, pois mostra a importância de evitar os problemas já enfrentados em outras regiões. Mas para que isso aconteça é necessário ação, investimentos e a participação de todos, da sociedade, dos setores usuários e do poder público. É necessário fortalecer o Sistema Estadual de Gestão de Recursos Hídricos, para que ele possa exercer a sua principal função: garantir o acesso à água em quantidade e qualidade, aos usos atuais e futuros, que são a base para garantir o desenvolvimento econômico e social sustentável de Goiás.

O que tranquiliza, perdoem-me a ironia, é ter a certeza que, caso não seja possível aprender dessa vez, é certo que não faltarão oportunidades. Afinal “No meio do nosso caminho sempre haverá uma seca. Sempre haverá uma seca no meio do nosso caminho”, e com um custo muito maior para remediá-la, a ser pago por todos nós num futuro cada vez mais próximo.

João Ricardo Raiser. Poeta. Formado em Administração com Habilitação em Comércio Exterior. É Gestor de Fiscalização, Controle e Regulação, e atua na gestão dos recursos hídricos do Estado de Goiás.

 

in EcoDebate, 12/01/2016

[cite]

 

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2 thoughts on “No meio do caminho tinha uma seca … artigo de João Ricardo Raiser

  • Certa vez, assistindo a um documentário norte-americano, o narrador deu a receita para esse problema. – Temos que fazer com que a água demore o mais tempo possível para escoar para o mar.
    Ele tem razão. Grosso modo, imaginemos que a pressão no planeta fosse homogênea. Não haveria ventos. A água evaporada do mar choveria no próprio mar. Somente choveria na terra a água evaporada (ou transpirada das plantas) da terra.
    Como a água dos rios escoa para o mar, em pouco tempo não haveria água na terra.
    Portanto, a água da terra precisa ser usada e reusada. Quanto mais vezes, melhor.

  • É preocupante que um gestor hídrico do naipe do articulista ainda esteja na fase de tratar as consequências, ao invés de combater as causas. Estas para muitos cientistas de renome no país e no exterior vem do desmatamento de nossas florestas e o estudo mais didático, de fácil entendimento inclusive para leigos é o do cientista Antonio Nobre, divulgado pelos pequenos, médios e grandes veículos de comunicação do país. Sugiro que o articulista leia esses estudos e se engaje na luta para estancar o desmatamento de nossas florestas e saia da preguiçosa posição de combater os efeitos e renegar as causas.

    Sugestão de links:

    http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/08/falta-dagua-em-cidades-tem-ver-com-devastacao-desenfreada-da-amazonia.html

    http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536931-desmatamento-da-amazonia-causa-seca-em-sp-diz-cientista

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