São Paulo: Os problemas da maior cidade do Brasil são tema de dossiê publicado na revista Estudos Avançados

Desafios de São Paulo hoje -Tão grandes quanto a dimensão alcançada pela capital paulista são a amplitude e a complexidade dos problemas que a metrópole tem a enfrentar. Eles estão em todas as áreas: transporte – com reflexos sentidos por todos na (i)mobilidade urbana –, habitação, água, lixo, saneamento e tantas outras. Refletir sobre essas dificuldades é o propósito do Dossiê São Paulo, Hoje, publicado na edição 71 da revista Estudos Avançados, lançada pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Na apresentação, os próprios editores reconhecem que não por acaso os artigos reunidos no volume “convertem os seus temas em problemas”. “Seja qual for o aspecto escolhido, o tratamento conduz à forma do desafio. A cidade é um nó de impasses. Qual a terapêutica, feito o diagnóstico?”
Em seu artigo, Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e ex-vereador paulistano, afirma que “é evidente que São Paulo, assim como as outras metrópoles brasileiras, não pode continuar crescendo a partir do modelo urbano que hoje vigora”. “A desigualdade urbana, funcional e social se aprofunda, gerando uma cidade partida e segregada”, prossegue.

Bonduki reconhece que reverter o modelo em curso “exige muita determinação do poder público, até mesmo para tomar medidas pouco populares e que, certamente, poderão contrariar interesses econômicos”. Isso vai requerer que a sociedade formule um amplo pacto “gerado por um processo participativo, de modo que os cidadãos mais conscientes se tornem defensores dos principais eixos de transformação”. Para o professor, a chave para essa “verdadeira revolução urbana é dar melhor aproveitamento e distribuição para os recursos que temos, evitando o desperdício, o consumo exagerado e a opulência”.

“Decadência” – Segregação e desigualdade são também os temas de Flávio Villaça, professor aposentado da FAU, que defende que os alardeados processos de “decadência” e “deterioração” das áreas centrais da cidade na verdade embutem pressupostos ideológicos: a própria classe dominante, que dissemina esses conceitos, abandonou o centro, “dele retirando suas lojas, escritórios, cinemas etc., e mesmo suas moradias”, aponta. Da mesma forma, essa classe alardeia a visão de que o centro está se deslocando para áreas como a avenida Paulista ou a região da avenida Faria Lima, e de que a suposta decadência do centro está associada à velhice e à obsolescência dos edifícios centrais. “Se a idade dos edifícios fosse uma importante causa da ‘decadência’ dos centros, o que seria dos centros de Roma, Paris, Berlim, Madri ou Londres?”, pergunta.
O tempo e o espaço urbanos, acentua Villaça, não são obras da natureza, mas produtos do trabalho humano. “A obscena desigualdade que existe na sociedade brasileira se manifesta na enorme segregação que se observa em nossas cidades. Essa segregação cria um ônus excepcional para os mais pobres e uma excepcional vantagem para os mais ricos”, considera.

“A cidade é um espaço de conflitos”, lembra João Sette Whitaker Ferreira, arquiteto, economista e professor da FAU. São Paulo, que está entre as cinco maiores metrópoles do mundo, expressa as disputas e conflitos da cidade capitalista, “com o agravante de carregar também as contradições peculiares do subdesenvolvimento”.
Para o autor, os bairros abastados, mesmo com todos os investimentos que recebem, “promovem uma ocupação do território tão ou mais nociva à cidade do que a periferia”. Esses danos se apresentam “no exagerado luxo, nos muros eletrificados, na impermeabilização do solo para suas garagens”, procedimentos que expressam “o gosto das elites por um modelo de vida que refuta a cidade e é autodestrutivo”. Os muros, continua, “segmentam o urbano, eliminam a vitalidade das ruas e as matam como espaço de convívio”, enquanto as áreas verdes públicas são menosprezadas, “pois aquelas internas aos condomínios já satisfazem os que podem pagar por elas”.
O professor diz que a “intolerância à pobreza na construção do urbano escancara-se, para quem quiser ver, em incontáveis exemplos que, entretanto, passam despercebidos”. Essa intolerância, compara, é sutil como o racismo à brasileira.
A possibilidade de uma mudança, argumenta Whitaker Ferreira, “passa por alterar o equilíbrio de forças que rege as prioridades das políticas públicas estruturais: o enfrentamento da questão da terra e daqueles que a retêm para fins especulativos; a inversão radical dos investimentos, para atender emergencialmente e de forma maciça às periferias; a provisão de moradia para todos; a construção de um sistema integrado de transporte público, mesmo que isso afete, de imediato, os usuários de carros; a fiscalização da ocupação e transfiguração descontrolada dos bairros pela construção civil de alto padrão”.

Congestionamento – Não por acaso, numa metrópole que acaba de chegar à marca de 7 milhões de veículos – poucas cidades do mundo têm número equivalente mesmo em moradores, que dirá em carros –, o trânsito e suas consequências estão entre os temas recorrentes nos artigos do dossiê. Se Whitaker Ferreira já apontava como “abusivo” o favorecimento ao automóvel – “uma das maiores fontes de emissão de poluentes que o homem produziu” –, Raquel Rolnik e Danielle Klintowitz, respectivamente professora e pesquisadora da FAU, registram no artigo “(I)mobilildade na cidade de São Paulo” que “os paulistanos perdem, em média, 27 dias por ano presos no congestionamento”.
Para as autoras, o modelo de anéis viários, “reeditado ad nauseam ao longo das últimas décadas, revela o pacto de vida ou morte que a política de circulação municipal realizou com o automóvel e especialmente com seus motoristas”. É um modelo que, outra vez anunciado como plano de governo da atual gestão municipal, “se sobrepõe às demandas e aos interesses da maior parte da população, impondo, para o conjunto da sociedade, a imobilidade”, concluem. O dossiê tem ainda textos de professores de outras unidades da USP, como a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH).

A seção Música e Poesia reúne poemas de vários autores sobre São Paulo. Já num dos textos da seção Literatura, Helmut Galle, professor do Departamento de Letras Modernas da FFLCH, aborda os escritos autobiográficos de Josef Mengele, médico no campo de concentração nazista de Auschwitz, que viveu seus últimos anos no Brasil. O volume é fechado com resenhas de seis livros.

Estudos Avançados, nº 71, dossiê São Paulo, Hoje, Instituto de Estudos Avançados da USP (www.iea.usp.br), 344 páginas, R$ 30,00.
Reportagem no Jornal da USP, publicada no EcoDebate, 17/05/2011

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