A bomba que mudou o mundo, artigo de Heitor Scalambrini Costa

A nuvem de cogumelo resultante da explosão nuclear da Fat Man sobre Nagasaki, 18 km acima do solo, a partir do hipocentro. Foto: Wikipedia
A nuvem de cogumelo resultante da explosão nuclear da Fat Man sobre Nagasaki, 18 km acima do solo, a partir do hipocentro. Foto: Wikipedia

[EcoDebate] Com a famosa frase “meu Deus, o que foi que nós fizemos”, pronunciada por um dos tripulantes do avião que conduziu o artefato nuclear sobre território japonês, o mundo relembra os 65 anos do lançamento das bombas atômicas durante a Segunda Guerra Mundial, ambas pelos Estados Unidos contra o Japão, detonadas nas cidades de Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagasaki (9 de agosto de 1945). O poder de destruição das bombas foi imenso, ao menos 200 mil morreram em Hiroshima e 100 mil em Nagasaki, iniciando, assim, a chamada era nuclear. Esses acontecimentos devem ser lembrados sempre por sua brutalidade e impunidade.


O Japão, único país a ter sido bombardeado em duas ocasiões com armas nucleares reclama há anos a abolição das armas de destruição em massa. A detonação de uma bomba nuclear provoca danos imensos. O grau de destruição dependerá da distância de onde o centro da bomba é detonado, chamado de marco zero (podendo chegar nesse local a temperatura de até 300 milhões de graus Celsius). Quanto mais próximo alguém estiver deste local, maior será a gravidade dos danos. Eles são causados por diversos aspectos: uma onda de calor intensa de uma explosão, pressão da onda de choque criada pela detonação e precipitação de material radioativo. As partículas radioativas que chegam ao solo penetram no manancial d’água e são inaladas e ingeridas por pessoas a uma distância considerável do local de detonação da bomba. Alguns dos problemas de saúde ocasionados pelo material radioativo incluem: náusea, vômitos e diarréia; catarata; perda de cabelo; perda de células sanguíneas. Estes problemas freqüentemente aumentam o risco de ocorrência de leucemia, câncer, infertilidade, deficiências congênitas, dentre outros males.

O Tratado de Não Proliferação Nuclear, adotado em 1967, teve o objetivo de “congelar” a posse de armas nucleares às cinco potências nucleares da época: Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra, França e China. Na prática, o que se verificou foi o inverso, com os esforços de vários países, dentre eles a Índia, o Paquistão e Israel, de produzir armas nucleares, agravando os problemas de proliferação nuclear e criando sérios transtornos no cenário internacional. Lembremos do caso do Iraque acusado de produzir armas nucleares, justificativa usada como uma das causas da sua invasão. Outros países também tiveram a iniciativa de produzir armamentos nucleares, como a África do Sul, Líbia, Irã e Coréia do Norte. Até o Brasil e a Argentina desenvolveram atividades nessa direção durante o período militar.

Mesmo não havendo provas definitivas de que o nosso país esteja construindo armas nucleares, eventos e pronunciamentos em passado recente levam-nos a crer que o Brasil “recomeçou a flertar” com a idéia de produzir uma bomba atômica, após tentativas anteriores mal sucedidas durante o regime militar. Nos últimos anos diversas autoridades, como o vice-presidente da República José Alencar e o ex-ministro de Ciências e Tecnologia Roberto Amaral (quando no cargo), declararam a necessidade do país dispor de armamento nuclear para defesa preventiva e de suas riquezas, como fator de dissuasão e para impor mais respeitabilidade. Também o documento sobre a Estratégia Nacional de Defesa lançada em 2008, afirma a “Independência nacional, alcançada pela capacitação tecnológica autônoma, inclusive nos estratégicos setores espacial, cibernético e nuclear. Não é independente quem não tem o domínio das tecnologias sensíveis, tanto para a defesa como para o desenvolvimento”. Embora a Constituição diga que toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos, o assunto está longe de ser considerado um tabu.

A ressurreição do Programa Nuclear Brasileiro é mais um dos indícios da estratégia governamental de tornar o Brasil uma potência atômica. O dinheiro empregado no programa, para a construção e funcionamento de novas usinas núcleoelétricas, permitirá a lubrificação de todas as suas engrenagens. A cada usina que construímos aumentaremos o volume de urânio que produzimos, aumentando assim o saldo com que se espera entrar definitivamente como sócios no Clube Atômico, e para tal é necessário ter a bomba atômica.
O Brasil pela exuberância e diversidade de fontes energéticas renováveis disponíveis em seu território, não precisa da energia nuclear para atender a demanda de energia elétrica, e assim, pode adotar opções mais atraentes do ponto de vista econômico, social e ambiental.

Abrir mão da energia nuclear significa um importante passo para evitar o perigo de uma nova onda de proliferação nuclear, dada a natureza dual da energia nuclear, que se presta tanto para aplicações pacíficas como militares, sem falar dos problemas físicos de segurança nuclear. Não devemos nos esquecer do que afirmou o físico Robert Oppenheimer, responsável pela construção da primeira bomba atômica, quando visitou o Brasil, em 1953: “Quem disser que existe uma energia atômica para a paz e outra para a guerra, está mentindo”.

Heitor Scalambrini Costa, Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco, é colaborador do EcoDebate.

EcoDebate, 16/08/2010

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Um comentário em “A bomba que mudou o mundo, artigo de Heitor Scalambrini Costa

  1. Sou contra qualquer violência ou qualquer arma de destruição em massa, no entanto creio que a energia nuclear pode ser a melhor alternativa para democratização da energia limpa.

    A energia nuclear não gera carbono ou qualquer outro gás de efeito estufa, é uma alternativa viavel de se produzir energia de boa qualidade, não está sugeita a qualquer alteração do clima.

Comentários encerrados.

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