EcoDebate

Plataforma de informação, artigos e notícias sobre temas socioambientais

Notícia

Entidades denunciam à ONU intimidação feita por consórcio responsável por Belo Monte

O consórcio Norte Energia S.A, responsável pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, está sendo acusado de intimidar agentes do Poder Judiciário contrários ao início das obras. Entidades brasileiras de direitos humanos encaminharam a denúncia à Relatoria Especial para a Independência e Autonomia Judicial da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo as entidades que assinam o ofício enviado, no dia 20/5, à relatora especial, a brasileira Gabriela Carina Knaul de Albuquerque, a empresa está pressionando funcionários da Justiça que defendem as medidas necessárias para prevenir ou amenizar os impactos ambientais decorrentes da obra.

A denúncia foi motivada pela representação feita pelo consórcio contra o procurador Felício Pontes Júnior no Conselho Nacional do Ministério Público. A empresa pede que Pontes seja afastado do acompanhamento do assunto. O motivo é a publicação pelo procurador, em um blog, de informações e considerações pessoais sobre os processos judiciais envolvendo o projeto de construção da usina. O blog (http://belomontedeviolencias.blogspot.com) pode ser acessado a partir do próprio site do Ministério Público Federal no Pará (www.prpa.mpf.gov.br). Na representação, a Norte Energia pede que o link seja retirado do site institucional.

“Compreendemos que essa representação disciplinar e o requerimento de censura constituem nova intimidação às funções da Justiça, o que configura reiterada afronta à autonomia e independência do Ministério Público Federal no Pará e de seus procuradores no exercício de suas funções”, sustentam as 14 organizações que assinam a denúncia, entre elas a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Justiça Global, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Movimento Xingu Vivo para Sempre, que, sozinho, representa cerca de 250 entidades sociais e ambientalistas da região de Altamira e das áreas de influência do projeto da hidrelétrica.

Os movimentos sociais lembram que, desde o ano passado, vêm alertando a ONU e demais autoridades sobre as tentativas do consórcio e do próprio governo federal de inibir a atuação independente dos procuradores do Ministério Público Federal no Pará.

Composta por empresas estatais, privadas, empreiteiras, fundos de pensão, fundos de investimento e consumidores, a Norte Energia disse que não vai comentar o assunto. Já o procurador da República no Pará, Ubiratan Cazzeta, disse desconhecer o teor da denúncia, mas reconheceu a existência de episódios, inclusive envolvendo a Advocacia-Geral da União (AGU) que, segundo ele, “não podem ser considerados normais em uma discussão judicial”.

“É natural que uma obra complexa como essa gere momentos de tensão, com visões distintas, mas o que houve de peculiar foi a manifestação [em 2010] do advogado-geral da União ameaçando propor ações de improbidade contra membros do ministério por eles terem movido ações contra [a concessão do] licenciamento [prévio], sob a alegação infundada de que eles estariam defendendo interesses pessoais e não atuando como agentes do Estado”, afirmou Cazzeta à Agência Brasil. Segundo ele, as ações acabaram não sendo impetradas, mas isso gerou pressão por meio da imprensa e de notas oficiais.

Para o procurador, o argumento da Norte Energia de que Felício Pontes Júnior defende causa pessoal ao divulgar sua opinião em artigos publicados no blog reproduzido no site do ministério é infundado.

“O blog reproduz o entendimento de um dos membros do ministério que retrata o que, em diversas fases ao longo dos últimos dez anos, caracteriza uma violência a diversos direitos básicos da sociedade brasileira. Não há, portanto, uma distorção ou o uso de um site público”, concluiu Cazzeta.

Em fevereiro de 2010, dois dias após o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ter concedido a licença prévia autorizando a realização do leilão de concessão, membros do MPF no Pará anunciaram que, se necessário, processariam os técnicos do instituto que assinassem o documento. A AGU, então, decidiu entrar com uma representação no Conselho Nacional do Ministério Público contra os procuradores e ameaçou ajuizar ações de improbidade administrativa contra os membros do Ministério Público que “violando seus deveres legais, abusassem de suas prerrogativas por meio de ações sem fundamento, destinadas exclusivamente a tumultuar a consecução de políticas públicas relevantes para o país”.

Procurada pela reportagem, a AGU, por meio de sua assessoria, informou que não iria se manifestar a respeito das declarações de Cazzeta.

Reportagem de Alex Rodrigues, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 20/05/2011

[ O conteúdo do EcoDebate é “Copyleft”, podendo ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, ao Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta clicar no LINK e preencher o formulário de inscrição. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Alexa

2 thoughts on “Entidades denunciam à ONU intimidação feita por consórcio responsável por Belo Monte

  • Parabéns Felìcio e Ubiratan por ter agido com clareza e coragem. Nao esqueçam os Requerimentos e os Processos instaurados a respeito da contaminaçao da àrea da Terra do Meio onde estao cabeceiras dos rios Xingu e Iriri. Ademais seria oportuno ( apòs o acidente nuclear no Japao) relembrar o depòsito de lixo nuclear que està na Base Aèrea da Serra do Cachimbo desde os anos de 1980 onde a Siemens da Alemanha encaminhava as escòrias nucleares dos seus reatores de acordo com o Governo Militar da época atè quando o entao Presidente da Repùblica José Sarney decidiu acabar com isso e mandou fechar o poço aberto e que era destinado para os testes dos propulsores a enèrgia nuclear . Aquele poço se encontra numa regiao onde estao as cabeceiras do rio Curuà, afluente do rio Iriri e este afluente do rio Xingu, os tres atravessando territòrios indìgenas. Desmatamento ilegal, contaminaçao por dioxinas e por radioatividade, barragens, agronegòcios: falta mais alguma coisa para acabar com a bacia do Xingu? Padre Angelo Pansa- Delegado ICEF ( International Court of the Environment Foundation)

  • as duas denuncias sao importantes, é preciso deixar bem claro que os exageros tem que ser coibidos de parte a parte, existe no Brasil um estado de direito e os dois lados tem que respeitar isso, civilizacao é isso conciver, com respeito, com os que pensam diferente. Se os empreendedores tem seus defeitos o MP, por veses, exagera também!

Fechado para comentários.