Tempos de crise, até quando? artigo de Nilo Sergio S. Gomes

 

[EcoDebate] Três anos após o que se pensou ter sido a superação da crise econômica mundial, provocada pela ‘bolha do mercado imobiliário’ dos EUA, o mundo está de volta aos tempos sombrios que molduram os horizontes que se aproximam com a virada de ano. A notícia só surpreende a quem acreditou que a crise de 2008 havia sido resolvida, com os trilhões de dólares despejados em bancos falidos; pois, pelo visto, os problemas fundamentais não foram removidos.

Um estranho espectro volta a rondar o sossego da burguesia mundial, e certamente não é o comunismo, ainda. Mas, sim, os desajustes cada vez mais frequentes e também mais visíveis, que o capitalismo mundial deixa à mostra, desde o final do XX, com a crise das empresas pontocom, que levou a baixas espantosas e inquietantes na ordem capitalista internacional, e a especulação financeira cada vez mais desenfreada.

Na Europa, populações tem ido às ruas protestar contra as ‘medidas econômicas de ajuste’, cujo sacrifício maior recai sobre os empregos, as empresas e os governos, para que os ganhos do capital sejam mantidos, rifando-se os pequenos em benefício dos grandes. No Brasil, assim como em boa parte da América do Sul, ainda há muita miséria e uma enorme desigualdade social, mas o clima político e a atividade econômica não sofrem os percalços que acinzentam os horizontes da Europa ‘pós-moderna’, aonde a burguesia e seus governos, sem as antigas colônias para explorar e extorquir, não conseguem gerenciar, com eficácia política, a gestão dos negócios. Sobretudo porque há em curso uma proliferação da pobreza, a mesma pobreza que a exploração capitalista e colonialista produziu e reproduz nas ‘ex-colônias’.

O cenário fica mais nebuloso com as eleições presidenciais nos EUA, em 2012. Em jogo, nestas eleições, se Barack Obama será mesmo reeleito, pelas mudanças que não realizou; ou se para este papel vão preferir um republicano autêntico, alguém da tradição militarista mesma, da indústria de armamento dos brancos estadunidenses, por exemplo, cujo sonho é dominar o mundo. Ou seja, pelo visto, o que estará realmente em jogo nas urnas é a possibilidade do eleitorado norte-americano eleger algum pós-Bush, um ‘xerife pós-moderno’. Difícil enxergar disputas de projetos políticos nestas eleições, no ‘Império’, em que tudo se assemelha mais a uma variação do mesmo – mais do mesmo –, para um povo que parece adormecido, diante de uma população mundial cada vez mais desperta.

As crises reaparecem a ciclos históricos e temporais cada vez mais curtos, e mais globalizados – mundializados – em seus efeitos e conseqüências. O que antes, nos tempos das navegações, do XVI ao XIX, levava meses para se difundir pelo mundo, agora em instantes corre o planeta, na razão de partículas de segundos. Uma seqüência assim, de crises cada vez mais seguintes, recoloca em cena, naturalmente, especulações as mais óbvias: afinal, para onde vai este modo de produção hegemônico e dominante há mais de dois séculos? Que crise será esta? Até quando as sociedades vão suportar o preço da reprodução deste sistema capitalista? São questões que incitam respostas.

Nilo Sergio S. Gomes é Jornalista, professor da ECO-UFRJ, autor do livro Em busca da notícia – memórias do Jornal do Brasil, 1901. Artigo publicado em O Jornalista, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, edição de novembro.

Artigo enviado pelo Autor ao EcoDebate, 01/11/2011

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Um comentário em “Tempos de crise, até quando? artigo de Nilo Sergio S. Gomes

  1. Esta é a grande pergunta que o artigo traz: “Até quando as sociedades vão suportar o preço da reprodção do sistema capitalista?”
    Acredito que será até quando metade das pessoas do nosso Planeta tiverem condição de sobrevivência, mesmo que precária.

    * Gostaria de ouvir opiniões sobre o afirmo neste comentário, e, se possível, fundamentadas, pois estou falando em 50%, sem nenhuma justificativa. É intuíção total.

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