Especialistas conseguem manter desertificação no documento que servirá de base para discussões da Rio+20

 

Depois de 20 anos de tentativas, desde a Rio 92, o grupo de especialistas que tenta incluir o problema da desertificação na agenda de desenvolvimento mundial, conseguiu manter o tema no documento que servirá de base para as negociações da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, evento que a capital fluminense sedia em junho.

A desertificação é um fenômeno caracterizado por intensa degradação do ecossistema, com perda da capacidade de produção, devido a atividades humanas. De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a desertificação é “a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”.

O diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Antônio Magalhães, disse que o texto de recomendação para a Rio+20 foi resumido pelos negociadores da conferência. “Mas o importante são os desdobramentos. Se os países se comprometerem com o fortalecimento de políticas públicas para estas regiões [desertificadas], e o governo brasileiro reconhecer que precisa organizar melhor as políticas para essas áreas, como o Semiárido nordestino, já teremos um bom resultado”, avaliou.

O grupo, que reúne especialistas de vários países, vai apresentar propostas durante os eventos preparatórios da Rio+20. A desertificação ameaça 40% da superfície terrestre do mundo, onde vivem mais de 2,6 bilhões de pessoas, de acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU).

Apesar dos números representarem um universo onde vivem 42% da população mundial, Magalhães alerta que o problema nunca foi uma prioridade dos governos. “As regiões secas não são estratégicas para o abastecimento global, produzindo muitas vezes para o consumo local”, explicou o diretor do CGEE.

Economista da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), César Morales acrescentou que o processo de desertificação, geralmente, ultrapassa o tempo dos mandatos governamentais e, por isso, deixa de estar no topo das prioridades de investimento dos países. Segundo ele, as mudanças climáticas, o desmatamento e o manejo inadequado do solo pela agricultura são as principais causas do fenômeno que torna os solos improdutivos no futuro.

Morales diz que recuperação da cobertura vegetal permitiria que a captação de carbono nas áreas fosse retomada. “Mas é preciso adotar tecnologias que tornem as práticas agrícolas menos intensivas na emissão de carbono. Hoje, a agricultura orgânica é solução e não mais uma atividade elitizada. O investimento tecnológico que ainda encarece a atividade também encareceu por um tempo a agricultura convencional”, observou.

Além do investimento em pesquisas e tecnologias, a diretora do Instituto Argentino de Investigação das Zonas Áridas, Elena Abraham, acredita que o reconhecimento do potencial das regiões pode mudar o espectro dos governantes. “Temos que mostrar o valor desses ecossistemas que guardam variedades de culturas e de potenciais produtivos, como criação de animais como camelos e cabras, e cultivos não irrigados, entre vários outros. Aliado a isso, precisamos de decisões políticas e de um parque tecnológico que valorize os conhecimentos tradicionais”, defendeu a especialista.

Reportagem de Carolina Gonçalves, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 17/05/2012

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