Faltou alguém na I Confecom, artigo de Nilo Gomes

Confecom

[EcoDebate] Alguém esteve ausente na I Conferência Nacional de Comunicação. Ou, então, passou despercebido, ou se atrasou ou, quem sabe, perdeu o voo. A Confecom levou a Brasília centenas de delegados de todo país, muitos observadores e ausências que, por isso mesmo, pela não-presença se fizerem presentes. A Confecom foi um acontecimento, marcou ponto na agenda nacional brasileira e tornou-se uma memória histórica. Aos seus documentos e atas de resolução pesquisadores no futuro vão buscar, quem sabe, informações para seus objetos de estudo que digam respeito a este presente.

A I Confecom deixou transparente, através dos depoimentos e das vozes de suas delegações, a consciência e o que pensam amplas parcelas da população brasileira a respeito da Comunicação, no Brasil, da mídia e suas variadas e diversas formas de apresentação junto ao público consumidor. Do jornalismo ao entretenimento. Nas grades de programação das emissoras de rádio e televisão, bem como dos portais na internet, o jornalismo cumpre papel destacado, referencial, o “príncipe eletrônico”, como cunhou em um de seus últimos textos o saudoso professor Octavio Ianni, em referência à mídia em geral, isto é, a mídia hegemônica, arrecadadora das maiores audiências e receitas financeiras. Ou seja, poder.

A Confecom, como é natural e comum a esses tipos de eventos nacionais e internacionais, foi uma reunião de tribos. Difícil alguém que não tenha encontrado um ambiente que lhe fosse mais hospedeiro e, em algum plano, comum de idéias. Galeras as mais diversificadas, do rap ao rock, da rádio comunitária ao partido político, do “cara” ao ministro vaiado, da sede às refeições servidas em um espaçoso restaurante, onde não faltaram hábitos comuns à militância social, como o de limpar a mesa em que acabou de comer e levar o prato e talheres à cozinha, embora houvesse empresa contratada para tal fim. “É o hábito”, como dizia a piada do monge…

No campo político-partidário, visíveis as galeras militantes do PCdoB, PSol, PSTU, em sucessivas reuniões, ou as militâncias dos novos grupos de representação social e política, como os coletivos do Intervozes, FNDC, Abraço, e até mesmo sindicalistas da CUT, a antiga e primeira representação sindical que se propôs ampla e unitária, mas hoje já não mais o é, tantas são as centrais sindicais que se organizam não pelo movimento, mas pelos respectivos partidos políticos. Pois até mesmo velhos e novos cutistas se reuniram por algumas vezes para discutir, debater. E até a militância do Movimento LutaFenaj, dos jornalistas brasileiros, se fez presente. Tentou duas, mas conseguiu realizar, e bem, uma reunião durante a Confecom.

Mas faltou alguém. Um sujeito histórico que deveria estar presente, organizando sua militância, esteve ausente, ou perdeu o voo, quem sabe… Criado a partir de 1979, espalhando-se como rastilho de pólvora por todo o país, das fábricas aos bairros populares, o PT não se fez presente, de forma institucional, assumida, organizada e organizadora. Sim, havia muitos petistas, de militantes de carteirinha a simpatizantes, eleitores, sim, havia. Todos e todas essas representações sociais e políticas estavam lá, nos amplos espaços do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Mas o PT, enquanto Partido político e de direção de lutas, este não esteve presente. Faltou ao encontro, ao compromisso. Será por quê?

Sou um modesto militante partidário, fundador deste Partido desde os primeiros segundos de gestação e vida, ajudei com o sêmen de meu trabalho e meus estudos a fundar o que hoje é o Partido do presidente da República, e de tudo que vi, que li, que falei, que passei adiante, que discuti, que questionei, de todo o trajeto realizado até aqui há uma noção, uma compreensão, da qual não abro mão até hoje, pois ela é a razão mesma, primeva, da existência de um Partido político que reúna as massas humanas oprimidas e exploradas, as que vivem do seu próprio trabalho, e as reúna a partir mesmo dos próprios pontos de vista que interessem a estas massas de seres humanos: o papel de ser uma Escola Política, ao mesmo tempo em que atuante como sujeito histórico representativo desse universo de gentes trabalhadoras.

Enquanto escola política, a presença institucional do PT, orgânica e organizadora, na Confecom seria uma lição, escola, para o Partido, ao mesmo tempo em que espaço de ação e atuação a partir de suas propostas. O PT, não estando institucional e organicamente presente na Confecom, perdeu um momento importante de nossa história de luta. No Rio de Janeiro, conseguimos, com algum esforço, envolver a direção do Partido. E isto foi positivo. Mas, em âmbito nacional, nos sufragamos na esteira de movimentos aparentemente não-partidários, mas que agem e se organizam enquanto tais. E o PT, esperando o quê?

O fato de ser um Partido de massas, do grande povo brasileiro, não deve isentá-lo de ser orgânico e, assim sendo, democratizando a vida partidária, fazendo deste cotidiano partidário um dia-a-dia de ensino, aprendizagem, formação de novas lideranças políticas, sobretudo, formação de consciências que se pretendam brasileiras, ativas e atuantes, sabedoras dos papéis históricos que cada qual, em nossa simplicidade do dia-a-dia da vida, pode desempenhar em benefício da ampla maioria que trabalha e cada vez mais se conscientiza da necessidade de lutar por seus direitos. Inclusive, na Comunicação. O PT deve debater o porquê desta sua ausência. A história é quem cobra. A sociedade, talvez, ainda nem tenha percebido. Mas o velho militante sentiu a falta do seu Partido.

Saudações de luta, Nilo.

Nilo Sergio S. Gomes, Jornalista e Pesquisador, é colaborador e articulista do Ecodebate.

EcoDebate, 01/02/2010

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