Estudo revela insegurança na usina nuclear Angra 3

 

[Por Zoraide Vilasboas, para o EcoDebate] Aproveitando a presença da presidenta brasileira na Alemanha, a ONG ambientalista Urgewald, realizou coletiva de imprensa, na manhã de hoje, para apresentar dois pareceres técnicos que comprovam as enormes falhas de segurança (e os riscos consequentes destas falhas) na tecnologia usada na construção de Angra 3, assim como na topografia, logística etc. da região de Angra dos Reis (RJ). A revista Der Spiegel, o mais importante órgão formador de opinião, comparável à VEJA, publicou materia com os resultados dos estudos no domingo. (http://www.spiegel.de/wissenschaft/technik/0,1518,819132,00.html)

O estudo, elaborado por dois cientistas brasileiros – Célio Bermann e Francisco Corrêa – analisa as condições de segurança e o perigo de um acidente nuclear na usina, bem como se foram integrados mecanismos de segurança adicionais depois do acidente de Fukushima. O estudo avalia também se a usina está protegida adequadamente contra eventos externos, como terremotos, deslizamentos e enchentes, e critica a segurança dos planos de emergência para a população local.

Tecnologia de segurança ultrapassada

“Muitos fatores levaram ao desastre em Fukushima. A catástrofe foi conseqüência de hipóteses erradas, local inadequado, técnica obsoleta e falta de fiscalização. Estes fatores de risco existem também para Angra 3”, diz Barbara Happe, da Urgewald, que trabalha há muitos anos com o assunto. O prof. Francisco Corrêa, explica que “no licenciamento de Angra 3, a Eletronuclear não apresentou dados apropriados para o reator, como características locais, condições meteorológicas e topográficas. Portanto, o parecer da Eletronuclear não serve para avaliar os reais riscos do projeto e planejar cenários realistas de emergência.”

O estudo afirma que a localização de Angra dos Reis não atende aos critérios que a própria Eletronuclear está usando atualmente para identificar locais adequados para futuras usinas. Estes critérios desaconselham a construção em áreas propensas a deslizamentos de terra ou perto de cidades densamente povoadas. Angra 3, no entanto, está em uma área com encostas instáveis e perto de Angra dos Reis, que é densamente povoada. “Portanto, os novos critérios do governo são uma admissão involuntária de que a localização de Angra não é adequada para uma usina de energia nuclear.”, diz Corrêa.

Além disso, Angra 3 é um projeto ultrapassado, que não cumpre vários requisitos atuais de segurança desenvolvidos após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Sequer atende totalmente aos requisitos de segurança aplicáveis para seu reator de referência original alemã, construído a partir de 1974. A contenção de Angra 3 tem apenas a metade da espessura desse reator, proporcionando menos proteção em eventos, como uma explosão de hidrogênio ou um impacto de avião.

Tobias Riedl, especialista em assuntos nucleares do Greenpeace, enfatiza que “o reator nuclear de Angra 3 operará com uma tecnologia de segurança totalmente ultrapassada. Na Alemanha, todos os reatores deste tipo em breve serão desativados. Ao incentivar e apoiar a construção deste reator (que já virou sucata antes mesmo de ser concluído) com uma garantia financeira bilionária, a chanceler Angela Merkel demonstra que não tirou nenhuma lição de Fukushima.”

As duas ONGs Urgewald e Greenpeace consideram irresponsabilidade, o governo alemão decretar o fim do programa nuclear na Alemanha, mas apoiar a construção de uma usina insegura em outros países com um crédito de exportação. Para elas, “as lições de Fukushima e deste estudo são que não deve ser aprovado um crédito de exportação para Angra 3 e o governo deve parar de garantir este tipo de subvenção para a exportação de bens nucleares.”

Sobre os cientistas e a garantia Hermes

Os autores do estudo são o professor Célio Bermann, do Instituto de Electrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, e Francisco Corrêa, que já fez vários estudos técnicos sobre Angra 3 para o Ibama e outras instituições.

Para apoiar a exportação de bens produzidos na Alemanha, o governo alemão concede garantias financeiras de exportação, chamadas de “garantias Hermes”. Estas garantias servem como seguro para indenizar os exportadores alemães que não receberem os créditos concedidos ao cliente no exterior, seja por motivo comercial ou político.

A finalidade política destas garantias é de abrir novos mercados em países em desenvolvimento para a indústria de exportação alemã. Em fevereiro de 2010, o governo alemão aprovou, em princípio, uma garantia Hermes de exportação no valor de 1,3 bilhão de euros. Entretanto, ainda não foi transformada em garantia definitiva. Depois do acidente em Fukushima, ONGs alemães lutam para que isso não aconteça mais.

Contato: Barbara Happe, Urgewald, +49 172-6814474

Zoraide Vilasboas é jornalista da Coordenação de Comunicação da ASSOCIAÇÃO MOVIMENTO PAULO JACKSON-Ética,Justiça,Cidadania

EcoDebate, 07/03/2012

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