Sobre exportação de água virtual, artigo de Osvaldo Ferreira Valente

exportação de água virtual
Fonte: Água virtual, escassez e gestão: o Brasil como grande “exportador” de água

[EcoDebate] Há tempos venho lendo coisas a respeito do conceito de água virtual, criação do dr. John Anthony Allan. No dia 16/03/2010, o EcoDebate republicou entrevista que o dr. Allan concedeu ao IHU On- Line . Voltei, então, como hidrologista, a pensar no assunto e rememorar dúvidas que sempre tive e resolvi expor parte delas aqui, na esperança de que alguém possa me ajudar a entender o tal conceito.

A água não é uma mercadoria que, depois de consumida, vira lixo ou sucata. Ela está sempre caminhando por alguma trilha do ciclo hidrológico, numa brincadeira de esconde-esconde, ora em forma líquida, ora em forma de vapor. A água, portanto, só é consumida por um vegetal em pequeníssimas quantidades, pois a maior parte do volume retirado do solo pelas raízes é devolvido à atmosfera pela transpiração. Para registrar os volumes retirados dos reservatórios do solo, ou de um curso d’água, quando usada a irrigação, existe o termo “uso consuntivo”. Por que não se usa o termo consumo? Porque os volumes retirados são praticamente reintegrados ao ciclo hidrológico e continuam sendo água, mesmo que em forma de vapor. O “uso consuntivo” só indica que a água retirada de um curso d’água, por exemplo, não será devolvida diretamente a ele, mas transformada em vapor.

Mas vamos pegar um exemplo relacionado com a teoria do dr. Allan, ou seja, de que a exportação de cada quilo de soja produzida na região de Sorriso, em Mato Grosso, estaria exportando, também, os 900 litros de água que ela retirou do solo durante o processo produtivo. A verdade é que praticamente todo esse volume foi devolvido à atmosfera, incorporando-se à umidade amazônica e talvez provocando chuvas locais, num pequeno ciclo hidrológico regional. Pode, também, ter sido transportado por correntes de ar, no sistema de convergência do Atlântico Sul, e provocado chuvas na região Sudeste.

O que as plantas fazem, portando, é colaborarem com o sistema hidrológico global, colocando umidade no reservatório atmosférico, propiciando, assim, o seu transporte e distribuição para outras regiões. Talvez até ser levada para outros países, mas em forma de umidade e chuva e não na forma de grãos. Por isso, como hidrologista, eu não entendo o conceito de “exportação” do dr. Allan. Se toda a água ficasse restrita a uma localização, não se movimentasse através do ciclo hidrológico, seria muito pior, pois não haveria sua distribuição e locais secos seriam condenados a ser cada vez mais secos e os úmidos cada vez mais úmidos. A atmosfera é, ao mesmo tempo, um grande reservatório de umidade e o seu grande meio de transporte. Felizmente.

Fica aí a minha dúvida, talvez a minha ignorância, e fico na esperança de ver alguém encaixar a teoria no conceito de ciclo hidrológico, que é quem comanda os passos da água naTerra.

Osvaldo Ferreira Valente é professor titular aposentado da Universidade Federal de Viçosa e especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas; valente.osvaldo{at}gmail.com

EcoDebate, 19/03/2010

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5 comentários em “Sobre exportação de água virtual, artigo de Osvaldo Ferreira Valente

  1. Muito bom o texto do Prof. Osvaldo. Também tenho dúvidas sobre a água virtual, expressão até então desconhecida para mim.

  2. Prezado Prof. Osvaldo, do ponto de vista de energético a água é energia incorporada no vegetal e,correntemente, os custos dessa energia não são computados na produção sem irrigação, assim como outros fatores ambientais favoráveis como ventos e insolação. No caso da soja o custo real (ambiental0 é de 2054.62 US$/ha/ano e o valor de mercado é de 4860.90 US$/ha/ano, ou seja, a água exportada é muito bem paga, o que não acontece, por exemplo, com o melão, cujo valor de mercado é a metade do valor real (ambiental).

Comentários encerrados.

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