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Enxurrada de lama tóxica vermelha queima cidades húngaras

Trabalhadores fazem a limpeza da lama tóxica vermelha. Foto: Bernadett Szabo/Reuters/NYT
Trabalhadores fazem a limpeza da lama tóxica vermelha. Foto: Bernadett Szabo/Reuters/NYT

O governo húngaro declarou estado de emergência em várias cidades na terça-feira, um dia após o vazamento de um reservatório de uma usina de produção de alumina (óxido de alumínio), em Ajka, ter causado uma enxurrada de lama tóxica vermelha que matou pelo menos quatro pessoas e feriu mais de 120, disseram funcionários do governo.

A enxurrada, estimada em 700 mil metros cúbicos, ou 700 milhões de litros, arrastou carros, danificou pontes e casas e forçou a evacuação de centenas de moradores. As pessoas que tiveram contato com a substância sofreram queimaduras através de suas roupas.

“As pessoas aqui falam de um minitsunami”, disse Gyorgy Bakos, porta-voz do Diretório Nacional Geral para Gestão de Desastres, que estava próximo da cena do acidente.Reportagem de Dan Bilefsky e Judy Dempsey, em Praga (República Tcheca), The New York Times.

[Leia na íntegra]
Especialistas ambientais húngaros disseram que o vazamento pode ter consequências ambientais devastadoras e que ameaça poluir o Rio Danúbio, causando danos de longo prazo nos ecossistemas e matando peixes e vegetação. O solo agrícola que atualmente está coberto pela lama terá que ser substituído a um custo potencialmente alto, disseram os especialistas.

As autoridades e os serviços de emergência evacuaram os moradores de Kolontar, Devecser e Somlovasarhely, no sudoeste da Hungria, e montaram acampamentos improvisados nas escolas e centros comunitários locais.

Além dos mortos, que aparentemente se afogaram, cinco pessoas estavam desaparecidas e cerca de 7.000 moradores foram afetados pelo vazamento. Cerca de 60 pessoas foram hospitalizadas, segundo o Diretório Nacional Geral para Gestão de Desastres.

Zoltan Illes, o ministro do Meio Ambiente que também estava em Devecser, chamou o vazamento de “desastre ambiental”.

A lama vazou e inundou cidades ao longo do Rio Torna. Cerca de 270 casas foram rapidamente engolfadas. A lama se espalhou por 41 quilômetros quadrados, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

Gabor Figeczky, vice-diretor para o país da WWF-Hungria, um grupo ambiental, disse que a principal ameaça da lama é o fato de ser muito alcalina, com um pH de até 13, a transformando em um detergente cáustico que pode queimar, o que provocou os ferimentos.

Segundo Figeczky, o risco ambiental foi criado pelo fluxo da substância altamente alcalina para os rios, matando toda vida lá. Ele disse que foi o primeiro grande vazamento dessa lama e ainda não se sabe se as chuvas e a água do rio acima poderiam ajudar a diluir a lama cáustica no rio, para evitar mais danos nos rios maiores corrente abaixo.

“Nunca ocorreu um vazamento de uma lama vermelha como essa antes, em nenhum lugar”, ele disse.

O Ministério do Meio Ambiente húngaro ordenou imediatamente que a proprietária da usina de alumina em Ajka, a MAL Zrt, a Companhia Húngara de Produção e Comércio de Alumínio, suspendesse todas as operações.

O primeiro-ministro Viktor Orban apelou por calma.

“Há motivo para pânico e isso é compreensível”, ele disse aos repórteres.

Ele disse que o governo formou uma equipe especial de especialistas para analisar o acidente, que ele disse que pode ter sido causado por erro humano e que não exibia sinais de ser resultado de causas naturais. Ele disse não haver risco de radiação na área afetada pela lama.
A lama vermelha é um subproduto do refino da bauxita em alumina, a matéria-prima para produção do aluminio, segundo a Associação do Alumínio, uma entidade setorial com sede em Arlington, Virgínia. A lama, um refugo da produção, contém metais pesados e é tóxica se ingerida, disseram os cientistas.

O proprietário da usina emitiu uma declaração na tarde de terça-feira, dizendo que “a lama vermelha não é considerada um lixo perigoso” segundo os padrões da União Europeia.

A empresa acrescentou que atende a todos os padrões de segurança.

Joseph Hennon, um porta-voz da Comissão Europeia para o meio ambiente, disse que a lama está regulamentada sob a lei da comissão, mas não é necessariamente considerada um lixo perigoso; isso depende do que exatamente ela contém. Ele disse que a comissão está aguardando por uma análise da lama fornecida pelo governo húngaro. A usina recebeu autorização do governo húngaro para lidar com a lama em 2006.

“Supostamente existiam procedimentos para manuseio e segurança”, ele disse.

Segundo a Associação do Alumínio, o processo de refino da alumina remove as impurezas do solo contendo bauxita, deixando um resíduo que é altamente alcalino e cáustico. Geralmente o resíduo é lavado várias vezes para redução da alcalinidade e remoção de materiais potencialmente perigosos. Depois é seco, segundo a associação.

O material final contém traços de quase todos os elementos encontrados na crosta da Terra, mas a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos não considera a lama vermelha como sendo uma substância tóxica ou carcinógena, disse um funcionário da associação.

Os moradores de Kolontar, não distante de onde ocorreu o acidente, tentaram fugir correndo de suas casas quando uma onde de lama de quase 2 metros tomou as ruas estreitas e casas.

“Meu pai, que tem 82 anos, conseguiu levantar minha mãe até a janela, a segurando firme”, disse Robert Lemann, um morador local, para a emissora de televisão pública húngara. “Então levamos meu pai às pressas para o hospital, porque a substância alcalina queimou a pele de suas pernas.”

Outros se queixaram de terem perdido seu ganha-pão à medida que fazendas, lojas familiares de esquina e empresas locais eram tomadas pelo avanço da lama vermelha.

Bakos disse que os moradores que tiveram contato com a lama experimentaram sensações desagradáveis nas pernas, braços e ouvidos. As autoridades disseram ser difícil confirmar os números, mas de 80 a 120 pessoas foram levadas ao hospital para tratamento.

“Está caótico aqui, já que as pessoas não sabem como reagir”, ele acrescentou.

Mas algumas pessoas, temendo por seus bens e propriedades, estavam ávidas em retornar.

“Elas estão preocupadas com seus valores, seus bens”, ele disse.

Elisabeth Rosenthal, em Roma (Itália), e John M. Broder, em Washington (EUA), contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Reportagem [Caustic Sludge Floods Several Hungarian Towns] do New York Times, no UOL Notícias.

EcoDebate, 07/10/2010

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