Aonde o povo está, artigo de Montserrat Martins

 

[EcoDebate] “Todo artista tem de ir aonde o povo está”, um verdadeiro hino na voz de Mílton Nascimento, bem que podia servir de exemplo para os políticos também. No caminho entre as promessas dos eleitos e a desilusão dos eleitores, encontramos grandes pressões do poder econômico e muitos interesses fisiológicos menores. Felizes os momentos em que vemos lampejos de coragem dos governantes, também movidos a pressões (sociais), em que vislumbramos algum resgate dos compromissos com aqueles que os elegeram.

Essa semana duas notícias mobilizaram esperanças, uma para os gaúchos, outra para todo o país. Começando pelo sul, o governador tomou a iniciativa enfim de enfrentar diretamente a questão da dívida do Estado com a União, sabidamente distorcida por fator de reajuste acima da inflação e que subiu cerca de 400 % (de 11 para 43 bilhões) nos últimos cinco anos, mesmo com o comprometimento mensal de 13% da receita estadual para honrar essa dívida. Pois bem, é isso que todos esperamos que o governador faça, abra um canal de negociações junto ao governo federal para repactuar inclusive o fator de correção a fim de estancar essa sangria de recursos. Porque só agora ?

Tarso foi eleito no primeiro turno trazendo consigo grande expectativa de representação popular, associada à sua capacidade de gestão. Fustigado pela mídia que colocava em dúvida essa capacidade, começou o governo mais parecendo um gestor da Agenda 2020 e da FIERGS do que o governador de todos os gaúchos. Que o digam os professores que o aplaudiram entusiasticamente no debate do CPERS, em 2010, antes de verem a promessa de reconhecimento do direito ao piso nacional postergada para o último ano deste governo. Enquanto isso, o governador buscava ser reconhecido pelo poder econômico como um bom gestor, atraindo uma empresa coreana ao estado e com propostas para a previdência capazes de agradar aos mentores da Agenda 2020.

Paradoxalmente, o governador de todos os gaúchos pode estar ressurgindo após muito desgaste com os professores e as bases de seu próprio partido, que levaram até mesmo a uma troca de farpas com o Ministro da Educação, Aloísio Mercadante, do próprio PT, quando este se manifestou firmemente a favor do piso. Pois foi com a posição firme de Mercadante que Tarso passou a questionar de onde viria o dinheiro, então – e quem sabe nesse momento tenha compreendido que era hora de enfrentar a renegociação da dívida com o governo federal. Vada a bordo, Tarso !

O governo federal por sua vez tenta não ser “embretado” pelos ruralistas no Congresso, nada discretos com suas chantagens de tumultuarem a governabilidade se não forem atendidos no afrouxamento das leis ambientais para “produzirem”. Uma fantasia irracional, aliás, porque a própria produção agrícola depende da proteção aos ecossistemas, sem os quais o clima e os regimes de chuvas se tornarão cada vez mais desequilibrados (fantasia análoga à dos capitalistas de 1929 que torciam para os outros capitalistas pagarem bem seus trabalhadores, para comprar os produtos deles, desde que eles não precisassem pagar bem aos seus, como bem mostrou um artigo o Prof. Marcelo Mallet Siqueira Campos). Pois bem, essa semana foi noticiado que o governo cogita manter o texto original do Código Florestal, se os ruralistas insistirem em descaracterizar mais ainda a lei ambiental. Um momento de coragem, como o da frase da presidenta de que irá vetar a anistia a desmatadores.

Montserrat Martins, Colunista do Ecodebate, é Psiquiatra.

EcoDebate, 19/03/2012

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Alexa

Um comentário em “Aonde o povo está, artigo de Montserrat Martins

  1. Bom dia, para responder a onde o povo está? Talvez em uma farra interminável de ilusionismo monetário insustentável. O risco é não encontrarem o caminho de volta.
    Mas tenho uma duvida se são filhos de Deus e gostam tanto de farra assim, de duas uma, ou não puxaram a o pai ou, estão apenas lhe enganando.

Comentários encerrados.

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