Comunidade Coceira, municipio de Santa Quitéria, o pé-de-atleta da Suzano Papel e Celulose

Diz o ditado que “a polícia é boa até que se precise dela”. E assim percebemos o funcionamento de tantas instituições por aí. Está na voz das comunidades, pelo menos na daqueles que apesar dos Golias, ainda lutam pelos seus direitos. Em visita ao Polo Coceira, é observação comum em qualquer uma das comunidades que o compõem, ouvir que o ITERMA chega pra medir uma área em três dias, se for chamado pela Suzano, ou por algum “gaúcho”. Mas se for pra praticar algum ato em prol da comunidade a demora é longa.

Assim se arrasta o processo de titularização das terras das comunidades Coceira, Baixão da Coceira I, São José e Lagoa das Caraíbas, na região de Santa Quitéria, onde dezenas de famílias lutam pra manter seu sustento na tradição de três, quatro gerações de moradores do Baixo Parnaíba. O Processo de Regularização está no seu quarto ano; enquanto isso muita terra já foi anexada às propriedades da Suzano, do “senhor Gilmar”, e de mais alguns espertos, incluindo autoridades municipais que sempre cobram o seu quinhão.

As comunidades estão rodeadas por reflorestamentos de eucaliptos, de um lado, e monoculturas de soja de outro. Enquanto isso, segundo observação de moradores, o imenso lago que nomeia o Baixão, diminui a cada dia. Na Coceira quarenta famílias que compõem a Associação seguem lutando e acreditando no resultado positivo, a despeito de vizinhos que se entregaram para as grandes empresas, vendendo a preço de banana suas posses, aliciados e seduzidos por empregos de salário mínimo que não denotam nenhuma estabilidade, uma vez que o bem estar da comunidade não está no rol dos objetivos desses empreendimentos; antes disso, os moradores são apenas empecilhos, uma vez que nem de sua mão-de-obra barata as empresas precisam.

Percorrendo os limites das terras da Coceira, com Paulo, filho do senhor Veríssimo (um dos moradores mais velhos, com mais de setenta anos) o que constatamos é que a resistência dos moradores tradicionais é o último recurso de preservação dessa parte do cerrado do Baixo Parnaíba. São imensas as áreas cobertas de eucalipto, com seu aspecto de parasita peçonhento. Nada nasce sob essas plantações, não se vê uma só ave, um inseto sequer. Sob eles apenas uma terra envenenada, que se dirige a cada dia para os lençóis freáticos, para as nascentes, para as lagoas, para os riachos, para os poços d’água da população. Entre imensas quadras da árvore exótica, agoniza um restinho da vegetação típica, atrás de uma escarnecedora placa nomeado a enclausurada porção de cerrado de “reserva legal”.

A luta é árdua, o inimigo tem dinheiro e muitas armas, como o time de assessores que se enfileiram para tentar seduzir os moradores a cada semana com uma proposta mais insidiosa. Pra comunidade o processo é demorado, cada etapa leva muitas madrugadas de paciência. Muitos pereceram na esperança, na fé, na força. Um exemplo triste é ver que a maioria dos moradores da comunidade Baixão II, que venderam suas terras e conseguiram um emprego, já foram dispensados. Com suas terras cobertas de eucalipto, o que farão agora? Impossibilitados de plantar, sobra-lhes coletar nas terras dos vizinhos. Mais um problema que terá que ser resolvido pela comunidade, uma vez que não têm viaturas com vigilantes para proteger-lhes as propriedades.

Reportagem de Geraldo Iensen, jornalista

Colaboração de Mayron Régis, para o EcoDebate, 18/04/2011

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