Acidente na usina de Fukushima reacende a polêmica em torno do uso da energia nuclear no mundo

Foto divulgada pela Tokyo Electric Power CO mostra dano em reator 4 de Fukushima (Foto: Reuters/G1)
Foto divulgada pela Tokyo Electric Power CO mostra dano em reator 4 de Fukushima (Foto: Reuters/G1)

Acidente na usina de Fukushima, no Japão, reacende a polêmica em torno da viabilidade do uso da energia nuclear no mundo, enquanto o governo brasileiro mantém os planos de finalização de Angra 3

A população mundial irá crescer nos próximos anos, assim como as economias de todo o planeta. Como consequência, crescerão também as demandas por energia. Em tempos de aquecimento global, grandes potências e países emergentes, inclusive o Brasil, vislumbravam a possibilidade de novos investimentos em energia nuclear, que não emite gases do efeito estufa. Mas a ideia de retomar esse filão energético parece ter estremecido desde 11 de março passado, quando o sétimo maior terremoto da história do Japão atingiu o país. Não fosse o tsunami que seguiu os abalos sísmicos, a situação das quatro usinas nucleares japonesas, localizadas na região da catástrofe, talvez não fosse tão caótica. Como resultado, várias cidades estão sob risco de contaminação. A pior situação é na usina de Fukushima, cuja radiação já atingiu a água de Tóquio.

A expressiva quantidade de energia necessária nos próximos anos pressupõe o desafio de obtê-la com alto grau de segurança energética e sustentabilidade. São esses aspectos que colocam em alerta os governos que planejam revigorar o uso de energia nuclear. Diversos países já anunciaram planos de rever a segurança de suas instalações nucleares. O Brasil criou uma comissão externa no Senado que irá colher nos próximos dias informações sobre o funcionamento e as condições de segurança de Angra 1 e 2.

O tema acirra ânimos de ferrenhos defensores e convictos oponentes. Manifestantes e ativistas tomaram algumas ruas e praças cariocas no dia 22 de março para exigir a paralisação das obras de Angra 3.

Especialistas experientes na área energética afirmam que, embora o sistema de reatores nucleares seja muito seguro, é praticamente impossível prever toda e qualquer espécie de acidente. É o caso do físico e ex-reitor da USP José Goldemberg.

“As usinas de Agra dos Reis são muito parecidas com as do Japão. Como não há terremotos e tsunamis no Brasil, os riscos são menores. Mas o sistema de resfriamento pode sofrer interrupções por outras razões, tais como defeitos mecânicos. Isso de fato aconteceu em 1979 num reator americano (Three Miles Island), cujo núcleo derreteu. Felizmente pouca radioatividade vazou para a atmosfera”, diz Goldemberg.

“Os sistemas de segurança vão se aperfeiçoando, mas a tecnologia sempre reserva uma ‘pegadinha’ para os engenheiros”, diz o professor Ildo Sauer, do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP.

Portfólio variado – Goldemberg e Sauer são unânimes em afirmar que a energia nuclear pode ser uma alternativa viável para muitos países, dependendo das suas disponibilidades de recursos naturais para a obtenção de energia. Por diferentes fatores, países como Itália e Suécia decidiram excluir a energia nuclear do seu sistema, ao passo que Japão e França fizeram a escolha oposta.

“O Brasil dispõe de um portfólio variado de recursos naturais, tecnológicos e humanos para geração de energia, o que o coloca numa situação muito vantajosa comparado com outros países. Nossos estudos mostram que seria possível atender à demanda futura de energia no Brasil mantendo a matriz energética limpa e com custos muito menores do que os requeridos em investimentos previstos no plano do governo para até 2030”, afirma Sauer.

O professor concluiu recentemente um estudo com a mestranda Juliana Chade Ricosti, que mostra diversas projeções possíveis para a política energética do Brasil nos próximos anos. O trabalho integra a dissertação de mestrado a ser apesentada em breve por Juliana no IEE e foca especialmente a inserção da energia eólica no sistema hidrotérmico brasileiro.

De acordo com Sauer, o estudo mostra que o Brasil tem confirmado um potencial hidrelétrico da ordem de 260 mil MW, dos quais apenas 100 mil MW já foram desenvolvidos ou estão em desenvolvimento; possui um potencial identificado da ordem de 143 mil MW de fontes eólicas; um potencial de cerca de 15 mil MW de geração de energia de biomassa proveniente principalmente de bagaço de cana; tem potencial de cerca de 17 mil MW provenientes de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs); grande potencialidade de cogeração de eletricidade a partir do calor usado em turbinas, além da possibilidade de aumento da eficiência energética em muitos nichos industriais.

Todas essas possibilidades formam no Brasil um cartel de recursos que permitiria atender a toda a demanda elétrica no Brasil até 2042, quando se acredita que a população brasileira se estabilizará em torno de 219 milhões de habitantes. “Isso será possível mesmo se o consumo per capta dobrar, passando então a um padrão de consumo semelhante ao que hoje tem a Itália e a Espanha, por exemplo, algo em torno de 5 MWh/habitante ao ano”, afirma Sauer.

“Segundo nossas projeções, a demanda energética nos padrões de Itália e França poderá ser atingida utilizando a metade do potencial eólico, 70% do potencial hidráulico e alguns outros recursos, como usinas termoelétricas, as quais só seriam acionadas em períodos hidrologicamente críticos”, diz o professor (leia entrevista com o professor Ildo Sauer na página ao lado).

Complicadores sociais – Apesar disso, o governo brasileiro manterá seus planos de construção de novos reatores no Nordeste e finalização de Angra 3, segundo informações de Odair Dias Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

“O plano energético de 30 anos do governo de fato contempla essa possibilidade e há estudos sendo feitos considerando uma gama de variáveis como locais adequados, terrenos específicos, tráfego aéreo, clima e disponibilidades de recursos, entre outros”, afirma Gonçalves, que é também professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para o presidente da CNEN, a corrente que defende o potencial energético de outras fontes, como a hidrotérmica, esquece que a exploração hídrica envolve complicadores sociais e ambientais. “A Amazônia, por exemplo, concentra 40% do potencial hídrico brasileiro, mas é sempre complicado explorar essa totalidade devido a limitações de ordens diversas, inclusive ambientais.”

Reportagem de Sylvia Miguel, no Jornal da USP, publicada pelo EcoDebate, 29/03/2011

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