2010, Economia. Crise econômica internacional não se esgotou

A crise da zona do euro
A guerra cambial
G.20 – Ignorando as razões da crise
Brasil. Um país imune à crise mundial?
A explosão do consumo e a emergência de uma nova classe média

Economia 2010. Crise econômica internacional não se esgotou

A crise econômico-financeira que estalou nos Estados Unidos em agosto de 2007 e confirmou-se com a quebra do Lehman Brothers em setembro/2008 arrastando o mundo para uma recessão e levando milhares ao desemprego, deu sinais em 2010 que não se esgotou e continua provocando estragos. Considerada a mais grave crise econômica mundial desde 1929, os prognósticos de que os seus efeitos se fariam sentir por muito tempo parecem se confirmar.

Em 2010 assistiu-se a duas manifestações latentes, entre outras, dos efeitos dessa crise: a crise da zona do Euro e a guerra cambial.

A crise da zona do euro prolongamento da grande crise que se iniciou em agosto de 2007, a crise da zona do Euro, desatada pelos acontecimentos na Grécia, recolocou na agenda mundial o embate sobre a regulação versus livre mercado. O choque de fundo que se manifesta na zona do Euro é essencialmente sobre a forma de organizar a economia e a sociedade – um embate entre os fundamentos do neoliberalismo e o Estado de Bem-Estar Social – o “modelo social europeu”.

A crise da zona do Euro foi tema da revista IHU On-Line – edição n. 330, “A crise da zona do euro e o retorno do Estado regulador em debate”.

A origem da crise da zona do Euro, que teve seu epicentro na Grécia, tem a ver com o ingresso do país na Comunidade Econômica Europeia (CEE). Como todo país que ingressou no euro, a Grécia teve que, além de cumprir uma série de metas fiscais, monetárias e financeiras, renunciar à possibilidade de emitir sua própria moeda. Esse privilégio ficou nas mãos do Banco Central Europeu (BCE), entidade supranacional que funciona como um banco central independente.

O BCE tem como uma de suas regras não financiar déficits fiscais dos Estados membros. Logo, os países ficam seriamente restringidos em suas políticas econômicas pela dificuldade de obter créditos. Encontrar-se-iam nessa situação os chamados países denominados PIIGE (anagrama para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).

O mesmo não ocorre, por exemplo, com países que também estão na zona do Euro, mas que optaram por continuar com moeda própria. É o caso da Inglaterra. A Grécia violou a regra da zona do Euro de que o déficit orçamentário não deveria ultrapassar 3% do PIB do país. Outros países já violaram. Na Grã-Bretanha que, como se disse, não está na zona do euro, esse déficit chega a 13% do PIB. Na Espanha ele chega a 11,2%, na Irlanda a 14,3% e na Itália a 5,3%. O problema da Grécia está no fato de que os seus pares da CEE não enxergam nela forças para sair do “buraco”.

A receita foi dura: cortes salariais, prolongamento do tempo de trabalho e adiamento das aposentadorias, aumento de tarifas e impostos. A sociedade grega explodiu em manifestações. Ironicamente, a Grécia, ao procurar abrigo na solidez da zona do Euro, encontrou a tragédia. Na opinião de Sami Naïr, “a Europa de Bruxelas e do Banco Central escolheu a saída da crise com a recessão, o desemprego, a deflação salarial e não com uma estratégia keynesiana de criação massiva de empregos e de uma política europeia solidária de crescimento compartilhado”. Segundo o economista, a Grécia é apenas o primeiro elo da corrente e um “teste” que põe à prova a solidariedade e a capacidade da resistência europeia.

Toda a zona do Euro passou a correr risco como se assistiu nas mega-manifestações do final desse ano. A tal ponto que o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, chegou a anunciar que o desfecho da crise poderá até resultar no fim do Euro. Algo semelhante pensa o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, para quem “o euro está enfrentando uma crise estrutural que não põe em jogo a União Europeia, mas põe em risco sua própria existência. Dependendo de como se desenrolar a crise, alguns países poderão voltar a suas moedas nacionais ou, o que é mais grave, o euro poderá se tornar inviável para todos”.

Na análise de Timothy Garton Ash a receita pode ser amarga. Segundo ele, “ou a zona do euro avança para uma união fiscal, com maior perda de soberania para os Estados-membros e reduções drásticas de déficit impostas por essa limitação externa, ou alguns Estados-membros mais fracos dão o calote, seja dentro da zona do euro ou abandonando-a por completo. Nesse ponto, o capital foge, ainda mais do que já está fazendo, do fraco para o forte: isto é, da zona do euro para algum outro lugar e, dentro da zona do euro de hoje, para a Alemanha”.

Essa é uma alternativa, de corte conservador. A outra, é a zona do Euro reorientar sua política econômica comum e “deixar que o neoliberalismo morra com o euro”, como diz Marshall Auerback, analista econômico dos EUA e membro conselheiro do Instituto Franklin e Eleanor Roosevelt. Segundo ele, “o cúmulo da ignorância econômica é propor a destruição dessa rede de seguridade social a partir de uma extrapolação das lições equivocadas proporcionadas pelos problemas particularíssimos em que a própria Zona do Euro se meteu”.

A IHU On-Line que abordou a crise do Euro ouviu ainda vários pesquisadores sobre a ameaça ao Bem-Estar Social. Os entrevistados abordaram que tipo de capitalismo sairá da crise, se um capitalismo mais regulado e sob o controle da sociedade mantendo as conquistas do Welfare State ou se um capitalismo desgarrado de quaisquer mecanismos de contenção.

A guerra cambial

A “guerra cambial” é outro desdobramento da crise econômica mundial de 2008 que estorou em 2010, que dá força às teses, como dissemos anteriormente, aos que afirmavam que as consequências dessa crise se fariam sentir por muito tempo. A essência da “guerra cambial” está relacionada à excessiva liquidez de dólares no mundo e às resistências da China em valorizar a sua moeda. Trata-se, portanto, de uma guerra de gigantes como destacou o economista Guilherme Delgado em entrevista à IHU On-Line.

No esforço do pós-crise de 2008, os Estados Unidos derrubaram a taxa de juros para estimular a retomada da economia provocando a desvalorização forte do dólar frente às demais moedas e inundando o mercado internacional de recursos. Os americanos estão inundando o mundo com dólares para cobrir os rombos de seus déficits e estão se lixando com os estragos que provocam.

Como na crise economica mundial, a lógica dessa movimentação tem por detrás o poder e os interesses do mercado financeiro. Segundo o economista Pedro Rossi, pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp (Cecon), “assistimos a subordinação das trajetórias cambiais às decisões de agentes financeiros”.

O economista destaca que “o mercado internacional de moedas, conhecido também como Forex (foreign exchange market), é o mais líquido do planeta. Nele negociam-se em torno de US$ 4 trilhões por dia, segundo o Banco para Compensações Internacionais (BIS). Esse montante desmedido excede com folga as necessidades reais da economia: em 15 dias, o mercado de moedas transaciona o equivalente ao PIB mundial no ano todo; ou ainda, em cinco dias, todo o estoque de ações. Trata-se de um mercado que negocia, além dos fluxos de comércio e serviços, o estoque de riqueza global, mudando constantemente a forma de sua denominação monetária”.

Esse mercado joga, diz o economista, com “uma estratégia financeira que busca usufruir o diferencial de juros entre duas moedas, onde se assume um passivo ou uma posição vendida na moeda de baixos juros e, simultaneamente, um ativo ou uma posição comprada na moeda de altos juros”. Em síntese, diz Pedro Rossi, “há algum tempo assistimos a um processo de subordinação das trajetórias cambiais às decisões de portfólio dos agentes financeiros. Esse processo gera a descolagem da trajetória das taxas de câmbio em relação aos fundamentos econômicos”.

O mercado financeiro, portanto, tem interesse na guerra cambial ou na “guerra global de moedas”, para utilizar a expressão de Mantega, e especula nesse cenário. A guerra cambial, portanto, é um tema complexo. Situa-se no contexto da crise econômica mundial hegemonizada pelo mercado financeiro e é estimulada por políticas protecionistas dos Estados-nações. A longo prazo apenas será debelada a partir de um nova concertação mundial do tipo Bretton Woods, algo difícil de se construir. Até lá os solavancos na economia mundial continuarão e assistiremos a um “salve-se quem puder”, onde cada país utiliza as armas que tem e que pode para proteger sua economia.

A guerra cambial apresenta reflexos diretos à conjuntura econômica brasileira, particularmente no que concerne aos riscos de aceleração da desindustrialização no país, como veremos à frente.

G.20 – Ignorando as razões da crise

2010 também foi o ano que confirmou que as lições da crise econômico-financeira foram ignoradas e que o jogo continua sendo jogado da mesmíssima maneira. Essa é a principal conclusão a que se pode chegar sobre o encontro do G20 ocorrido em meados desse ano em Toronto (Canadá) – o encontro das nações mais ricas do mundo – antigo G7 – somado aos países emergentes teve como pano de fundo a crise econômica mundial, e, particularmente a crise do euro. Na pauta do encontro: a crise e a reforma financeira mundial. Na esteira da crise mundial provocada pelo sistema financeiro, um dos temas em debate dizia respeito à adoção de possíveis mecanismos de controle e taxação sobre transações financeiras.

Os resultados do encontro foram pífios, as expectativas do anúncio de medidas de controle sobre o sistema financeiro frustraram. O G20 revelou mais uma vez mais absoluta incapacidade de coordenar decisões políticas de controle sobre o capital. Não houve nenhuma decisão concreta. Pior ainda, as recomendações do G20 são contraditórias ao afirmar, por um lado, que é preciso buscar a recuperação econômica e, por outro, sugerir metas ousadas de redução do déficit, o que significa cortes de investimentos, principalmente na área social.

Considerando-se os estragos mundiais provocados pela crise econômica, ganhou força a percepção de que alguma coisa estava profundamente errado no sistema econômico e algo precisava ser feito. Chegou-se a afirmar que talvez um ciclo do capitalismo pudesse estar próximo do seu encerramento. Entre tantas constatações, destacava-se que após décadas de neoliberalismo, o mito dessa corrente econômica caia por terra e que a tese de um mercado auto-regulado é uma falácia; assegurava-se da urgente e indispensável regulação do mercado financeiro e asseverava-se da importância do papel do Estado como um instrumento importante para se colocar freios na voragem do capital.

Na oportunidade, as bandeiras de luta do movimento antiglobalização, da necessidade de controle do capital financeiro – que ganhou corpo ao longo das edições do Fórum Social Mundial (FSM) – passaram até mesmo a serem assumidas por ministros das finanças de todo o mundo e pelos organismos multilaterais, como o Banco Mundial e o FMI.

Na época, criou-se unanimidade – no G20 – de que os governos tinham que agir para evitar uma séria depressão. Unanimidade essa que se traduziu em pacotes bilionários para o mercado financeiro não quebrar. Essa unidade entretanto acabou quando se trata de discutir controles de regulação sobre esse mesmo mercado. O G20 mostrou-se rápido em salvar o capitalismo e, incapaz de colocar freios nesse mesmo capitalismo.

Brasil. Um país imune à crise mundial?

Ao longo de 2010, frente à crise do euro e a guerra cambial, Lula não cansou de repetir que o país foi o último a sentir os efeitos da crise mundial e o primeiro a sair dela. Com a crise do Euro e a guerra cambial, o governo repetiu o mesmo bordão, de que os fundamentos da economia brasileira são sólidos e não há o que temer. Com crecimento de 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, o país sente-se blindado. Esse discurso, porém, é para o “público”. São evidentes as preocupações do governo com os desdobramentos da crise do euro e da guerra cambial.

A crise da zona do Euro e a guerra cambial indicam em seu interior contradições que o Brasil também vivencia. As crises revelam o choque entre políticas de Estado e de mercado. A própria Dilma tem emitido sinais trocados sobre esse tema. Ora, afirma que pretende um estado mais desenvolvimentista, ora sinaliza que manterá o rigor do tripé câmbio flutuante, meta de inflação e disciplina fiscal.

Particularmente, a guerra cambial reascendeu um debate permanente na sociedade brasileira, particularmente nas hostes econômicas: o risco da desindustrialização.

Os sinais dos últimes meses do ano indicam um lento processo de desindustriaização. Em novembro, a indústria de transformação apresentou o primeiro saldo negativo do ano na contratação de novos empregos na indústria. O saldo negativo foi de 9.139 vagas. O Instituto para o Desenvolvimento Industrial – Iedi em seu comunicado de novembro alerta: “Vale observar que a indústria contribuiu com um percentual de novos postos de trabalho (fluxo) muito menor do que a sua participação (16,6%) no estoque total de trabalhadores em novembro, o que significa que, relativamente, ela encolheu”.

Lawrence Pih, empresário e membro do Conselho Superior de Economia e do Conselho Superior Estratégico da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), e um dos primeiros apoiadores do PT ainda nos anos 1980, sobre os riscos da desindustrialização destaca que “em 1993, o País exportava 62% de manufaturados e hoje exporta 41%. Já a participação das matérias-primas na pauta de exportações aumentou de 20% para 43%. Estamos importando todos os bens manufaturados com grande grau de tecnologia. A desindustrialização já está acontecendo”.

Na opinião do empresário, “basta olhar para nossa pauta de exportação. Suco de laranja e açúcar refinado entram na pauta de produtos manufaturados. São números disfarçados, porque não passam de commodities”, diz ele. Lawrence Pih comenta que “o Brasil exporta celular e não tem fábrica de semicondutores. Somos só um centro de montagem”.

Na análise de David Kupfer, especialista em política industrial, em recente entrevista ao IHU, “embora a economia brasileira tenha crescido mais do que a média mundial em 2010, a indústria perdeu participação no PIB. Segundo Kupfer, isso acontece porque a economia brasileira está atraindo produção internacional, o que gera um acirramento da competição pelo mercado interno. Além do mais, a desvalorização do dólar favorece as importações e as empresas nacionais compram cada vez mais insumos no exterior. “Na medida em que a economia cresce, as empresas comprarão mais do exterior ao invés de produzir no Brasil. É esse o problema que coloca o país em uma fase de transição em que, ou vai haver uma mudança estrutural na indústria – na qual ela irá mudar a sua pauta de produtos –, passará a ser mais sofisticada do ponto de vista tecnológico, conseguindo escapar das commodities para a produção de bens elaborados ou, então, haverá uma penetração crescente de importações e um recuo da produção brasileira”.

Segundo ele, é urgente desatar o nó cambial para fazer frente à guerra cambial e retomar a competitividade da indústria brasileira.

O debate em torno da desindustrialização tem sido recorrente no sítio do IHU e nas revistas IHU On-Line. A IHU On-Line – edição 338 intitulada Economia brasileira. Desafios e perspectivas, editada em agosto desse ano retoma esse debate. Na revista não há consenso entre os economistas sobre uma eventual desindustrialização ou não no país. Mansueto Almeida, Regis Bonelli, Fernando Sarti, e Fernando Ferrari Filho avaliam que não há desindustrilização, porém, os economistas Julio Gomes de Almeida, Carlos Lessa, Reinaldo Gonçalves, e José Luis Oreiro consideram que há um processo de desindustrialização em curso na economia brasileira.

Dilma Rousseff já demonstrou preocupação com o processo de desindustrialização do país, entretanto, pelas escolhas e declarações, o governo está sinalizando, com muita clareza, que não irá produzir descontinuidade na política macroeconômica em curso no país. A mesma continuará sendo de disciplina macroeconômica, apoiada em um tripé que envolve superávit primário, política de metas de inflação e câmbio flutuante. Resta ver como o rigor fiscal irá compatibilizar com a retomada de uma política industrial.

A explosão do consumo e a emergência de uma nova classe média

2010 foi o ano que confirmou a vigorosa mobilidade social no Brasil. Milhares ascenderam socialmente, melhoraram a sua renda e passaram a consumir mais. Cientistas políticos, sociólogos e economistas falam do nascimento de uma nova classe média brasileira – a classe C, a mesma que assegurou a vitória de Dilma Rousseff.

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), 22,7 milhões de brasileiros mudaram de patamar de renda, sobretudo, nos últimos cinco ou seis anos. Os dados são do economista e pesquisador do Cesit/Unicamp, Waldir Quadros em entrevista à IHU On-Line. A maior movimentação na mobilidade aconteceu na base da pirâmide, entre os miseráveis e a massa trabalhadora que ascenderam e deram robustez à classe C – estrato social que percebe, segundo a PNAD, entre de R$ 700,00 a R$ 1.750,00 – renda individual.

Assiste-se a uma grande mobilidade social da base da pirâmide para cima na sociedade brasileira. “Os ‘de baixo’ estão subindo, mesmo que os ‘de cima’ não estejam descendo”, diz Andre Singer em entrevista à IHU On-Line. Segundo ele, “vemos essa reação, por exemplo, em relação a ter muitos carros nas ruas, a ter muitas pessoas que nunca viajaram de avião e que agora estão nos aeroportos, etc”. Singer comenta ainda que até os mais pobres sentem-se beneficados por esse fenômeno. Diz ele: “Em relação àquelas camadas do subproletariado que ainda não passaram para essa condição de classe C, penso que, como dizia o professor Albert Hirschman, a fila começou a andar. Às vezes não é a sua fila, mas a fila do lado. E daí vem a sensação de que a sua fila também vai começar a andar daqui a pouco”.

O sociólogo Rudá Ricci vislumbra ineditismo na emergência dessa nova classe média brasileira. Segundo ele: (…) “Na primeira década do século 21, praticamente 24 milhões de pessoas são alçadas à condição de classe média no Brasil. Esta é uma situação inédita na história do país e só encontramos algo similar nos Estados Unidos, na década de 1950, depois da Segunda Guerra Mundial”.

Segundo Ricci, “essa nova classe C, que ganha entre 4 e 10 salários mínimos – pensando na renda familiar e não individual – rompe com o histórico de pobreza. São pessoas jovens, com até 25 anos, magras e negras. Eles romperam portanto com a história dos pais, dos avós, dos bisavós e, por isso mesmo, consomem muito, porque querem se afastar a qualquer custo, como faria qualquer pessoa no lugar deles, do histórico de marginalidade que sempre existiu”.

A irrupção dessa nova classe média se dá, sobretudo, a partir de 2002 com o crescimento da economia brasileira. Pesquisas do Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada (Ipea) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) já antecipavam esse movimento. Ambas as pesquisas foram publicadas em 2008 e destacavam que aos poucos o Brasil tornava-se um país de classe média.

Nova classe média e lulismo

A nova classe média está associada ao lulismo e ao modelo neodesenvolvimentista como já destacado anteriormente. Há um debate intenso na “academia”, mas não apenas nela, sobre a relação do lulismo com a nova classe média.

Acerca da emergência da nova classe média brasileira – a classe C, vale destacar que há estudos que indicam que a mesma é conservadora, políticamente, socialmente e religiosamente. Na opinião do sociólogo Rudá Ricci, os valores que orientam a nova classe média “são conservadores e individualistas”. Segundo ele, essa nova classe média é “refratária a mobilizações sociais, ao espaço público, não seguem líderes (daí não aceitar a tese de André Singer de que o lulismo é uma vertente do bonapartismo) e sente que está sendo incluída no país pelo consumo”. Rudá Ricci avalia que “formam um caldo de cultura popular muito conservador, que não gosta de confronto, de rupturas, da agenda de direitos civis” e ainda “tratam da fé como instrumento de negociação para o sucesso pessoal e familiar”.

Em outra entrevista, Rudá Ricci comenta que a nova classe média “é muito consumista, espantosamente consumista (…) e tem muito receio de cair de novo, por isso não vota em candidatos que signifiquem ruptura, que demonstrem alguma tendência de mudar a ordem pública (…) Só votam em quem garante a ascensão social, ou seja, querem garantias de que vão continuar comprando e que vão pagar as dívidas (…) e a segunda característica é que eles não votam em quem propõe ruptura. E nesse sentido, o Lula cai como uma luva para esses anseios. Mas não como idolatria, é fundamental dizer isso. Lula combina com esse pensamento pragmático da ascensão social e da manutenção da ordem vigente”, afirma Rudá.

É nessa perspectiva – receio de rupturas que ameaçem o seu novo status quo – que se explica politicamente o voto em Lula e posteriormente em Dilma dado pela nova classe C: “Eles sabiam que estavam votando num projeto que assegurava a ascensão da família”, diz Rudá Ricci.

Na opinião do sociólogo a nova classe média – assim com a “antiga” classe média – é religiosamente conservadora. Segundo ele, “são famílias egocêntricas. Por exemplo, vão à igreja para conseguir o sucesso, por isso fazem muitas novenas e promessas. A religião é usada como uma estratégia de garantia e de estratégia da família”.

Diz ele: “Eu mesmo coordenei uma pesquisa com os católicos praticantes e isso ficou muito claro. É o que estamos chamando de religiosidade privada, de se trabalhar a fé a partir de si e da sua família. A votação no final do 1º turno, com dados muito duros de crítica, ligadas à candidatura de Dilma, como a questão do aborto e do casamento de homossexuais, foi a primeira emergência pública política desse conservadorismo fundamentalista religioso no Brasil. Eu acho que surgirá nos próximos anos o primeiro movimento social de massa, de base, depois do regime militar, ultraconservador no Brasil. E eles vão definir as próximas eleições”.

Na entrevista à IHU On-line, Rudá Ricci considera que a origem desse conservadorismo é o ressentimento: “Algo que Richard Sennett já havia esboçado teoricamente no livro O Declínio do Homem Público. O ressentimento se dá contra toda estrutura pública (incluindo as autoridades) que sempre a relegaram à pobreza. Nunca leram, coisa de ilustrados que sempre os humilharam. Só acreditam em sua família e nos grupos íntimos. E acredita que chegou sua vez. Enquanto o lulismo lhe garantir este consumo, o apoiará. Mas o conservadorismo é maior que o apoio a um político. O que cria um campo de tensões e uma espécie de bomba relógio (que já explodiu com o Tea Party , nos EUA e no movimento de classes médias da Espanha). Veremos se Dilma conseguirá desarmar ou ao menos lidar com esta bomba de efeito retardado, latente”.

Rudá Ricci conclui: “Creio que vai surgir no Brasil, a exemplo do que ocorre nos EUA e na Espanha, um movimento de classe média ultraconservador que já apareceu no final do primeiro turno. Nós já temos o discurso e a liderança e, por isso, é bem provável que no final do governo Dilma apareça um movimento social deste tipo. A Igreja ultraconservadora voltará a ter força no Brasil”.

Conjuntura Especial. Uma síntese dos grandes temas abordados em 2010

O Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ao longo de 2010 produziu análises da conjuntura semanais a partir da (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU e da revista IHU On-Line publicada semanalmente. Como fecho do trabalho desse ano, apresentamos uma Conjuntura Especial que retoma os grandes conteúdos abordados pelas conjunturas semanais no ano de 2010.

(Ecodebate, 23/12/2010) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]


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