Professora, nunca vi um surubim, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

 

opiniao

 

[EcoDebate] – Depois de tantos anos assistindo a olho nu a decadência do rio São Francisco, foi chocante ouvir essa frase.

A declaração foi feita por um aluno a uma professora de um colégio particular de Petrolina. Ela também é professora numa escola pública de Juazeiro e, durante um debate sobre rio, citou a expressão para os alunos presentes ao debate.

Ela utilizava a música Boato Ribeirinho (Nilton Freittas, Wilson Freittas e Wilson Duarte) para promover o debate. Uma das belas frases da música é: “Que será, que será de mim? Que será de José, Serafim? Qual será o destino do menino que nasceu e cresceu aprendendo a pescar surubim?”

O olhar dos biólogos da região nos dizem exatamente essa realidade, isto é, a eliminação da biodiversidade do rio – visível e invisível – é a prova dos nove da ciência para confirmar sua morte. A vida está sendo extinta. O volume de água acompanha a decadência. Hoje o São Francisco não tem mais que 900 m3 por segundo.

Toinho Pescador, um poeta de Penedo, Alagoas, é a encarnação permanente da indignação contra esse assassinato programado e persistente. Do alto de seus mais que 80 anos, costuma dizer que “criei meus filhos no luxo, comendo surubim e camarão. Hoje não consigo pescar um peixe prá comer”.

Na página inicial do site das Centrais Elétricas do São Francisco (CHESF) ainda hoje – se não foi retirada – há uma enquete com a seguinte pergunta: “A energia hidráulica ainda é fundamental para o futuro da energia no País?”

Oras, se uma companhia hidrelétrica desse porte está fazendo essa pergunta em seu próprio site, é porque não vê mais futuro no São Francisco e nem mesmo no modelo atual do sistema elétrico brasileiro.

A verdade é que temos muitas barragens, vamos fazer as que as empreiteiras querem ainda fazer na Amazônia, mas ninguém garante que teremos águas para locupletar as barragens e mover as turbinas. A falta de água desmontou a segurança de nosso sistema elétrico. Se é de fazer barragens para encher de ventos, é melhor fazer torres eólicas para gerar energia.

Se um morador da beira do São Francisco, ainda jovem, nunca viu um surubim, é porque nosso rio não tem mais seus peixes nativos.

Não temos o que celebrar em 2015, a não ser as últimas lágrimas que correm no leito do Velho Chico.

Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

 

in EcoDebate, 05/10/2015

"Professora, nunca vi um surubim, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 5/10/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/10/05/professora-nunca-vi-um-surubim-artigo-de-roberto-malvezzi-gogo/.


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One thought on “Professora, nunca vi um surubim, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Parabéns ao Malvezzi pelo artigo.
    De fato, o São Francisco necessita ser revitalizado.
    Entretanto, não é porque o rio está com 900 m3 por segundo (uma boa vazão, sem dúvida, se comparada a qualquer outro rio que deságua no litoral nordestino), mas porque seus afluentes estão levando muita poluição, reduzindo o teor de oxigênio dissolvido que não há mais surubins em boa parte do rio.
    Com baixos níveis de oxigênio, peixes como o surubim não podem sobreviver.

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