Os Ruralistas e o Hidronegócio, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

 

[EcoDebate] “Hidronegócio, literalmente o negócio da água”. É assim que o verbete do Dicionário da Educação do Campo (Fiocruz e Movimentos Sociais) define toda atividade econômica que tem a água como sua principal mercadoria. A agricultura industrial consome 70% da água doce utilizada no mundo, portanto, é a principal atividade econômica interessada na água.

Estamos próximos da Semana Mundial da Água e, em Marselha, acontece o 6º Fórum Mundial da Água. É o encontro do capital da água, junto com representações governamentais e organismos multilaterais como FMI e Banco Mundial. Como já denunciava Ricardo Petrella em 2002, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, é a reunião da “Oligarquia Internacional da Água, que gera um novo discurso da privatização, mercantilização, como remédio para o que chamam de escassez da água”. A sociedade civil, como sempre, costuma fazer um contraponto paralelo ao evento.

Curioso que uma das representações brasileiras no evento é a Senadora Kátia Abreu. Agora a CNA é membro do Fórum Mundial da Água. Por aí já se pode ver quem são seus componentes. E ela disse textualmente que estará lá para “propor um debate em nível mundial sobre a proteção das nascentes, de margens de rios e das áreas de recarga dos aqüíferos que, no Brasil, se chamam Áreas de Preservação Permanente (APPs). São áreas frágeis, de preservação obrigatória, das quais depende o bom funcionamento do ciclo hidrológico. O lançamento ocorrerá durante palestra da presidente da CNA sobre o tema “Agronegócio Brasileiro: Construindo Soluções para Proteção e Uso Sustentável da Água no Campo”, das 12h às 13h45, no Pavilhão Brasil, onde mais de 40 instituições públicas e privadas brasileiras apresentarão seus projetos de responsabilidade ambiental” (Assessoria Comunicação CNA).

Oras, quem é que está propondo a consolidação agrícola das áreas de preservação permanente nas mudanças do Código Florestal? Quem quer mudar a lei para não pagar a multa de mais de oito bilhões em crimes contra as áreas de preservação permanente? Quem quer consolidar a ocupação dos morros? Quem está devastando o Cerrado no Oeste Baiano e eliminando rios e nascentes? Quem está acabando com o Taquari no Pantanal e assim inundando áreas que antes eram apenas sazonalmente inundadas? Enfim, quem é essa senadora que vai a Marselha defender a preservação de nascentes, beiras de rios e demais áreas que tanto lutamos para que efetivamente sejam preservadas.

Há tempos denunciamos no paper “As Perspectivas do Agro e Hidronegócios no Brasil e no Mundo” os caminhos do agronegócio brasileiro. Por ali já podíamos delinear que o capital no campo avançaria não somente em busca de solos, mas pelos caminhos das águas. A super exploração de mananciais de superfície e subterrâneos pelos irrigantes segue sem nenhum controle real, como se passa em todo Oeste Baiano. Aqui em Juazeiro, a quantidade água utilizada pela AGROVALE para irrigar cana é uma caixa preta a sete chaves.

Portanto, o lugar da senadora é mesmo em Marselha. Estará em casa. Só que a prática de quem ela representa é o avesso de seu discurso.

A cara de pau da senadora é mais dura que estaca de aroeira.

Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

EcoDebate, 14/03/2012

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3 comentários em “Os Ruralistas e o Hidronegócio, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Ações extremistas levam à insensatez. Os ambientalistas estão cansados de ouvir os discursos dos ambientalistas; os ruralistas estão cansados de ouvir os discursos dos ruralistas. É preciso que alguém de um lado se disponha a apresentar o seu discurso para o outro lado. Ela vai falar, mas deverá estar disposta a ouvir muita coisa.
    Desculpem-me falar em ruralistas e ambientalistas, mas é a seleção ou separação que está se tornando natural pela insensatez dos dois lados que não se comunicam.
    Concorco, sim, que ela vá e dê suas explicações.

  2. Bem propositada esta matéria que retrata o quadro devastador que se instalou através do agronegócio que desperdiça e exporta água e alimentos para alimentar animais na Europa e América do Norte, que empobrece os solos de nossos campos, que avilta os brasileiros na “escravidão branca” com sói acontecer em Petrolina, Juazeiro e Luis Eduardo e Barreias só para exemplificar. Que é do Eldourado prometido pelo agronegócio? Agora vamos trabalhar para os gringos saqueadores de nossos recursos estratégicos com a anuência do Podeer Estatal que come algumas migalhas e deixa passar o grande comboio de riquezas de nosso povo.

  3. O Brasil esta representado nesta reunião por uma caravana de mais de 200 pessoas sendo que a justificativa para tanta gente é a de que a próxima reunião sera aqui no Brasil(jornal Valor Econômico 13/03/2012).E ai vamos encarar mais esta?
    Não faz o menor sentido ter como referência apenas os ruralistas!

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