Descongelamento do Oceano Ártico lança 7,7 milhões de toneladas de metano por ano na atmosfera

Cobertura de gelo do Oceano Ártico em descongelamento. Foto de Patrick Kelley, U.S. Coast Guard/USGS
Cobertura de gelo do Oceano Ártico em descongelamento. Foto de Patrick Kelley, U.S. Coast Guard/USGS

Uma grande reserva de metano, gás-estufa 30 vezes mais potente do que o dióxido de carbono, está se abrindo. Pesquisadores da Universidade do Alasca descobriram diversas perfurações na camada de gelo que era tida como impermeável. A liberação do gás para a atmosfera, se não for interrompida, pode provocar mudanças climáticas ainda mais drásticas do que as já estudadas.

– A quantidade de metano que vaza naquela região é comparável àquela liberada por todos os outros oceanos do planeta – alerta Natalia Shakhova, coordenadora da pesquisa e autora de um artigo publicado hoje na revista “Science”. Reportagem do jornal O Globo.

O Ártico, segundo Natalia, liberaria cerca de sete teragramas anuais para a atmosfera. Cada teragrama equivale a 1,1 milhão de toneladas.

– Se o permafrost (a camada de gelo permanente) continuar mostrando sinais de desestabilização, esta quantidade crescerá significativamente – adverte.

A concentração atmosférica de metano varia de acordo com a temperatura global – os índices costumam ser maiores em períodos quentes. No Ártico, este índice, hoje, é o maior em 400 mil anos.

Pesquisas relacionadas ao gás na década passada mostraram que, quanto maior a latitude, menor era a emissão de metano. Os estudos, porém, eram restritos à superfície terrestre. Em 2003, a equipe de Natalia colheu amostras no Oceano Ártico. Descobriu-se que mais de 80% das águas profundas e metade das águas de superfície tinham níveis de metano oito vezes maior do que a água normal de superfície. A constatação, combinada a dados de expedições anteriores, mostrou que o metano estava não apenas dissolvido na água, como também borbulhando para a atmosfera.

Parte da área estudada preocupa a equipe por ser muito rasa, com menos de 50 metros de profundidade. Em águas profundas, o metano se oxida e se transforma em gás carbônico antes de atingir a superfície. Mas não há tempo para estas reações químicas em áreas superficiais. Os gases-estufa liberados ali são ainda mais danosos.

– O lançamento de apenas 1% do metano que se acredita estar armazenado no Ártico pode aumentar a carga atmosférica do gás em até quatro vezes – explica Natalia. – É difícil prever quais seriam as consequências climáticas.

A concentração atmosférica de metano teria mais do que dobrado desde a Revolução Industrial. Cerca de 60% são provenientes da atividade humana, enquanto o resto tem causas naturais, como, por exemplo, a decomposição de material orgânico.

Geleira encolheu 3km em 200 anos

Vilões do aquecimento global, os gases-estufa já deixam marcas visíveis nas regiões mais frias do planeta. Uma delas é o derretimento constante da geleira Exit, no Alasca. A geleira encolheu três quilômetros nos últimos 200 anos.

Funcionários do Parque Nacional de Fiordes de Kenai costumam mudar sinais e trilhas para dar espaço aos rios efêmeros formados ao redor da geleira.

– Agora, no entanto, as mudanças têm sido tão rápidas que montamos nossas placas sobre pedestais móveis – conta Klasner Fritz, especialista em recursos naturais do parque.

EcoDebate, 07/03/2010

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