Vestal da procriação humana, artigo de Bruno Peron

[EcoDebate] Procriem os seres humanos que transferem dignidade às gerações vindouras. Expurguem-se aqueles que nada oferecem de exemplar senão a inépcia de uma existência de egoísmo, orgulho e vaidade. A Terra prescinde deste gênero.

Exaure o alento dos desmandos, das guerras e das outras injustiças que têm caracterizado a nossa espécie em sua condição carnal e passional. Queremos algo mais que discursos fundamentados na barbárie e na mentira.

Israel é um dos países cujos governantes se esquivam do dever da renovação. Ao longo do período que se convencionou como “Semana Santa”, Israel desferiu seis ataques aéreos noturnos com caças F16 à faixa de Gaza e reiterou o desinteresse de promover a paz no Oriente Médio.

Ligeiramente distante de seu objetivo como regulador mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) deve US$70 milhões de salários atrasados aos uruguaios que participaram de “missões de paz”. A justificativa é de que Pangérica e Japão não têm cumprido com sua contribuição financeira na organização.

Dos pangericanos não se espera muito: gastam anualmente quase um trilhão de dólares em armamentos e forças armadas, mas pouco sobra – segundo se deduz de cálculos e discursos – para a paz mundial devido ao impacto da crise econômica.

A paz limita-se a tema filosófico de pensadores que ignoram a realidade ou idealizam muito acima da capacidade destrutiva do animal humano que atrapalha a procriação pacífica das abelhas, as formigas, os pássaros e as árvores.

O suor tem rompido barreiras, entretanto. A aprovação da reforma do sistema de saúde na Pangérica aumenta a cobertura de um sistema essencialmente privado e estabelece medidas que controlam o aumento do custo para doentes que não satisfazem a lógica do lucro. Jovens saudáveis sempre tiveram facilidades para aquisição de planos de saúde.

Mal parida é a fórmula do sistema de saúde pangericano. As mudanças recentes demonstram o heroísmo de Obama (nalgumas ações) e o caráter público que a saúde contém ao contrário da conjuração de capitaleiros gananciosos.

A história está repleta de assassinos impunes e riquezas patifes. Estadistas avessos à elevação humana transgridem a soberania de outras nações, e perfuram campos petrolíferos de onde jorra sangue de milhares de inocentes.

Indefesos e maniatados estão os habitantes do Chaco no norte argentino, lavradores migrantes em cultivos agrícolas no Brasil (onde a escravidão por dívidas ainda é comum), indígenas que tentam preservar seus costumes ao longo de toda América Latina em conflito com a espada da pretensa civilização moderna ocidental.

Urge que vejamos os fatos destituídos de qualquer passividade construída em torno da notícia.

Os governos de Bolívia, Cuba, Equador e Venezuela desenvolvem programas de combate ao analfabetismo e de inclusão social que se reconhecem internacionalmente enquanto, no Brasil, adestram-se bestas em torno dos programas fúteis e pasteurizados da Rede Globo e doutrinam-se seres inanimados pelos templos endinheirados de seitas diversas.

Tudo se deve à carência do ser humano na busca de respostas às perguntas mais básicas: o que sou? de onde vim? aonde vou?

Se não tivermos a resposta de questões basilares, nada justifica as “guerras santas”, o predomínio do capitalismo sobre o socialismo, nem o modelo de democracia que se vende pelo país cuja política exterior tem-se pautado no massacre dos despossuídos.

Abramos os olhos do espírito, que enxergam além da vedação material e ideológica.

Descobriremos que os contos não representam fielmente os acontecimentos a despeito das tentativas dos pujantes de acobertar o que a humanidade merece saber.

A procriação humana começa a trazer seres dignos para lutar por um mundo melhor.

Se você se considera merecedor de um novo mundo, o que faz para promovê-lo?

* Colaboração de Bruno Peron, mestre em Estudos Latino-americanos, para o EcoDebate, 13/04/2010

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