Sobrevivência de ecossistemas de Bertioga exige atenção

 

ecossistemas de Bertioga
Pesquisa avalia risco ecológico provocado por ações humanas e propõe soluções para planejamento e conservação em região de grande biodiversidade (acervo IG-SMA/SP)

 

As bacias dos rios Itaguaré e Guaratuba, localizadas no interior do Parque Estadual da Restinga de Bertioga (município da região metropolitana da Baixada Santista, em São Paulo), guardam um importante patrimônio natural brasileiro, com grande geodiversidade e biodiversidade. Elas abrigam diversos tipos de formações geológicas e diferentes ecossistemas de planície costeira e vegetação de restinga. Se as intervenções provocadas pelo homem seguirem em curso na região, no entanto, o local poderá ser afetado de maneira irreversível.

É o que conclui uma pesquisa coordenada por Celia Regina de Gouveia Souza, pesquisadora do Instituto Geológico da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo e professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Geografia Física da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), realizado com apoio da FAPESP.

De modo geral, o risco ecológico da área é classificado como médio. “Isso quer dizer que novas ações humanas podem desequilibrar de vez os sistemas, principalmente se afetarem solos e águas, dois dos fatores que mais influenciam na classificação do risco”, afirmou Souza.

Os diferentes níveis de atenção a que os sistemas naturais de Bertioga estão sujeitos foram calculados a partir da Avaliação de Risco Ecológico (ARE). Trata-se de uma ferramenta científica que estabelece a chance de um evento adverso comprometer a integridade de um sistema e dos serviços ambientais oferecidos ao homem – como matéria-prima para a produção de alimentos e remédios, madeira para diferentes usos, água para abastecimento e produção de energia, cobertura vegetal para controle natural de erosão, entre outros.

Embora ainda seja possível encontrar ecossistemas íntegros em Bertioga (sem importantes intervenções antrópicas – feitas pelo homem) ou em estado muito avançado de regeneração, já existem trechos sob risco ecológico alto e muito alto, o topo da escala.

Os pontos mais críticos estão nas bordas das florestas, onde a ocupação é mais intensa; na zona mais próxima do mar, pela qual passam rodovias, oleodutos e linhas de alta tensão; e em estradas vicinais que cruzam a planície costeira, interceptando diversos ecossistemas.

“Essas estruturas afetam, por exemplo, a drenagem natural da planície costeira, de baixa declividade e com nível de lençol freático muito raso, promovendo a rápida acumulação e retenção de água nos períodos de chuva, o que desequilibra o funcionamento de alguns ambientes costeiros”, disse Souza.

Segundo a pesquisadora, outra área sob ameaça é a do condomínio Morada da Praia, que, por cruzar toda a planície costeira, afetou vários ecossistemas e provocou mudanças permanentes. Entre elas, estão alterações no regime de fluxos de águas superficiais e subterrâneas, nas características dos solos superficiais e até mesmo no tipo de vegetação nativa que recobria algumas das áreas vizinhas ao condomínio. “Todas essas modificações ambientais requerem ações de recuperação e proteção”, disse Souza.

Os estudos também apontam problemas na flora e na fauna das bacias dos rios Itaguaré e Guaratuba, por conta de ações extrativistas ilegais. A ocorrência natural do palmito, por exemplo, já é rara na região.

Estudos multidisciplinares

As pesquisas que Souza realiza nas planícies costeiras paulistas desde o início dos anos 1990 sempre apontaram para a existência de associações específicas entre os diferentes ambientes de sedimentação e determinados tipos de vegetação.

Por exemplo, as florestas baixa e alta de restinga (a primeira com árvores de menor porte, próxima à praia, e a segunda com árvores maiores e distribuídas em direção ao interior da planície costeira) ocorrem somente sobre depósitos marinhos (antigas linhas de praia formadas durante os eventos de subida e descida do nível do mar). Já nas depressões centrais das planícies costeiras, onde se desenvolviam estuários e lagunas quando o nível do mar estava bem mais alto que o atual (há 5.600 anos), hoje ocorrem somente as florestas paludosas (permanentemente encharcadas) e suas variações.

Em Bertioga, onde os estudos são desenvolvidos desde 2006, a pesquisadora e sua equipe obtiveram 17 grupos de associações, preliminarmente denominados de “sub-biomas” de planície costeira. Os principais “sub-biomas” foram estudados quanto aos seus aspectos geológicos, geomorfológicos, hídricos, pedológicos (solos), microclimáticos e botânicos.

“No Brasil, é a primeira vez que se traça um panorama como esse. O mapa de ‘sub-biomas’ que desenhamos e os estudos realizados são fundamentais para entender o complexo comportamento dos ambientes costeiros, subsidiar projetos para a recuperação de áreas degradadas e repensar as formas de uso e ocupação das planícies costeiras”, afirmou Souza.

Segundo a pesquisadora, alguns desses ‘sub-biomas’ já estão ameaçados de extinção. É o caso da floresta baixa de restinga sobre cordões litorâneos – quando o nível do mar desce, deixa para trás linhas de praia, denominadas cordões litorâneos – do período Holoceno (de 11.800 mil anos atrás ao presente). Por ter distribuição restrita ao longo das áreas mais próximas à praia, tal floresta vem sendo sistematicamente destruída pela urbanização em todos os estados costeiros brasileiros onde ocorre.

“Além das intervenções antrópicas, há processos naturais que também colocam esse ‘sub-bioma’ em risco, como a atual elevação do nível do mar e o aumento do número e da magnitude das ressacas em decorrência das mudanças climáticas”, disse Souza.

Três estudos de pós-graduação vinculados à FFLCH/USP viabilizaram monitoramentos que compuseram a ARE dos 17 “sub-biomas”: a dissertação de mestrado de Daniel dos Santos Pereira, a tese de doutorado de Felipe de Araújo Pinto Sobrinho – ambas com bolsas FAPESP – e a tese de doutorado de Jaime H. J. Badel-Mogollón, com bolsa do CNPq.

Entre os principais fatores monitorados estão variações de chuva e de temperatura, balanço hídrico das bacias, nível do lençol freático, qualidade da água superficial e subterrânea, características da vegetação (fitossociologia e florística), alterações na paisagem natural por atividades humanas, parâmetros químicos dos solos e sua estabilidade estrutural – sendo que para este último o projeto contou com a participação de pesquisadores da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade de Antioquia, na Colômbia.

A partir desses componentes ambientais foram obtidas a sensibilidade ecológica (importância ecológica dos componentes ambientais e sua vulnerabilidade) e a intensidade potencial de efeitos (impactos gerados pelas atividades antrópicas e adversidades naturais sobre os componentes ambientais), para completar a análise do risco ecológico.

Aplicações práticas e acadêmicas

O conjunto das informações levantadas oferece um panorama sobre zonas que devem receber atenção prioritária, tanto em relação à reparação de danos como em relação à preservação ambiental.

Os dados já contribuíram para discussões que culminaram na criação do Parque Estadual da Restinga de Bertioga (PERB), em dezembro de 2009. Com mais de 9 mil hectares, o local engloba as bacias dos rios Itaguaré e Guaratuba. Souza faz parte do Conselho Gestor do PERB e participará da elaboração do futuro Plano de Manejo do parque.

Além disso, Souza conta que o projeto gerou dados valiosos para o planejamento ambiental de Bertioga; para o Plano Estadual de Gerenciamento Costeiro; para estudos sobre recuperação de áreas degradadas de vegetação de restinga, economia verde e impactos das mudanças climáticas em ecossistemas costeiros; além de estudos ecológicos, geológicos, hidrológicos, climatológicos e botânicos em outras planícies costeiras.

“O conhecimento acumulado colabora com a tarefa de cientistas e gestores públicos de minimizar os impactos do planejamento inadequado ou ausente sem desconsiderar as necessidades humanas que envolvem o uso de recursos naturais”, disse Souza.

Matéria de Noêmia Lopes, da Agência FAPESP, publicada pelo EcoDebate, 07/08/2013


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Alexa

Um comentário em “Sobrevivência de ecossistemas de Bertioga exige atenção

  1. Saudações a todos. Participei dentro do MMA do processo de criação desta UC, quando era concebida como federal, e ficou muito claro a todos os partícipes da importância e quase que exclusividade deste ambientes naturais na baixada santista. Posteriormente, coloquei meu nome para gestor da mesma, me dispondo inclusive a sair de Brasília e ficar à mercê de um cargo político, que poderia me ser tirado a qualquer momento, na medida em que pisasse em calos do poderoso setor especulativo imobiliário paulista. Na época fiquei bem chateado de ter meu nome indicado tecnicamente, mas não politicamente, mas vejo como positivo hoje, já que certamente teria oferecido resistência e chateação aos empreendedores, que certamente pediriam minha cabeça.

    Avalio agora que para mim não ter sido gestor foi positivo, certamente seria defenestrado com menos de um ano, rs, mas hoje, infelizmente para nós preocupados com a questão ambiental, esta UC é mais um instrumento de destruição do que de preservação, uma vez que foi capturada pelo setor imobiliário, que à princípio não queria vê-la sendo criada, quando mais sendo adequadamente manejada e gestada. Não digo com isso que o PERB deve ser desconstituído, de modo algum, isso é uma conquista que têm sido desvirtuada, mas é uma conquista que deve ser mantida. Mesmo que nadando contra a corrente, é importante que a sociedade local e regional não desista da mesma, pois a UC é para sempre, e governos e pessoas passam. Há que se fazer presente, criando resistências e fortalecendo resiliências próprias e alheias, evitando que as forças atuais se perpetuem e façam dela seu quintal. No mais, há ações que nunca caberiam dentro dela, como instalação de setores de residências, prédios, aberturas de vias, e por aí vai, então por mais empoderado que estejam os canibais imobiliários no cenário atual, eles não podem tudo. Assim, é necessário tomar uma atitude de controle social, participando oficialmente do conselho, ou denunciando ao MP o impedimento, buscar criar um diálogo junto à prefeitura, gestor, sociedade adjacente, e por aí vai. Enfim, se não podemos fazer valer o PERB, praticar ao menos o que chamo de “constrangimento”.

    Ao que me consta, não confirmo, o atual gestor do PERB é Engenheiro Civil e possui uma empresa que presta serviços ao setor imobiliário. O fato de o atual gestor ser engenheiro civil não o desqualifica em nada, mais vale o caráter e atitude que a sua formação. Também ter uma empresa em nada o impede, até onde eu sei. Para vocês verem, um dos melhores administradores da mata atlântica no tempo de MMA que conheci é Administrador de Empresas, Wigold Schaffer – que inclusive esteve no processo de criação desta UC e esta semana sofreu um atentado de um covarde caçador (redundante o adjetivo). O que impede mesmo, ao menos em tese, é manejar a UC de modo que ela não atenda aos seus objetivos de criação. Acredito que o PERB não tenha ainda um Plano de Manejo, e não sei em SP como isso é feito, se pela FF ou por empresas contratadas. Indiferente disso, o mesmo deve ser participativo e é aí que se pode cercear pessoas que não querem ver a coisas toda funcionando, pois o Plano é vinculante da ação dos gestores, e o que tiver nele deve ser buscado de ser implantado.

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