Dilma: a presidenta exterminadora de empregos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“Certamente, os marcos do lulismo agridem mais os valores e interesses da esquerda do que
valores e os interesses da direita. A esquerda brasileira tem mais motivos do que a direita
para ser a favor do impedimento de Dilma e da punição de Lula” (Reinaldo Gonçalves)

 

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[EcoDebate] O trabalho é um direito. A Constituição Brasileira de 1988, no Art 6º, define o trabalho como um dos direitos sociais fundamentais: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

Adam Smith, em 1776, já dizia que o trabalho é a fonte de toda a riqueza, tanto das pessoas, como das famílias e das nações. Esta concepção serviu de base para a teoria do valor-trabalho de Karl Marx. O trabalho como atividade coletiva (a divisão do trabalho e a produtividade) é essencial para o progresso das nações e para a melhoria da qualidade de vida de toda a população. O trabalho garante a renda das pessoas e a produção de bens e serviços fundamentais para o bem-estar social, a autonomia e o empoderamento dos indivíduos, em todas as dimensões de classe, raça, gênero, geração, etc.

Um país que desperdiça o seu potencial de trabalho desperdiçará as chances para vencer a pobreza e garantir o desenvolvimento econômico e social de seus habitantes. Neste sentido, é preocupante o que acontece no Brasil nos últimos 5 anos. Comparando com dezembro de 2010, a gestão Dilma Rousseff, que teve início no dia primeiro de janeiro de 2011, se transformou, infelizmente, numa espécie de exterminadora de empregos e de oportunidades de trabalho.

Segundo o Dieese, o número de pessoas ocupadas na região metropolitana de São Paulo era de 9,7 milhões de habitantes em dezembro de 2010 e caiu para 9,5 milhões em julho de 2015 (o emprego não deve ter o comportamento sazonal de aumento no segundo semestre de 2015 como nos anos anteriores). Portanto, o Brasil vive a crise econômica mais intensa dos últimos 25 anos e tudo leva a crer que a redução da população ocupada esse ano deve continuar mesmo na temporada de compras de natal. Como a população da região metropolitana de São Paulo é superior a 20 milhões de habitantes (equivalente às populações de Portugal + Grécia), tem-se uma triste situação em que menos da metade das pessoas estão ocupadas. Portanto, o desperdício do potencial da força de trabalho é enorme.

O desemprego (aberto e oculto) na região metropolitana de São Paulo passou de cerca de um milhão em dezembro de 2010 para mais de 1,5 milhão em julho de 2015. O desemprego atinge com mais intensidade as mulheres e os jovens. A taxa de desemprego que estava em 10,1% em dezembro de 2010 passou para 13,7% em julho de 2015.

 

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O desperdício da mão de obra não é exclusividade de São Paulo. A quantidade de pessoas ocupadas nas 6 maiores regiões metropolitanas do Brasil (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre) tem diminuído nos últimos anos e, em breve, deve ficar abaixo do nível existente quando a presidenta Dilma Rousseff tomou posse em 01/01/2011. A população em idade ativa cresceu, mas as oportunidades de trabalho diminuíram. O desemprego aumentou. Isto significa um retrocesso econômico e um sofrimento para a população mais pobre que não tem outro meio digno de sobrevivência e autonomia.

Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, a população ocupada nas 6 regiões metropolitanas era de 22.450 mil pessoas (12.241 mil homens e 10.209 mil mulheres) em dezembro de 2010 e passou para 22.755 mil pessoas (12.216 mil homens e 10.539 mil mulheres) em julho de 2015. Nos 4,5 anos de governo da presidenta Dilma Rousseff o número de homens efetivamente ocupados diminuiu e o número de mulheres ocupadas está praticamente estagnado.

A taxa de ocupação (percentagem da população ocupada – PO – sobre a população em idade ativa – PIA) estava em 54% em dezembro de 2010, subiu para 55,3% em novembro de 2012, voltou ao nível de 54% em dezembro de 2013 e caiu rapidamente até atingir o nível de apenas 51,9% em julho de 2015. Ou seja, a geração de emprego ficou estagnada no primeiro governo Dilma e praticamente entrou em colapso no início do segundo governo.

 

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A quantidade de pessoas desempregadas nas 6 maiores regiões metropolitanas subiu para 1,84 milhões em julho de 2015, sendo 856 mil homens e 988 mil mulheres. A taxa de desemprego aberto da população total que estava em 4,3% em dezembro de 2014 passou para 7,5% em julho de 2015, atingindo 18,5% entre os jovens de 18 a 24 anos e alarmantes 34,6% entre jovens de 15 a 17 anos. Há que se considerar que a PME não leva em consideração o desalento e o desemprego oculto, como faz o Dieese. Caso isto fosse considerado, as taxas de desemprego seriam bem mais altas.

O número de empregados com carteira de trabalho assinada nas 6 maiores regiões metropolitanas subiu de 8,4 milhões em dezembro de 2002 para 11,6 milhões em dezembro de 2010 e para 12,7 milhões em dezembro de 2012. A partir desta data, houve uma estagnação da geração de empregos formais até o pico de 12,9 milhões em outubro de 2013. O ano de 2014 deixou de abrir novas vagas com carteira assinada e houve uma pequena queda no estoque de empregos formais que atingiu 12,8 milhões em novembro. Mas a queda se acelerou nos primeiros sete meses de 2015 e o número caiu para 12,26 milhões de empregos em julho de 2015.

 

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Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho, mostram um colapso do emprego formal. Depois das últimas eleições presidenciais, entre dezembro de 2014 e julho de 2015 foram fechadas mais de um milhão e cem mil vagas com carteira assinada no Brasil. São cerca de 5 mil vagas com carteira de trabalho assinada perdidas por dia, em 8 meses. O emprego formal encolhe enquanto cresce a população em idade de trabalhar e que está engrossando as fileiras do desemprego aberto ou do desalento.

 

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Dados da PNAD contínua do IBGE mostraram que a taxa de desemprego no Brasil subiu no segundo trimestre deste ano e chegou a 8,3%, representando uma população desocupada de 8,4 milhões de pessoas. É maior taxa da série histórica, que teve inicio em 2012. No primeiro trimestre deste ano, o índice foi de 7,9%. Já no segundo trimestre de 2014, a taxa era de 6,8%.

Portanto, qualquer que seja a pesquisa considerada, a crise social é muito forte e séria. Com todos estes números negativos não é de se estranhar que a popularidade da presidenta Dilma esteja abaixo de 10%, o menor nível da história. E o pior é que as coisas não vão melhorar no curto e médio prazo. O departamento de Pesquisa Macroeconômica do Itau-Unibanco, divulgou relatório, em agosto, prevendo um cenário mais deteriorado da economia brasileira. A projeção para o PIB deste ano foi revista de -2,2% para -2,3% e a do ano que vem foi de -0,2% para -1%. Menos crescimento do PIB significa menos oferta de trabalho e mais desemprego. Uma crise internacional pode piorar mais as coisas por aqui. As manifestações de junho de 2013 já refletiam a estagnação do mercado de trabalho e a RMSP é a que mais sofria com a não geração de novas vagas de trabalho. Agora é a população mais pobre vai enfrentar os maiores sofrimentos.

Portanto, não é novidade os baixos índices de popularidade do governo, do PT e dos políticos em geral. Na campanha eleitoral Lula disse que o segundo mandato de Dilma seria melhor do que o primeiro. Mas está sendo muito pior. Agora em setembro de 2015, Lula e Dilma dizem em propaganda que a crise é transitória e que o país vai voltar a crescer em todo o seu potencial. Todavia, segundo o economista Reinaldo Gonçalves: “A questão política relevante é que, há alguns anos, estamos atolados em uma séria crise de legitimidade do Estado (descrença na capacidade do governo Dilma de resolver os problemas de curto, médio e longo prazos). A mediocridade esférica do governo Dilma resulta no fato de que ele é avaliado como ruim por capitalistas e trabalhadores, por ricos e pobres, pela direita e pela esquerda (…) Não há como recuperar a legitimidade da política sem ruptura radical com Lula e Dilma”.

Assim, a crise é ampla, geral e irrestrita. No que diz respeito ao mercado de trabalho, o governo está ignorando que a meta defendida pela OIT de “Pleno emprego e Trabalho decente” está cada vez mais distante e o Brasil está a caminho de desperdiçar de vez os últimos anos do bônus demográfico. Pode ser o fim da linha do processo de desenvolvimento econômico do país.

Referência:
Gabriel Brito. Não há como recuperar a legitimidade da política sem ruptura radical com Lula e Dilma, entrevista com Reinaldo Gonçalves, Correio da Cidadania, 21/08/2015
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11039:2015-08-21-22-22-10&catid=34:manchete

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 02/09/2015

Dilma: a presidenta exterminadora de empregos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/09/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/09/02/dilma-a-presidenta-exterminadora-de-empregos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.


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4 comentários em “Dilma: a presidenta exterminadora de empregos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Nunca esperava uma análise tão interiorana, descontextualizada e obtusa quanto essa.

  2. AO MENOS UM POUCO DE COERÊNCIA.

    Ao que parece, o desejo de afastar a Presidente Dilma, o ex-Presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores do cenário político nacional ( e que belo cenário!) está levando à produção de matérias como esta que estamos comentando, a qual vê o Brasil totalmente desconectado do planeta Terra, como se fosse um país totalmente independente de influências externas e dotado das melhores condições para proporcionar a todos os seus habitantes os melhores padrões de vida, ao mesmo tempo em que as grandes empresas privadas conseguem lucros anuais acima de 100% do capital de giro.
    Será que não têm conhecimento de que grande parte do planeta – ou todo o planeta – se encontra em séria crise econômica, ambiental, climática, etc., e que, talvez, não haja condição de superar essa crise?
    Quem pretender fazer oposição ao atual governo brasileiro, que faça, mas sem esquecer que há de haver, ao menos, um pouco de coerência nos ataques que fazem.
    Não são raras as publicações de matérias com fundamentação científica, neste Portal EcoDebate, alertando para a vasta degradação ambiental, para as grandes alterações climáticas, para a miséria em grande parte do planeta, e prevendo a ocorrência, em breve espaço de tempo, de um colapso planetário total.
    O Brasil está mergulhado em uma crise insolúvel, seja com Dilma, Lula e PT, ou com qualquer outro partido ou grupo de partidos políticos que ocupe o poder. Isto é válido para todo o planeta, especificamente, para os países capitalistas.

  3. Temos 50 milhões no Bolsa Família, que vivem na linha da pobreza(77 Reais mensais) e mais 10 milhões abaixo da linha da pobreza, ou seja, 30% da população é pobre ou extremamente pobre. O IBGE deveria assumir estatisticamente como desempregados, os mais de 20 milhões de brasileiros em idade de emprego e sem ocupação estudantil do Bolsa Família, e a taxa de desemprego certamente que suplantaria facilmente os 20%.

    Dizer que os países europeus estão mergulhados em uma crise insolúvel, é ser de um pessimismo acima do normal, e denota um forte desconhecimento da realidade econômica e social destes países.

Comentários encerrados.

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