Projeto revisa trabalhos que abordam o ciclismo como meio de transporte e a saúde pública

 

Ao longo dos anos, a bicicleta deixou de ser brinquedo de criança. Hoje, é considerada um meio de transporte de baixo carbono e benéfico para a saúde, além de ser uma importante ferramenta para o desenvolvimento sustentável do planeta. Mas até que ponto podemos perceber tais benefícios em prol da promoção da saúde? Com esse intuito, os pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Mauren Lopes de Carvalho e Carlos Machado de Freitas desenvolveram o estudo Pedalando em busca de alternativas saudáveis e sustentáveis, uma revisão dos trabalhos científicos que tratam da relação entre o ciclismo como meio de transporte e a saúde pública. A Ensp, por sua vez, também investe no tema, por meio do projeto Pedalando pela sua Saúde, pelo Nosso Planeta, que, desde 2008, incentiva o uso de bicicletas como transporte no campus da Fiocruz. Com isso, a escola se mantém na vanguarda das ideias voltadas para uma visão de saúde pública mais ampla, que inclui qualidade de vida, promoção da saúde, valorização da pessoa, saúde mental e preocupação com a gestão ambiental.

 

 Dos 66 artigos selecionados, 46 abordam diretamente ciclismo e saúde pública e tratam de questões como segurança do ciclista; uso do capacete; fatores que estimulam ou inibem o uso da bicicleta como meio de transporte; e avaliação de programas e políticas públicas
Dos 66 artigos selecionados, 46 abordam diretamente ciclismo e saúde pública e tratam de questões como segurança do ciclista; uso do capacete; fatores que estimulam ou inibem o uso da bicicleta como meio de transporte; e avaliação de programas e políticas públicas

As constantes preocupações mundiais com a situação ambiental, bem como o aumento do sedentarismo nas populações – que provoca doenças coronarianas, diabetes tipo 2 e obesidade infantil, entre outras –, têm estimulado a busca do ciclismo como uma das alternativas para o transporte urbano. “O chamado transporte ativo (TA), ou seja, meios de transporte à propulsão humana (caminhadas, bicicletas, triciclos, patins, skates e até cadeiras de rodas), ganha a cada dia mais adeptos”, destacam Mauren Lopes e Carlos Machado. Segundo os pesquisadores, além de não gerar poluição atmosférica e sonora, o TA ocupa menos espaço físico que os automóveis, apresenta um menor custo econômico e permite a prática da atividade física sem exigir tempo extra diário das pessoas.

Apesar dos benefícios para a promoção da saúde, o uso das bicicletas como meio de transporte pode ampliar o risco de acidentes. No entanto, isso não impede o fortalecimento de políticas públicas de valorização desse veículo em diferentes países. Para investigar essa questão inicial, os autores utilizaram artigos publicados nas bases PubMed, Lilacs e SciELO, das quais selecionaram 66 trabalhos para análise.

Bicicletas pelo mundo

Dos 66 artigos selecionados, 46 abordam diretamente ciclismo e saúde pública e tratam de questões específicas: segurança do ciclista; uso do capacete entre ciclistas; fatores que estimulam ou inibem o uso da bicicleta como meio de transporte; avaliação de programas e políticas públicas específicas para estimular o TA; entre outros assuntos. Já os 20 restantes, que abordam o tema indiretamente, desenvolvem questões mais genéricas: segurança no trânsito, incluindo a segurança de pedestres, ciclistas e motoristas de diferentes veículos; história do controle de lesões de todo tipo, incluindo lesões por acidentes de bicicleta; cidades saudáveis; políticas para integrar saúde e transporte; e efeito da atividade física estruturada e não estruturada sobre a saúde.

Com base nas análises, Mauren Carvalho e Carlos Machado destacam que, nos países da América Latina, América Central e África, a bicicleta é usada como transporte principalmente nas periferias e tem papel importante em pequenos comércios. Além disso, levantamento realizado pela extinta Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes (Geipot), mostrou que aproximadamente dois terços da frota de bicicletas no Brasil é utilizada como modo de transporte de trabalhadores. “Em Bogotá, capital da Colômbia, a implementação de 291,3 quilômetros de ciclovias, além de outras intervenções para favorecer o uso da bicicleta como meio de transporte, foi capaz de atrair usuários de todas as classes sociais. No caso da China, a bicicleta é usada como meio de transporte pela maior parte da população há muitos anos, porém seu uso vem reduzindo com o desenvolvimento econômico e o aumento do número de automóveis”, ressaltam.

Após essa análise, os autores classificaram os artigos em três grandes temas: segurança no trânsito e segurança do ciclista; políticas públicas e intervenções urbanas para promoção da saúde e do ciclismo; e efeitos do exercício físico e do ciclismo na saúde do indivíduo e das populações. “A segurança do ciclista depende diretamente da segurança do trânsito”, argumenta Carlos Machado. Segundo ele, isso não pode ser tratado de forma isolada, pois se torna uma política insuficiente. “Há uma urgente necessidade de políticas públicas com intervenções urbanas para promover o uso de bicicletas e educação no trânsito e, assim, favorecer a saúde. Muitas pessoas pensam na bicicleta somente como uma alternativa de lazer. Entretanto, o levantamento comprovou que, no Brasil, em quase 70% dos casos a bicicleta é utilizada como meio de transporte de trabalhadores. Portanto são, simultaneamente, acidentes de trabalho. Obviamente, esses números não estão concentrados nas metrópoles, e sim nas cidades pequenas e periferias das grandes cidades”, alerta.

Machado aponta que, como os países em desenvolvimento concentram a maior parte de acidentes de trânsito fatais, eles apresentam também os maiores percentuais de acidentes de bicicleta no conjunto de tais acidentes. Conforme levantado, “de todos os acidentes de trânsito, a maior parte foi contabilizada na América Latina. Entre eles, 4% a 11% envolvem bicicletas. Os números mundiais apontam ainda que o Canadá e os Estados Unidos somam 1% dos acidentes e, na Europa, esse número gira em torno de 3% a 5%”, esclarece Carlos Machado.

Segundo o pesquisador, o interesse pelo uso de bicicletas tem crescido no Brasil e no mundo. No entanto, não foram encontrados estudos brasileiros, no âmbito da saúde pública, que diagnosticassem e avaliassem este uso como parte de uma política pública saudável e sustentável. “Portanto, com este artigo, buscamos ressaltar a necessidade de conhecer os números do nosso país. Esses dados conectam não apenas o transporte ativo como promoção da saúde, mas de uma promoção da saúde que reduza o número de carros na rua, a poluição, o número de acidentes e muitas outras questões.”

Os autores concluem que o padrão de utilização da bicicleta como meio de transporte ocorre de forma bastante heterogênea, mas com potenciais maiores impactos nos países em desenvolvimento. Assim, recomendam ser necessário um conjunto maior de estudos de avaliação de políticas públicas sobre o uso de bicicletas, já que, do total de 29 trabalhos que trataram do tema políticas públicas, somente seis eram estudos de avaliação. “Consideramos que, a fim de contribuir para a construção de políticas cicloviárias eficientes (otimizando os recursos públicos), eficazes (que promovam o uso da bicicleta como meio de transporte em grande escala, tornando os meios urbanos e a população mais saudáveis) e que garantam efetividade social (oferecendo melhores oportunidades de transportes e com mais segurança, especialmente aos grupos sociais mais vulneráveis), torna-se fundamental o investimento não só em estudos epidemiológicos, mas também em estudos de avaliação de políticas públicas”, encerram.

A Ensp e o projeto Pedalando pela sua Saúde

O projeto Pedalando pela sua Saúde, pelo Nosso Planeta, criado em 2008 quando a Ensp completou 54 anos de existência, estimula o uso de bicicletas no campus. Além de ser um transporte não poluente, andar de bicicleta é saudável como atividade física regular, previne problemas cardíacos, diminui a ocorrência de doenças crônicas, entre outros benefícios. Qualquer pessoa com crachá funcional da Fiocruz pode pegar uma bicicleta em algum dos dois bicicletários instalados no campus. O número de locações mensal varia de mil a 1,5 mil. Os usuários são principalmente funcionários da Ensp, alunos da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio e trabalhadores da Diretoria de Administração do campus.

“As bicicletas foram uma aposta que fizemos, e as pessoas a compraram”, conta a coordenadora de Comunicação Institucional da Ensp e criadora do projeto, Ana Furniel. A ideia surgiu quando precisou se deslocar dentro do campus e se deparou com a falta de vagas para estacionamento. Assim, anteviu que a bicicleta seria um excelente meio de transporte dentro do campus, utilizado por diversas pessoas. Segundo Ana Furniel, o custo de se manter um projeto como o da Ensp é baixo: inclui a compra e a manutenção das bicicletas e do bicicletário.

Além de encurtar as distâncias no campus, o uso do transporte ativo previne problemas cardíacos, queima entre 300 e 600 calorias por hora, libera endorfina e ainda é ecológica. O usuário fica menos estressado e mais bem-humorado, uma vez que endorfinas são liberadas pelo exercício físico, contribuindo para o relaxamento, sensação de bem-estar, plenitude e mais felicidade. Andar de bicicleta permite ainda sentir o sol, o vento, olhar o céu e, para a maioria dos usuários, dá a sensação de liberdade.

A utilização de bicicletas é mais saudável, pois, como é uma atividade física regular, previne problemas cardíacos, aumenta a resistência aeróbica, reduz a obesidade, ativa a musculatura e diminui a ocorrência de doenças crônicas. Isso também se reflete na redução da poluição do ar. Calcula-se que 60% da poluição atmosférica nas regiões das grandes cidades sejam decorrentes dos veículos automotores. Além disso, quem pedala gasta calorias. Recentemente, o Pedalando pela sua Saúde, pelo Nosso Planeta ganhou destaque no caderno Zona Norte do jornal O Globo, que abordou o uso das bicicletas na região.

Uma escola com práticas inovadoras de gestão

A adoção das bicicletas faz parte de uma política de gestão da Direção da Ensp, que implementou uma série de medidas e reforçou as já existentes. Além de inovadoras, tais medidas contribuem na prática para uma visão de saúde pública ampliada, que também inclui qualidade de vida, promoção da saúde, valorização da pessoa, saúde mental e preocupação com a gestão ambiental. Diversas outras iniciativas foram adotadas pela atual gestão, como as compras sustentáveis, utilização de papel reciclado, uso racional da água, o projeto Palavras no Caminho, ambiente livre do tabaco, entre outras.

Em relação à política desenvolvida na Ensp para o uso de bicicletas dentro do campus Manguinhos, Carlos Machado afirma que a Escola inovou. Entretanto, acrescenta que “esse tipo de política proativa necessita de uma base de políticas públicas mais amplas que vão além da escola para que seja estimulado também no campo da segurança dentro da Fiocruz como um todo. Ainda precisamos de mais educação no trânsito e a construção de ciclovias”. Por fim, diz que é uma política interna da Ensp, do país e do mundo, mas ainda carente de estudos e pesquisas que deem subsídios a sua implementação. O artigo Pedalando em busca de alternativas saudáveis e sustentáveis faz parte do volume 17, número 6, da revista Ciência & Saúde Coletiva da Abrasco. Confira o texto aqui.

Mauren Lopes de Carvalho é fisioterapeuta e pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde (Cepedes/Fiocruz). Carlos Machado de Freitas é pesquisador e coordenador do Cepedes/Fiocruz.

Informe Ensp / Agência Fiocruz de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 26/07/2012

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Alexa

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