Porque ainda acredito em Papai Noel, artigo de Maurício Gomide Martins

[EcoDebate] Durante toda a minha vida acreditei e continuo acreditando na existência de Papai Noel, o bom velhinho. Aquele que vive numa casinha acolhedora assentada em meio às neves dos países nórdicos. Emprega seu tempo todo fabricando, com a maior boa vontade e prazer, brinquedos para as crianças do mundo. Sabe de suas responsabilidades para o final de cada ano e as cumpre com rigor. Nessa época, sai em seu majestático trenó, arrastado pelas sempre fortes, fieis e dedicadas renas na sua viagem pelo globo, semeando alegria e felicidade para os infantes.

Muitas pessoas me perguntam como sou capaz de ser simplório durante tão longo tempo. Respondo que o bom velhinho existe mesmo, pois não há motivo para não existir alguém inteiramente dedicado a fazer brotar a felicidade na alma das cândidas crianças, sejam elas americanas, iraquianas ou afegãs, todas iguais. Já notaram o quanto é sincero e transparente um bebê nas suas expressões faciais? E segue assim enquanto estiver ligado ao círculo familiar. Merece, por isso, ser protegido com afeto e amor pelos pais, até que a força da correnteza social individualista o arranque dali para engrossar seu caudal coletivo, padronizado nos moldes desejados pelo sistema do ganha-ganha.

Todos nós deveríamos acreditar nas boas virtudes do Papai Noel e fazê-las prosperar contra as violências incrustadas na sociedade. As pessoas, em geral, desconhecem o prazer e conforto que me proporciona a fé inabalável na existência do Papai Noel. É de admirar a presteza e satisfação com que o bom velhinho exerce sua função inteiramente gratuita. Conta ele com apenas aquele antigo trenó e indômitas renas que nunca se cansam. Nunca fez acordos espúrios com políticos, sistemas econômicos e jamais praticou a corrupção ou utilizou sua imagem imaculada para outros fins que não fosse o bem. Ele é o baluarte de esperança de todas as futuras gerações.

Eu tenho que acreditar naquela valorosa e perfeita obra celeste, pois a criança que ainda habita meu ser tem todas as condições necessárias para viver num mundo de bondade, solidariedade, honestidade, sinceridade, amor, pureza, autenticidade de sentimentos e senso de justiça e gratidão, principalmente para com nossa mãe Terra que nos fornece todos os recursos necessários à vida; a minha e a de toda a biodiversidade.

Hoje aquele fantástico sonho infantil, que se tornou um ideal, está inteiramente transformado e descaracterizado pelos danosos interesses religiosos e comerciais. As renas foram substituídas por imensos aviões cargueiros; apareceram milhares de falsos Papais Noéis que nada têm a oferecer, senão o estímulo ao consumo. Papai Noel, nesta atual civilização, é uma imagem utilizada como instrumento para arrancar da alma dos incautos todas as formas de desejos de bens materiais. Os brinquedos de outrora, inocentes mas poderosos, que mexiam com a imaginação infantil, foram expulsos de suas mentes e substituídos por outros modernos, monstruosos, que geram e exigem sentimentos de posse, poder, ganância e violência.

Essa onda insensível e arrasadora que varre, por igual, as mentes das crianças e adultos e que descaracteriza os autênticos valores da racionalidade humana, encontra no verdadeiro Papal Noel a resistência indômita e o abrigo seguro para os que não se conformam com a escravidão mental.

Não obstante o desvirtuamento e exploração mercantil que fazem desse heróico ancião, eu insisto em continuar acreditando no bom velhinho porque nele está a boa e justa causa, sintetizada na honestidade, sinceridade e justiça e que um dia há de suplantar as atuais adversidades.

Nesse mundo de tanto hipocrisia, falsidade e destruição de valores, alguém tem que se opor a essa avalanche.

E esse alguém só pode ser o bom e suave velhinho, o verdadeiro Papai Noel da reminiscência de todos nós.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.

EcoDebate, 21/12/2010

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Um comentário em “Porque ainda acredito em Papai Noel, artigo de Maurício Gomide Martins

  1. Compartilho totalmente com o autor! Emocionante artigo. Parabéns e Deus salve nosso papai-noel!

Comentários encerrados.

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