Ondas de calor podem gerar perdas de até 7% do PIB global até 2030

Relatório mostra que ondas de calor já impactam produtividade, consumo de energia, investimentos e contas públicas em diferentes regiões do mundo
O aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor já representa um risco estrutural para a economia global e pode provocar perdas acumuladas de até 7% do Produto Interno Bruto (PIB) em algumas das economias mais expostas até 2030.
É que o revela o mais novo estudo “Too hot to grow: The economic costs of extreme heat”, realizado pela Allianz Research, divisão de pesquisa econômica da Allianz Trade, que analisou os impactos do calor extremo sobre produtividade, consumo de energia, investimentos, inflação e contas públicas.
O estudo identifica que os impactos econômicos do calor se intensificam significativamente quando as temperaturas ultrapassam os 30°C. A partir desse ponto, há uma queda acelerada na produtividade do trabalho, aumento do consumo de energia e pressão sobre custos operacionais das empresas.
Segundo os autores, cada grau adicional acima dos 30°C reduz em aproximadamente US$ 1,30 a produção por hora trabalhada, o equivalente a cerca de 3% da produtividade média observada na amostra analisada entre 2014 e 2024. Paralelamente, a demanda por energia cresce cerca de 1,2% por grau adicional em cenários de calor extremo.
Destaque para o Brasil e América do Sul
O Brasil é destacado nominalmente no estudo como uma das economias que já operam sob níveis elevados de temperatura. O levantamento revela que, ao comparar o consumo de energia per capita durante o episódio de calor mais intenso enfrentado pelo país após 2014 com a sua média histórica do período de 1991–2010, o Brasil registrou um aumento superior a 4% a 5% na demanda por energia. Além disso, em termos regionais, a América do Sul verá o impacto direto no mercado de trabalho se acentuar: a parcela de horas de trabalho perdidas devido ao estresse térmico deve dobrar, subindo de 0,4% em 1995 para 0,8% até 2030.
Impactos globais
Para medir os efeitos macroeconômicos, os economistas apontam um cenário em que os cinco anos mais quentes registrados por cada país entre 2014 e 2024 se repetem progressivamente entre 2026 e 2030. Nesse contexto, as perdas acumuladas de PIB poderiam alcançar US$ 354 bilhões no Japão, US$ 240 bilhões na França, US$ 147 bilhões na Itália, US$ 131 bilhões na Alemanha e US$ 120 bilhões na Espanha.
O estudo também destaca que os impactos não se limitam ao crescimento econômico. Em países mais afetados pelo calor, a formação de capital fixo, indicador ligado a investimentos produtivos, pode cair em média 8% no período analisado. Segundo a Allianz Research, o calor extremo reduz o retorno esperado sobre novos investimentos, desencorajando projetos de expansão e comprometendo a capacidade produtiva futura.
Além disso, os autores identificam um cenário de estagflação em economias mais expostas, com inflação elevada combinada ao aumento do desemprego. Em países como Espanha, França, Itália e Eslováquia, o estudo projeta simultaneamente alta de preços e deterioração do mercado de trabalho, pressionando autoridades monetárias e fiscais.
Os impactos também atingem diretamente as contas públicas: o relatório estima que o calor extremo pode reduzir receitas fiscais anuais em até 1,8% na França, 1,3% na Itália e Espanha e 0,7% na Alemanha, ao mesmo tempo em que aumenta despesas com saúde, infraestrutura, energia e adaptação climática.
Outro ponto destacado pelo relatório é a baixa cobertura securitária relacionada aos danos causados pelo calor extremo. Em 2022, as perdas financeiras na Europa chegaram a €46 bilhões, mas apenas uma pequena parcela estava protegida por seguros. Segundo o estudo, a maior parte dos danos ocorre de forma indireta, por meio de perda de produtividade, pressão sobre sistemas de saúde e impactos econômicos difusos, dificultando a cobertura pelos modelos tradicionais de seguro.
O levantamento também aponta que países e empresas precisarão acelerar medidas de adaptação climática para reduzir os impactos econômicos das ondas de calor. Entre as recomendações estão a criação de protocolos trabalhistas específicos para altas temperaturas, modernização de edifícios para reduzir superaquecimento, investimentos em infraestrutura energética e ampliação de mecanismos de proteção financeira e securitária.
O relatório “Too hot to grow: The economic costs of extreme heat” foi elaborado pela Allianz Research com base em análises econométricas realizadas em dezenas de países entre 1991 e 2024, além de simulações macroeconômicas desenvolvidas com o Oxford Economics Global Economic Model.
Para acessar o estudo completo, clique aqui
Fonte: Allianz Trade
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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