Expansão da cana-de-açúcar ameaça Cerrado, alertam pesquisadores

canavial

Migração do cultivo e crescimento do número de usinas, especialmente em Goiás considerado o coração do cerrado, coloca em risco preservação da metade que resta do Bioma

No encerramento do 5º Fórum de Ciência e Tecnologia no Cerrado, realizado pela SBPC/GO em Anápolis (GO) de 18 a 21 de outubro, foram discutidas as formas como o processo de invasão do Cerrado pela produção de cana-de-açúcar vem interferindo na preservação da biodiversidade e na forma como a população vem sendo tratada.

Com cerca de metade da sua área já extinta, o Cerrado sofre atualmente com a proliferação de novas indústrias para o processamento da cana e plantações. A expansão sucroalcooleira, que começou efetivamente com o Pró-álcool (iniciativa do governo federal) em 1970, hoje já transforma a região sudoeste de Goiás na nova Ribeirão Preto (SP) – região que mais se desenvolveu no setor -, devido a sua alta produção.

Nesta primeira iniciativa, na década de 70, somente áreas próprias eram usadas para o plantio. Antes, o solo era restrito, mas agora, com avanços tecnológicos, é possível que indústrias e plantações cheguem a qualquer lugar. A estimativa é de que, se todos os projetos de construção de novas usinas forem aprovados, o número subirá de 36 para 74, e Goiás vai gerar cerca de 33% da produção nacional.

Segundo estudos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), 64% das áreas próprias para a expansão da cana estão no Cerrado, o que equivale a cerca de 18 milhões de hectares, mais da metade de toda a área do Estado de Goiás. A tendência para 2018 é de que a agricultura avance sobre as pastagens e outras culturas de passando de 12 para 38% de ocupação.

“Estamos vivendo uma reorganização socioeconômica e do uso do solo no Bioma Cerrado”, afirma Selma Simões de Castro, professora do Instituto de Estudos Sócio-ambientais da Universidade Federal de Goiás (UFG), especialista em análise de solo e estudiosa dos processos migratórios da cana-de-açúcar pelo país.

Segundo ela, a mão de obra especializada da cana vem de fora para dentro e pouco auxilia na evolução dos empregos e na circulação da renda na região produtora. “A riqueza fica concentra nas mãos de poucos”, lamenta.

Impactos

Dentre os impactos diretos onde a cana está sendo plantada estão as queimadas, falta de rotatividade das culturas – o que prejudica a vida útil do solo -, emissões de gases poluentes e contaminação de água – como no Aquífero Guarani, que é um dos mais importantes do país e fica na região onde a produção de cana mais cresce.

Com isso, também não há controle sobre os problemas sociais gerados, como violência, prostituição, falta de moradias e superlotação de pequenas cidades que não tinham estrutura para abrigar as centenas de pessoas que são levadas juntamente com as plantações e as usinas.

Etanol

Mesmo com todos os fatores contrários, a cana ainda é menos poluidora que a soja, pois sua adubação se dá de forma mais natural, com os próprios dejetos do processamento nas indústrias. Sobre a grande produção atual e a projeção para o futuro, o uso do etanol não deve sofrer crise pelos próximos 50 anos, explica Paulo Pietrafesa, professor do programa de Pós-graduação em Ecologia e Produção Sustentável da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás).

Diferentemente do que é divulgado de maneira genérica, as áreas agrícolas, especialmente de cultivo da soja, são substituídas em primeiro lugar pela cana, sendo que as pastagens ficam em segundo lugar, de acordo com uma análise mais aprofundada dos dados fornecidos por pesquisadores da área. A lógica era de acreditar-se que como a cana está em franco crescimento, e as pastagens em decadência, uma estaria interferindo na outra, mas a produção de grãos tem sido mais atingida.

A forma como a agricultura, especialmente da cana, vem sendo desenvolvida tem sido uma das principais causas do aumento do preço dos alimentos. Esse movimento mexe com a safra de grãos e também com a paisagem. Outro fator preocupante são as condições humanitárias. Foi registrado pelo Ministério do Trabalho que Goiás é o Estado com maior número de pessoas em condições análogas às de escravo nos canaviais e só perde para o Pará no total de trabalhadores escravizados.

Com a invasão da cana, onde foi parar o gado e a soja? Segundo Pietrafesa, o gado foi para pequenos confinamentos e a soja já pode ser vista em grandes áreas da floresta Amazônica, especialmente no Estado do Pará. São Paulo ainda lidera com quase 10 milhões de cabeças de gado, mas já estima-se que o Brasil tenha o mesmo número de bois e habitantes, cerca de 200 milhões.

As culturas estão variando para dar lugar à cana, com isso produz-se menos arroz, feijão, milho e os preços vão subindo sem controle. O leite também é diretamente afetado. E a monocultura mexe com toda a biodiversidade ao redor. Um exemplo claro da tomada do Cerrado pela indústria sucroalcooleira é que o Estado de Goiás (onde está a maior parte do bioma) já ultrapassou o Paraná, e agora ocupa o segundo lugar, atrás somente de São Paulo, que tem mais de 200 usinas em funcionamento.

O Sul e Sudeste do país estão estagnados na expansão da cana. O Centro-Oeste é que vai receber efetivamente as novas empresas e plantações. Mas há críticas dos pesquisadores quanto a internacionalização das indústrias.

“É uma questão de segurança nacional manter o controle nas mãos dos brasileiros”, defende Paulo Pietrafesa. O país já é dependente do álcool, e se forças de fora tomarem conta das nossas produções, poderemos ficar sem capacidade de suprir o mercado interno e focar somente na exportação, explica o professor.

Reportagem de Rafhael Borges, da Assessoria de Imprensa SBPC/GO, publicada pelo EcoDebate, 25/10/2010



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