A China e a reprimarização da América Latina: novo imperialismo? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

 

[EcoDebate] As lideranças políticas da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) – bloco que agrega de 33 países da região – se reuniram nos dias 08 e 09 de janeiro de 2015 em Pequim, para a primeira reunião do fórum China-Celac.

O presidente chinês, Xi Jinping, disse que o encontro é um sinal positivo sobre o aprofundamento da cooperação entre China e América Latina e Caribe (ALC) e terá um impacto de longo prazo na promoção da cooperação sul-sul e para prosperidade no mundo. Ele disse que há uma expectativa de que o comércio bilateral entre China e América Latina suba para US$ 500 bilhões em dez anos e garantiu US$ 250 bilhões em investimentos chineses na América Latina nos próximos dez anos, como parte de um movimento para impulsionar a influência da China na região, superando a histórica dominação da América do Norte.

A Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) divulgou o estudo “Primer Foro de la Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños (CELAC) y China: Explorando espacios de cooperación en comercio e inversión” mostrando que o comércio de bens entre a Celac e a China aumentou 22 vezes entre 2000 e 2013, de US$ 12 biilhões para US$ 275 bilhões, sendo que a China passou a ser o maior “sócio” das transações internacionais da ALC. Em igual período, o comércio da região com o mundo aumentou apena 3 vezes.

O documento apresentado pela Secretária Executiva da Cepal, Alicia Bárcena, se preocupa com o crescente déficit na balança comercial entre os países da Celac e a China e sugere que os investimentos externos diretos (IED) da China sejam alocados em outros setores que não somente nas atividades extrativas, onde se concentra 90% dos investimentos chineses na ALC.

 

 

De fato a China foi muito importante para o ciclo de crescimento da América Latina e Caribe desde o início do século XXI. Foi a alta demanda chinesa que possibilitou o boom das commodities, que elevou o crescimento da economia, valorizou as moedas nacionais dos diversos países da ALC, reduziu o desemprego e possibilitou o aumento dos gastos sociais no sentido de reduzir a pobreza e aumentar a proteção social.

Mas ao mesmo tempo houve um regresso na qualidade do desenvolvimento da região. A maioria dos países da América Latina e Caribe estão passando por um processo de reprimarização, pois a China compra petróleo da Venezuela, cobre do Peru e Chile, soja da Argentina e do Brasil, dentre outros produtos primários e exporta produtos de maior valor agregado.

Enquanto houve crescimento da demanda e do preço das commodities a ALC se beneficiou, embora a valorização cambial tenha levado ao processo conhecido como “doença holandesa”, que necessariamente leva à uma desindustrialização, no caso da ALC, precoce desindustrialização.

Ou seja, a China foi importante para a retomada da economia da ALC depois da “década perdida”. Mas ao mesmo tempo ela aprofundou uma nova dependência, pois os países latinoamericanos exportam produtos primários e de baixo valor agregado e importam produtos industrializados da China. O emprego industrial cresce na China e diminui na América Latina e Caribe.

Agora, em 2014 e 2015, quando o preço das commodities estão caindo em todo o mundo, os países da Celac estão recorrendo à china à busca de capitais para fechar seus balanços de pagamento. Ou seja, primeiro aprofundaram a dependência econômica e agora vão aprofundar a dependência financeira.

O nome que se dá a esse processo na literatura internacional, desde Rosa de Luxemburgo (1871-1919) e Rudolf Hilferding (1877-1941), é imperialismo. Isto é, a China tem relações do tipo imperialista com os países latinoamericanos e os países latinoamericanos tem relações de dependência com a China.

Na verdade, o “Império do Meio” teve um superávit comercial recorde com o resto do mundo em 2014, de US$ 382 bilhões, resultado do saldo de exportações anuais de US$ 2,34 trilhões e importações anuais de US$ 1,96 trilhões. A China que exportava menos do que o Brasil até 1984, agora exporta 10 vezes mais e possui reservas internacionais de mais de US$ 4 trilhões de dólares.

A ironia é que a criação desta nova dependência a este novo imperialismo é comemorada pelos governos de esquerda da América Latina e Caribe e pelo governo comunista da China, líder dos BRICS. Ao mesmo tempo, tudo isto deixa preocupado os velhos imperialismo europeu e americano. Já há quem diga que o “quintal” está mudando, de novo, de dono.

Referência:
CEPAL. Primer Foro de la Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños (CELAC) y China: Explorando espacios de cooperación en comercio e inversión, Santiago, janeiro de 2015-01-09
http://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/37577/S1421104_es.pdf?sequence=1

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 25/02/2015

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4 comentários em “A China e a reprimarização da América Latina: novo imperialismo? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. …E A CHINA É COMUNISTA??????????????????????

    Gostaria de ter a resposta a essa pergunta, devidamente comentada.

  2. Olá Valdeci,

    A China fez uma revolução comunista em 1949 e é dirigida por um partido comunista. Fez uma revolução cultural e expulsou os “capitalistas” para Taiwan. Tem uma bandeira vermelha com 5 estrelas… etc.

    Mas a China é realmente comunista?

    Para responder, temos que saber o que é de fato o comunismo. É só uma proposta utópica e inviável na prática ou existiu e existe algum regime verdadeiramente comunista no mundo????

    Bem, há várias possibilidades de resposta.

    Mas para ser bem breve e responder a sua pergunta, parece que se pode definir a China como uma ditadura política com um regime econômico capitalista de estado.

    Isto é, um regime com controle do partido único e que baseia a economia nos princípios de eficiência de mercado, mas com grande interferência estatal….

    Uma coisa híbrida e estranha, mas que está dominando o mundo e particularmente a América Latina….

    Abs, JE

  3. “A China compra petróleo da Venezuela, cobre do Peru e Chile, soja da Argentina e do Brasil, dentre outros produtos primários e exporta produtos de maior valor agregado.”.

    A América Latina está a ser mantida como vendedora de produtos primários e compradora de produto chinês industrializado. É o capitalismo a funcionar em pleno! Está dominando a América Latina e os Países Africanos produtores de matéria prima fóssil e com boas terras para a exploração da agroindústria.

  4. Obrigado a José Eustáquio e a Joma Bastos por seus valiosos comentários, os quais fortificam minhas suspeitas de que o capitalismo é, de fato, um ser todo-poderoso, que, aliado às forças religiosas e utilizando a mídia e a chamada educação como propagadoras de sua ideologia, consegue se introjetar na grande maioria dos seres humanos, e, com tanto poderio, inevitavelmente, será, no final, “o grande vitorioso”, quando, em breve, todo o sistema Terra entrar em colapso.
    Como se pode perceber, trata-se de uma vitória contraditória. Mas… Fazer o quê????????????????????

Comentários encerrados.

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