Chega de #queimadas, artigo de Miriam Leitão

Alto Paraíso - (GO) Incêndio destrói vegetação nativa na Chapada dos Veadeiros, às margens da Rodovia GO-239 (Marcello Casal jr/ABr)
Alto Paraíso – (GO) Incêndio destrói vegetação nativa na Chapada dos Veadeiros, às margens da Rodovia GO-239 (Marcello Casal jr/ABr)

[O GLOBO] O Brasil arde como nunca. Mais precisamente, 135% a mais do que no ano passado, segundo medição do NOAA-15, um dos nove satélites que o Inpe usa para monitorar o problema. Não é sazonal.

É o resultado de outros crimes e do descuido do governo em combatê-los: o desmatamento, o fogo na mata e no pasto, as serrarias ilegais, as carvoarias. A seca ajuda a propagar, mas não é a causa do fogo.

O clima está seco, muito seco. A baixa umidade relativa do ar se espalha por grande parte do Brasil. O que já seria fonte de problemas brônquios é agravado pela fumaça que encobre grande parte do país provocada por milhares de focos de incêndio.

Quantos, é difícil saber, porque se for usado só um satélite dá para ver o aumento percentual, mas a contabilidade pode ser parcial; se forem usados todos os satélites, haverá dupla contagem. Na página do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) está registrado que usando-se só o satélite de referência houve no país, de primeiro de janeiro a 26 de agosto, o incrível número de 41.636 focos de incêndio, e apenas do dia 26 para o dia 27 os focos foram 1.391. O campeão é Mato Grosso, com aumento de 183% em relação a 2009 e 11.529 incêndios.

Claro que nada disso é aceitável.

Mas a grande pergunta é por que o Brasil pega fogo desse jeito? Quando se conversa com técnicos do Inpe, o que eles dizem com todas as letras é que deixada quieta a natureza não pega fogo sozinha.

A secura cria as condições propícias para o problema se propagar. Mas a origem do fogo é humana.

O pesquisador Paulo Barreto, do Imazon, explica as várias formas de queimadas que já viu em suas viagens pela Amazônia, onde vive: — A seca torna o país mais vulnerável, mas a ameaça do fogo é criada por gente. O fogo é usado para limpar o solo depois do desmatamento, ou então para reformar o pasto de uma forma rápida e barata. Quando se desmata para tirar a madeira, sem qualquer técnica, fica muita árvore morta na floresta, muita vegetação seca. Isso torna a área propícia à propagação do fogo, venha ele de alguma área desmatada próxima ou algum pasto sendo reformado nas proximidades.

Os crimes vão assim se associando.

Quando se desmata uma área, o proprietário — na maior parte das vezes, grileiro — tira as melhores madeiras e põe fogo no resto para limpar tudo e preparar para o plantio.

Nos pastos, a forma mais preguiçosa de preparar é pôr fogo em tudo. Quando se invade uma área para tirar a madeira dessa forma predatória, cada árvore que cai derruba dezenas de outras que, mortas e ressecadas, tornam toda a área vulnerável a incêndio.

Há outros focos que nascem das práticas desatualizadas da agricultura, mesmo quando ela é legal. As áreas de plantios e pastos são preparados frequentemente com o fogo. E ele se alastra.

Muitas vezes causa conflito entre vizinhos que, ou se protegem com aceiros — uma espécie de cordão de isolamento feito com uma parte sem qualquer vegetação — ou têm suas áreas queimadas pelo fogo descontrolado. A indústria de cana-de-açúcar, mesmo nas áreas mais ricas do país, ainda usa em grande parte o fogo como técnica de produção. A queimada da cana produz uma fumaça muito prejudicial à saúde.

Outra fonte de fogo são as serrarias, as carvoarias, em geral, ilegais. Essas serrarias deixam acumular em seus pátios montes de vários metros de resíduos de madeira — pó de serra. Para limpar a área, eles ateiam fogo e aquilo fica queimando dias, liberando uma fumaça altamente lesiva à saúde. Eu vi em Paragominas, quando estive lá, em madeireiras, esses montes impressionantes. Um deles tinha cinco metros de altura e vinte de comprimento.

— Em Paragominas, já houve caso de morte de crianças que foram brincar em cima desse monte, quando ele estava já queimando de baixo para cima — diz Barreto.

O pesquisador do Imazon conta outras formas de risco de propagação: — Na Amazônia, a gente vê vários problemas como por exemplo o que eles chamam de fogo de copa. Uma área de floresta enfrenta um fogo num ano que não destrói, mas fragiliza a mata. No ano seguinte, outro fogo vem e toma tudo até às copas das árvores.

O fogo nasce também da desordem urbana, do descuido dos fumantes com suas guimbas, dos vários tipos de comportamento pirotécnico.

Em alguns episódios, está claro que é fogo criminoso mirando a destruição de áreas de preservação, como está acontecendo na Serra da Canastra, no sul de Minas.

O rastro do fogo revela outros crimes e a falha do governo em coibir a ilegalidade e forçar o respeito à lei. O que piora tudo é que a secura pode se agravar.

— Num cenário de mudança climática, isso pode se repetir e a fragilidade aumenta. O fogo acaba provocando muito prejuízo para a saúde humana, para a aviação, além da destruição do meio ambiente — diz Paulo Barreto.

As queimadas trazem prejuízos econômicos, como a interrupção de fornecimento de energia. O pesquisador Roberto Smeraldi, da ONG Amigos da Terra, diz que as linhas de transmissão de energia que cortam o Brasil ficam vulneráveis ao fogo.

— Temos um sistema de transmissão interligado, com linhas extensas. As concessionárias frequentemente sofrem com interrupção. Outro problema é que as queimadas em plantações de cana deixam de utilizar o bagaço para a geração de bioenergia. Há desperdício — disse.

Smeraldi cita outos impactos, como a interrupção do fluxo de barcos em hidrovias, por falta de visibilidade, e o risco para a aviação civil. Aeronaves não conseguem pousar por causa da fumaça: — Na Amazônia, mudar de aeroporto pode significar mais 2 horas de voo. As distâncias são muito grandes.

O movimento que Smeraldi lançou pelo Twiter, o #chegadequeimadas, em dois dias reuniu 25 mil pessoas e já teve 130 mil retweets. O fim da queimada significa também o combate a vários crimes, com os quais não podemos mais conviver.

Artigo originalmente publicado no Painel Econômico, de O GLOBO.

EcoDebate, 30/08/2010

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Um comentário em “Chega de #queimadas, artigo de Miriam Leitão

  1. A criminalidade exacerbada e a impunidade têm sido as maiores marcas desse desgoverno que é reeleito mesmo antes das eleições. Lamentavelmente são recordes de desmandos, de desmatamento, de crimes ambientais (Petrobrás descumpriu acordos internacionais e é responsável pelo óleo diesel com 1850 ppm contra 50 ppm no mundo civilizado, por exemplo), tudo decorrência de um estatismo partidarizado, aparelhamento político por parte de uma organização que supera os limites de um partido político (PT).

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