De qual crise estamos falando? artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

 

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[EcoDebate] Toda crise precisa ser interpretada, seja nos seus fundamentos, seja nas suas consequências. Nelas há sempre quem ganha e quem perde.

Um consenso entre os grandes pensadores modernos – incluindo o Papa Francisco – é que atravessamos uma “crise de civilização”. Ela atinge todas as dimensões da realidade, desde a política, econômica, ética e vai até a ambiental. Com o avanço da técnica e da ciência não sabemos como será a humanidade desse final de século e muito menos como será o planeta no qual habitamos.

Entretanto, a chamada “crise brasileira” atual é imediata e precisa ser compreendida em todas as suas dimensões para não incorrermos em erros de avaliação que favorecem exatamente os já aquinhoados desse país.

Aqui pelo sertão há 35 anos, a gente acaba aprendendo a linguagem do povo, particularmente a população rural do nosso imenso Semiárido.

Lá pela década de 80, quando o povo citava a expressão “crise”, era para dizer que havia fome, sede, miséria. A consequência era a migração, os saques, quando não a imensa mortalidade de crianças e até adultos.

Na seca de 82 o IBASE (Betinho), CPT e outras entidades elaboraram um livro chamado “Genocídio do Nordeste”. O levantamento de nomes de pessoas mortas por inanição (fome e sede) foi projetada para a fábula de 700 mil pessoas por essa razão.

Um humorista paraibano, Zé Lezin, esses dias fez piadas com a tal “crise”. Ele diz que na terra dele “os meninos estão derrubando manga com queijo do reino”. Ou ainda, “o pessoal no bar comenta a crise tomando whisky e comendo camarão”.

Ele é um humorista e essas expressões precisam ser consideradas dentro de sua linguagem. Mas, o que ele exprime, é que a crise depende do ponto de vista de quem a vê e, como já dizia Leonardo Boff, “cada ponto de vista é a vista de um ponto”.

Para aqueles que estão sendo desempregados a crise é uma realidade. Mas, os 7,6% de desempregados da população economicamente ativa estão longe dos 12% dos tempos de Fernando Henrique.

A inflação que passou de 6,5% para 9,5% ao ano é um problema para todos, mas não como no tempo do Sarney, cuja inflação era 13% ao dia. E os econometristas do mercado dizem que ela estará em torno de 5,5% no ano que vem.

A crise do dólar afeta alguns produtos importados, talvez a viagem de muita gente ao exterior, mas em grande parte é jogo da especulação dos mercados.

As recessões serão inevitáveis enquanto esse país depender da exportação de matérias primas como minério de ferro, soja e mais meia dúzia de commodities.

Por aqui ainda não voltou a fome, a sede e a miséria. Portanto, nosso povo simples fica com um sorriso estranho quando se fala em crise. A casa continua lá, a cisterna, a energia, a comida.

Os especuladores – juros básicos de 14,5% ao ano – estão surfando na fantástica onda da crise. Portanto, há quem ganhe – e muito – com a tal crise real e a forjada.

Também é o pretexto para mexer em direitos trabalhistas, previdenciários e “reformas” em cima de quem trabalha.

É o preço que pagamos por não ter sido feita a reforma política – deu em Cunha e nesse PMDB – a tributária, a do judiciário, a educacional, sem falar na reforma agrária, no saneamento básico e mudança da matriz energética.

É um absurdo que um pais energético como esse – ventos, sol, etc. – tenha que sofrer aumento de preços em função do alto custo da energia.

Há dez anos nos diziam que energia eólica era economicamente inviável. Hoje já responde por 30% da energia nordestina e já é a segunda mais barata do Brasil. E nem precisava confiscar terras de comunidades, derrubar topos de morros, ou enfeiar paisagens paradisíacas.

Hoje continuam recitando a mesma ladainha em relação à solar. Daqui alguns anos fará parte integrada e importante de nossa matriz energética. Se for descentralizada, gerará renda para as famílias, como é o caso do Minha Casa, Minha Vida aqui de Juazeiro.

Agora, se a falta de água e a degradação dos solos continuarem se aprofundando e se expandindo, em razão do desmatamento, então iremos cavando uma crise verdadeira e sem retorno.

A crise permanente desse país é a da estupidez.

Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

 

in EcoDebate, 01/10/2015

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4 comentários em “De qual crise estamos falando? artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Caro articulista

    Infelizmente muitos, ainda, só se contentam em olhar nas referencias do passado, quando os contextos políticos, econômicos, sociais nem sempre eram iguais ou semelhantes aos do presente…

    O que de real existe, é uma crise forjada pela adoção de politicas econômicas escrúxulas, politiqueiras e cujos resultados não são surpresa para ninguem!

  2. O Malvezzi continua combativo como sempre.
    Será a crise de apenas de estupidez?
    Ao tempo de Sarney tínhamos hiperinflacao (não de 13 por cento ao dia) mas tínhamos reajuste mensal indexado.
    No tempo de Fernando Henrique tivemos altas taxas de desemprego, mas a inflação estava bem mais baixa.
    Portanto, ao invés de olharmos para o retrovisor, vamos olhar para frente.
    A crise existe, o próprio Governo a reconhece.
    Precisamos agir e deixar a retórica de lado.

  3. A taxa de desemprego de 7,6% é uma farsa!
    Só do Bolsa Família, um programa de transferência direta de renda, cujos beneficiários não são considerados população economicamente ativa, são entre 20 a 25 milhões em plena idade de emprego, mas não são declarados como desempregados. A aceitá-los como desempregados, como qualquer país desenvolvido considera os seus beneficiários com subsídios de inserção social, a taxa de desemprego dispararia para além dos 7,6%, ultrapassando com toda a certeza a taxa dos 20%.

Comentários encerrados.

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