Transposição de águas do Rio São Francisco para o sertão alagoano, artigo de Paulo Afonso da Mata Machado

[EcoDebate] O semi-árido brasileiro, uma região de elevadas temperaturas, abriga uma população de cerca de 20 milhões de habitantes. A precipitação pluviométrica anual oscila entre 400 e 800 mm, mas se concentra nos meses do chamado inverno, tornando necessário o armazenamento da água de chuva. A infra-estrutura de armazenamento de água do semi-árido dispõe de mais de 36 bilhões de metros cúbicos. Contudo, devido ao regime de concentração de chuvas, são grandes as perdas por vertimento e, durante o longo período de escassez pluviométrica, as perdas por evaporação são muito maiores.

Uma opção ao armazenamento de água de chuva têm sido as águas de superfície, já que o semi-árido dispõe de dois grandes rios: o São Francisco e o Parnaíba. São esses rios e seus afluentes que fornecem a maior quantidade de água para as atividades rurais da região.

A maior parte do estado de Alagoas se concentra no semi-árido e se distribui por diversas bacias hidrográficas, entre elas a do Rio São Francisco. É desse rio que parte o maior número de sistemas coletivos de abastecimento de água do estado, visto ser o único com vazão segura em todos os períodos do ano.

Em Alagoas, está sendo construído o canal do sertão, pelo qual o São Francisco vai fornecer até 32 m3/s para 42 municípios, muitos deles na bacia do Rio Coruripe, substituindo os sistemas coletivos de abastecimento de água, numa nova transposição, a terceira do Velho Chico.

A transposição para o sertão alagoano quebrará diversos paradigmas. O primeiro deles se refere a uma deliberação do comitê da bacia do São Francisco proibindo a saída de água da bacia a não ser exclusivamente para consumo humano e dessedentação animal. O canal do sertão fornecerá água aos núcleos urbanos em toda sua extensão, destacando-se uma vazão de 1.500 m3/h (0,42 m3/s) captados pela empresa de saneamento alagoana (CASAL), em que 500 m3/h estão destinados à Mineradora Vale Verde. O canal fornecerá água para diversas atividades como dessedentação do rebanho, irrigação do pasto, desenvolvimento da piscicultura e criação de condições de produção agrícola contínua por meio de seis grandes projetos de irrigação. A água transferida da bacia do Rio São Francisco não será, portanto, exclusivamente para abastecimento humano e dessedentação animal.

Um segundo paradigma a ser quebrado é o de que a retirada de água da bacia do São Francisco, principalmente próximo à foz, poderia aumentar o problema da cunha salina. Da mesma forma que o aumento na vazão de transposição para Aracaju não afetou em nada a cunha salina no Velho Chico (que é motivada principalmente pela precipitação de sólidos na hidrelétrica de Xingó), a captação de água no reservatório da usina Moxotó, no baixo São Francisco, não aumentará a ocorrência da cunha salina.

Um terceiro paradigma se refere aos canais a céu aberto. Quando foi feito o PISF, houve inúmeras críticas de que a água da transposição não chegaria ao seu destino no Nordeste Setentrional, pois evaporaria antes. Isso não acontecerá, porque a intensidade de evaporação na água em movimento é muito inferior à da água parada. Os canais a céu aberto na transposição para o sertão de Alagoas demonstram que o projeto é semelhante ao do PISF.

Outro paradigma que será quebrado será a comparação do São Francisco a um doente na UTI, impossibilitado de doar sangue. O São Francisco, com sua vazão segura definida por deliberações do comitê de sua bacia, continua pujante como sempre e totalmente capaz de abastecer as necessidades hídricas, mesmo de pessoas que não habitam sua bacia.

Finalmente, há outro paradigma que precisa ser quebrado. Os habitantes do sertão alagoano devem parar de atacar o projeto de transposição de águas do Rio São Francisco para o Nordeste Setentrional (PISF). Afinal, o canal do sertão, com sua capacidade máxima de 32 m3/s, supera a vazão firme conjunta dos dois eixos de transposição para o Nordeste Setentrional. Não fica bem cuspir no prato em que se vai comer.

* Paulo Afonso da Mata Machado: Analista do Banco Central do Brasil; Engenheiro Civil e Sanitarista pela UFMG; Mestre em Engenharia do Meio Ambiente pela Rice University.

EcoDebate, 16/09/2010

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