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Itália: Perde-se milhões de refeições por ano devido aos alimentos vencidos

Os alimentos descartados precisam realmente sempre ir para o lixo? Quanto é possível salvar no último minuto para destinar a obras de caridade? Quais produtos devem ir por água a baixo e quais (e como) devem ser reciclados? Quem são e como trabalham os “piratas” dos alimentos vencidos?

A reportagem é de Ettore Livini, publicada no jornal La Repubblica, 07-01-2011. A tradução é de Alessandra Gusatto.

Muito desperdício mas a reciclagem se tornou um empreendimento. Onde vai parar este bem de Deus? Quanto se consegue salvar para destinar a obras de caridade? Quanto tempo os alimentos se conservam uma vez que chegaram aos supermercados? E quais são aqueles que vencem mais frequentemente? Por que, mesmo com uma rígida legislação, a cada ano lemos sobre delitos referentes aos alimentos vencidos? Quais são os pontos fracos desta cadeia?

A Itália dos alimentos vencidos é uma máquina do desperdício que queima todos os dias 1.590.142 refeições completas. Esta quantidade seria suficiente para servir o café da manhã, almoço e janta de 636.660 pessoas. Este desperdício leva anualmente 16.283 caminhões as usinas de queima de lixo ou, ainda pior, ao aterro sanitário repletos de iogurte, verdura, biscoito, carne e queijo.

Uma questão de boas maneiras

O que controla o nascimento, a vida, a morte (e em todos os casos a reencarnação em novas formas) daquilo que comemos é um rígido regulamento europeu que contem algumas normas, todas elas italianas. A lei, simplificando, é clara. Existem dois tipos de etiquetas para fixar a data de validade: uma taxativa – Consumir até – destinada a produtos rapidamente depreciáveis como leite fresco, carne, ovos e peixe e que não podem ser vendidos depois do dia estabelecido. A outra vem adicionada de um advérbio – Consumir preferencialmente até – (pode ser vista entre outros em massas, iogurte, azeites e sucos de fruta) – mas possui características completamente diferentes.

É uma indicação “comercial”, tecnicamente é “a data mínima de conservação”, estabelecida pelos produtores para indicar a suposta data na qual os artigos começam a perder as suas características organolépticas, sem serem obrigatoriamente prejudiciais a saúde. “Tomemos o iogurte – explica Andrea Segrè, presidente da Faculdade de Agronomia de Bolonha e presidente da Last Minute Market – LMM, uma sociedade criada pela universidade italiana a fim de reciclar (para o bem) alimento não vendidos. O que acontece um segundo depois da hora indicada como fim “preferível” de consumo na etiqueta? Nada. Simplesmente alguns dos milhares fermentos lácteos vivos presentes no pote morrem. O iogurte em si, se bem conservado, é perfeitamente comestível por ainda duas semanas. Eu tenho na geladeira um iogurte vencido em maio que consumirei perante as câmeras para efeito demonstrativo!”

Um suicida? Não mesmo. Se em países avançados do ponto de vista alimentar, como a Suíça e a Grã-Bretanha, há um etiquetamento duplo que separa o dia “fatal” do início da deterioração orgânica daquele no qual o copo ou o pacote de massa ou o vidro de marmelada começam (frequentemente semanas ou até meses depois) a se tornar realmente nocivos a saúde.

Parada de sucessos dos alimentos vencidos

Uma vez chegados aos supermercados quanto tempo os alimentos se mantém? E quais são aqueles que vencem mais rapidamente? Resposta (a segunda pergunta) fácil: aqueles que duram menos. Lojas, supermercados e hipermercados italianos não conseguem vender, às vezes também devido a defeitos de conservação, de 1 a 1,2% do seu faturamento. Algo em torno de 244 mil toneladas de produtos ao ano. O desperdício ocorre porém em de diversas formas.

O rei absoluto da categoria – ou seja, distribuição em grandes quantidades – é o pão: cerca de 15% do pão francês, baguete, forma com gergelim, sovadinho e outros permanecem nas prateleiras todos os dias. Estes vêm seguidos da verdura com que se perde na taxa de 10%, de acordo com os dados da LMM. Segundo estimativas internas de Assolatte a percentagem do leite fresco (“vida média de 6 dias e no máximo 9 se mantido bem refrigerado”, assegura um especialista do ramo) fica em torno de 2,5 e 3%. A perda do iogurte é de 3 a 5% não obstante uma duração de 20 a 30 dias. “A carne dos balcões do açougue cortadas pelo revendedor dura em torno de três dias e tem taxas abaixo de 1,6%”, explica Francois Tomei da Assocarni. O que mais resiste é o frango pré-embalado em atmosfera modificada (sem oxigênio) que dura seis ou sete dias nas geladeiras do comércio. Os produtos que mais demoram para vencer – as massas, os biscoitos e os queijos envelhecidos como o parmesão e o grana – tem taxas quase zero.

Socorro (benéfico) de última hora

O que acontece com o alimento vencido ou quase? Quem é responsável por reciclá-lo ou descartá-lo? E quanto custa? Também neste caso a lei não deixa dúvidas: “o produtor do descarte é responsável pelo seu destino final”, explica Paola Ficco, advogada ambiental e professora na Universidade La Sapienza em Roma. A indústria alimentícia sozinha, segundo as estimativas da FDA americana, gasta 4% de seus lucros para descartar este excesso.

E isto não são trocados: a lista de preços das empresas especializadas no tratamento de alimentos vencidos oferece serviços de remoção a preços que vão de 6 a 80 centavos o quilo dependendo do produto. Reduzir ao máximo o desperdício é portanto uma questão de economia. “Nós tentamos trabalhar como pais de família, reduzindo ao mínimo o que não é vendido”, confirma Renata Pascarelli da direção de qualidade da cooperativa de supermercados COOP Itália. Como? O método mais simples é aquele dos grandes da distribuição inglesa: a criação de áreas específicas nos supermercados onde serão oferecidos produtos com grandes descontos – entre 30 e 50% – sobre produtos que estão a ponto de vencer.

Este tipo de oferta de última hora está começando a se firmar na Itália somente agora. O caminho mais usado para reduzir o desperdício na Itália – e para dizer a verdade, até agora um caminho bastante estreito – é um outro: a intervenção de sociedades organizadas para recolher os alimentos que estão perto da “morte organoléptica” para reutilizá-los de formas benéficas. “Uma aposta na qual todos vencem: o produtor economiza, o hipermercado que faz a logística, o ambiente que tem menos refugos e quem recebe em troca o alimento”, diz Segrè. A COOP com o seu projeto Buon fine – que abrange 380 pontos de venda, 1.301 ONGs e 123 mil beneficiários finais – salvou e distribuiu em 2009 mais de 2,4 milhões de quilos de alimentos estimados em 14 milhões de euros. A cadeia de supermercados Esselunga assinou um acordo com o Banco Alimentare que salvou um milhão de euros em produtos em 2009. A mesma coisa foi feita pelo Conad e outros grandes distribuidores.

O Banco Alimentare sozinho recolheu e redistribuiu em 2009, desde o campo até os hipermercados, mercadorias no valor de 228 milhões de euros (mas somente 5 oriundos dos grandes distribuidores). Last minute market trabalha com 40 realidades diferentes em toda a Itália. Segundo estimativas do spin-off universitário de Bolonha, o reaproveitamento dos alimentos que vencem nas prateleiras representaria uma redução de 291 mil toneladas ao ano nas emissões de CO² na Itália. “Há muito trabalho a fazer – afirma Segrè. Em 2003, para ter uma ideia, fizemos o primeiro trabalho com o Conad de Bolonha. Em um ano reciclamos 172 toneladas, 17 caminhões, menos descartes e alimento para 350 pessoas todos os dias. E hoje, aquele Conad, graças ao nosso trabalho, aprendeu a “desperdiçar” somente 90 toneladas ao ano”.

Se o ex-bife se torna detergente

O percentual de alimentos quase vencidos reutilizados na mesa é ainda muito reduzido. O que acontece com aqueles produtos que não podem ser reciclados? Podem ser reciclados sob nova veste? Também aqui a lei é abrangente. Pão e verdura, por exemplo, “estão sob as regras dos refugos normais”, explica Ficco. Por isso devem ser tirados das embalagens, depois – se as coisas são feitas corretamente – terminam nas plantas de compostagem ou de biogás. Ou, os especialistas do setor explicam que o que acontece mais frequentemente é que acabem no aterro de lixo.

Mais complexos são os procedimentos para as carnes. Naturalmente (pelo menos em teoria) não podem acabar na lata de lixo assim como estão. E devem ser tratadas através de procedimentos bem rígidos. “Os produtos não apresentáveis com características comestíveis acabam no máximo na indústria para alimentação de animais da companhia”, esclarece Tomei. O resto é degradado a “subproduto de origem animal”. Vai para empresas especializadas que retiram a gordura – a parte mais apreciada – em plantas industriais de filtragem e cozimento. Os restos menos nobres são incinerados, ou destinados a indústria de fertilizantes e a termo-valorização do biogás (“temos obtido também certificados ambientais pelo nosso papel no setor das energias renováveis”, conta o diretor de Assocarni).

A parte mais apreciada do ex-bife ou da coxa de frango é usada na indústria química. Lá os derivados de carne vencida são usados na produção de detergentes, sabões e até medicamentos. “Quando as matérias-primas da químicas tem um valor elevado este se torna inclusive um investimento que gera lucros”, conclui Tomei. A gordura, por exemplo, pode valer muitas centenas de euros por tonelada.

Leite, iogurte e queijos vencidos – estes também submetidos, em teoria, a regras precisas – sofrem dois tipos de processos de transformação: a utilização mais frequente depois do vencimento é para a alimentação de animais (suínos). E neste caso quem ganha são as criações das redondezas dos lugares de produção. Ou ainda, são transformados em pó e as proteínas nobres obtidas por este tratamento podem virar ração ou até fazer parte de princípios para a alimentação humana. Uma alternativa é depositá-los em implantes de decomposição ou usinas de biogás ou ainda incinerados ou (até 31 de julho de 2011) ainda serem dispensados assim mesmo nos depósitos de lixo “mesmo que o elevado conteúdo de carbono orgânico dissolvido, responsável por péssimos odores, desqualifique este método”, diz Ficco. Carne, laticínios, pão e verdura, permanecem sempre uma constante. O desperdício é enorme. E o custo dos alimentos vencidos, no fim do ciclo, é altíssimo para as empresas, comunidade e meio ambiente.

Os espertalhões do vencimento

Por que mesmo com esta rede normativa de proteção lemos todos os anos sobre delitos relacionados aos alimentos vencidos? Quais são os pontos fracos desta engrenagem? Que responsabilidade tem os produtores e os distribuidores? Para dar uma resposta, mais do que as respostas oficiais das associações do setor ou dos atores isolados na fileiras, devemos confiar neste caso nas meias admissões informais que todos, no anonimato, estão dispostos a fazer. E que desenham um quadro bastante uniforme para entender como a Itália ainda continua a apresentar comerciários que mudam as etiquetas dos produtos para prolongar a vida dos seus produtos ou são descobertos depósitos clandestinos que fazem ressurgir como Lazaro peças de queijo cobertas por mofo ou que já viraram comida para os vermes.

As inspeções – é a opinião de muitos protagonistas do setor – não faltam. Somente em 2009 foram 34.675 apreensões surpresa contra piratas alimentares. E, em via de regra, nem a indústria alimentícia nem as cadeias de venda “tem interesse em favorecer fenômenos ilegais deste tipo, até porque eles se exporiam”, diz um oficial da fiscalização. A casuística dos delitos descobertos é clara: quem mais joga com o destino dos alimentos vencidos são duas categorias: “Os pequenos comércios e os supermercados de dimensões menores (onde 20% das 244 mil toneladas queimadas no comércio vence) e os incineradores”.

«Os primeiros muito frequentemente tem dificuldades de arcar com os custos, altíssimos para eles, necessários para eliminar as “sobras””, diz Segrè. E acabam assim forçando artificialmente a data de vencimento retocando a etiqueta ou jogando no lixo aquilo que não pode mais ser vendido sem muito cuidado. Os últimos, depois de terem sido pagados para tratar os ex-alimentos, buscam mais lucro. Ao invés de pagar para destruir ou reaproveitar os alimentos, acabam por revendê-los no mercado negro da alimentação clandestina “onde se reciclam estes produtos tornando-os apresentáveis e recolocando-os em circuitos paralelos de venda.” Com riscos óbvios para a saúde dos italianos. A solução? “Reduzir os desperdícios a zero!” é a palavra de ordem de Segrè. Em um país que do campo a deposição, passando pela indústria e distribuição, perde 20 milhões de toneladas de alimentos ao ano (valor de 37 bilhões e 3% do PIB) significaria economizar dinheiro – além dos custos sociais e ambientais – de três manobras financeiras.

(Ecodebate, 13/01/2011) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]


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