Contaminação do Aquífero Barreiras X Águas Minerais – Crônica Potiguar, artigo de Carlos Augusto de Medeiros Filho

 

artigo

[EcoDebate] O aquífero Barreiras não só disponibiliza, via CAERN, a maior parte do abastecimento de água, como também é fonte para indústrias de águas minerais na Região Metropolitana de Natal. Dessa forma, o processo de contaminação do Barreiras pode também refletir nas águas minerais comercializadas e consumidas pela população potiguar. Infelizmente alguns informes técnico-científicos indicam que já existem casos comprovados desse grave problema.

Municípios no entorno de Natal, como Parnamirim, Macaíba e Extremoz, registram significativas taxas de crescimento urbano e se caracterizam por conter diversas reservas de águas minerais. Nóbrega et al. (2008) analisaram, para nitrato, dez marcas de águas minerais comercializadas em Natal cujas as fontes se localizam nos três municípios citados acima. Os autores compararam os resultados obtidos na pesquisa com as concentrações de nitrato que essas águas apresentaram no ano em que suas respectivas indústrias foram autorizadas a operar. A tabela 1 abaixo sintetiza essas informações.

Agua_Mineral

Nitrato (mgNO3/L) DNPM

Ano_DNPM

Nitrato (mgNO3/L) Nobrega et al

Ano_Nobrega et al

Amostar_01

12.50

1985

19.12

2005

Amostar_02

4.20

2001

3.66

2005

Amostar_03

4.70

1999

4.54

2005

Amostar_04

0.95

1987

5.26

2005

Amostar_05

0.001

1993

0.85

2005

Amostar_06

0.37

1999

0.37

2005

Amostar_07

4.53

1999

3.18

2005

Amostar_08

48.07

2005

Amostar_09

11.93

1993

57.30

2005

Amostar_10

1.20

2002

2.98

2005

Tabela 1 – resultados de concentrações de nitrato originais (DNPM) e os obtidos na pesquisa de Nóbrega et al. (2008).

A Resolução RDC nº 274 da ANVISA (BRASIL, 2005) coloca o limite máximo de nitrato em águas minerais de 50 mgNO3/L. Os dados da tabela 1 permitem fazer algumas observações relevantes:

a) Uma marca de água mineral (amostra 9) apresentou, em 2005, valor de 57.30 mgNO3/L e, portanto, superior ao limite permitido para águas minerais. Um aspecto importante é que essa marca apresentava um resultado bem mais baixo (11.93 mgNO3/L) em 1993. Esse substancial aumento é um indício forte do processo de contaminação de nitrato.

b) Cabral et al (2009) comentam que no processo de contaminação, para nitrato, dos aquífe­ros Dunas/Barreiras de Natal é essencial considerar fatores como o adensamento e histórico populacional em conjunto com a qualidade do saneamento praticado.

c) A amostra 8 da tabela 1 não tem registro analítico original, mas os resultados em 2005 apresentam valor próximo ao limite da ANVISA e que, sem dúvida, é um indicativo de contaminação.

d) As amostras 1, 4 e 10 registraram representativos crescimentos nos valores de nitrato em 2005 em relação aos resultados originais, servindo de alerta dessa tendência de contaminação.

e) As amostras restantes (02, 03, 05, 06 e 07) registraram valores baixos em 2005 e praticamente não apresentaram variações em relação aos resultados originais do DNPM. São marcas, portanto, com fontes ainda preservadas de contaminação para nitrato.

Rodrigues et al. (2009) fizeram análises das concentrações de nitrato para 3 diferentes marcas de águas minerais, localizadas nos arredores do município de Natal. Uma dessas marcas apresentou valor acima daquele recomendado pela ANVISA, enquanto as outras duas registraram valores baixos.

Os dados dos pesquisadores, transmitidos acima, registram exemplos de águas minerais comercializadas, em Natal, com resultados não recomendáveis de nitrato ou com representativos indícios de processos contaminantes desse parâmetro químico.

Rodrigues et al. (2009) sugerem que várias medidas mitigadoras devem ser tomadas visando à melhoria da qualidade da água da Grande Natal, dentre as quais: o desenho e montagem de um sistema de esgotamento sanitário imediato, a racionalização do sistema de abastecimento de água, a preservação dos mananciais, realização de estudos para avaliar os impactos da impermeabilização do terreno para um melhor conhecimento dos mecanismos do fluxo subterrâneo e atualização dos conhecimentos sobre a qualidade das águas.

Nóbrega et al. (2008) recomendam a realização de um projeto que objetive o cadastramento e nivelamento de poços subterrâneos nas outras cidades pertencentes à Região Metropolitana de Natal, tornando-se possível retratar de forma precisa a real situação de toda região, e seu consequente monitoramento; fiscalização no processo de perfuração de poços subterrâneos; controle das possíveis fontes poluidoras; e em longo prazo, a implementação de rede de esgotamento sanitário em caráter global.

Em crônica anterior, nesse mesmo blog, fizemos uma proposta de uma amostragem e análise representativas de águas expostas para venda em mercados e distribuidores. Este trabalho serviria, a princípio, para checar / confirmar os resultados dos apresentados nos rótulos. Permitiria, também, identificar e procurar as causas de possíveis desvios encontrados nos parâmetros químicos e físico-químicos.

Acreditamos que esse cheque analítico é um importante e simples método de garantir, ao cidadão, a qualidade do produto consumido. Além da própria fonte, a água mineral pode ser contaminada por diversos processos que vão desde o tipo da embalagem, do processo de envasamento; meio de transporte e armazenamento, etc.

Uma proposta de amostragem e análise periódica de águas minerais expostas para vendas em mercados e distribuidores seria uma iniciativa útil e popular. Fica registrada, portanto, a sugestão para os nossos representantes políticos e para o ministério público.

Publicado originalmente no http://cacamedeirosfilho.blogspot.com.br/ em dezembro, 2013.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC no 274 de 22 de setembro de 2005. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Poder Executivo, Brasília, 23 de setembro de 2005.

Cabral, N. M. T.; Righettto, A. M.; Queiroz, M. A. Comportamento do nitrato em poços do aquífero DUNAS e PLANALTO, Natal, RN. Brasil Eng Sanit Ambient | v.14 n.3 | jul/set 2009 | 299-306.

NÓBREGA, M. M. S.; ARAÚJO, A. L. C.; SANTOS, J. P. Avaliação das concentrações de nitrato nas águas minerais produzidas na região da Grande Natal. Revista Holos. Vol. 3. 2008. 4-25 p.

Rodrigues, M; Pereira, R.; Mayer, A.; Magalhães, D. R. M.; Fernandes Jr., J. R. A atual situação da contaminação por nitrato nos poços da cidade de Natal/RN: o caso das águas minerais. IV Congresso de Pesquisa e Inovação da Rede Norte e Nordeste de Educação Tecnológica. Belém – Pa. 2009.

Carlos Augusto de Medeiros Filho, geoquímico, graduado na faculdade de geologia da UFRN e com mestrado na UFPA. Trabalha há mais de 30 anos em Pesquisa Mineral.

 

Publicado no Portal EcoDebate, 25/02/2015

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2 comentários em “Contaminação do Aquífero Barreiras X Águas Minerais – Crônica Potiguar, artigo de Carlos Augusto de Medeiros Filho

  1. Faltou acrescentar uma informação importante que bastante gente não sabe sobre composição de água: o nitrato é um dos indicadores de contaminação da água por esgoto. Portanto, água com altos níveis de nitrato tem uma boa chance de estar contaminada por esgoto.

    Verdade, a informação está subentendida no texto. Mas colocando mais às claras é isso.

  2. Mariana, você tem toda razão.
    O nitrato indica que a água foi contaminada, mas essa contaminação é antiga.
    A contaminação recente é medida pela concentração de amônia. Esta se converte a nitrito e, depois, a nitrato, que é matéria mineral.

Comentários encerrados.

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