Pobreza é o principal fator que influencia o desempenho escolar

Pesquisa do campus Guarulhos da Unifesp aponta que a pobreza é determinante para o desempenho escolar, mas há municípios que estão conseguindo superar o problema

Os resultados preliminares de um estudo do Campus Guarulhos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desenvolvido em parceria com o Centro de Estudos da Cultura Contemporânea (CEDEC) e financiado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) do Ministério da Educação, mostraram que a pobreza é o principal fator que afeta o desempenho escolar dos alunos do ensino fundamental.

Os resultados apontam que quanto maior a porcentagem de indivíduos pobres em um município, pior é o desempenho escolar. O desempenho escolar foi avaliado por meio do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e INEP. Além do desempenho em provas de Português e Matemática, o índice inclui outros fatores importantes para o sucesso escolar, como evasão, repetência e adequação idade-série.

O estudo analisou o impacto da pobreza no desempenho dos alunos matriculados nas escolas municipais e estaduais localizadas em todos os municípios brasileiros. Verificou-se que a pobreza afetou de forma mais intensa o desempenho dos alunos das escolas municipais do que das escolas estaduais. Ao final do primeiro ciclo do ensino fundamental das escolas municipais, verificou-se que a pobreza determinou em até 58% o desempenho escolar. No caso das escolas estaduais, a pobreza determinou em até 44% do desempenho.

A diferença de nos resultados deve-se ao fato de que a expansão do ensino fundamental deu-se principalmente por meio de escolas municipais. “Com a expansão no número de alunos no ensino fundamental, as escolas municipais passaram a ter uma proporção maior de alunos oriundos de famílias pobres do que as escolas estaduais”, explica Christina Andrews, professora do Campus Guarulhos da Unifesp, responsável pela pesquisa.

Contexto cultural

O impacto da pobreza no desempenho escolar se explica pelo contexto cultural dos alunos de famílias de baixa renda. “Uma criança que não tem acesso a jornais e livros em sua casa, que tem poucas oportunidades de usufruir de atividades culturais e cujos pais não concluíram o ensino fundamental terá necessariamente um desempenho escolar inferior ao de outras crianças que vivem em um contexto social mais favorável”, observa a pesquisadora.

A pesquisa indica que, no Brasil, o impacto da pobreza no desempenho escolar é grande o suficiente para inibir o efeito positivo de outros fatores, entre eles, a formação universitária dos professores das séries iniciais do ensino fundamental. Usando uma técnica estatística que neutraliza o efeito da pobreza no desempenho escolar, o estudo mostrou que o número de professores do ensino fundamental com diploma universitário tem um impacto muito pequeno no desempenho dos alunos que concluíram a 4ª série. Prova disso, é que nos municípios de até 50 mil habitantes, o impacto não chega a 1%, já nos municípios maiores, com mais de 50 mil habitantes, o impacto é um pouco maior, mas ainda assim, não passa de 1,2%.

Formação dos professores

O Plano Nacional de Formação de Professores anunciado pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) pretende formar com grau universitário 300 mil professores que atuam na educação básica (ensino fundamental e ensino médio). Para tanto, está realizando investimentos de cerca de R$ 1 bilhão ao ano.

A pesquisadora recomenda que essa política tenha continuidade, mas sugere que não seja a única estratégia voltada para a melhoria do desempenho escolar. Além disso, é importante que sejam criadas medidas que tenham um impacto positivo no contexto cultural das crianças. Um exemplo, seria permitir que os alunos de famílias pobres ficassem com seus livros didáticos, em vez devolvê-los à escola ao final de cada período letivo, como acontece atualmente. “É importante que os alunos do ensino fundamental tenham livros em suas casas para consultar sempre que tiverem alguma dúvida, em especial se forem de famílias pobres”, afirma a pesquisadora.

Municípios pobres, mas com bom desempenho escolar

A pesquisa também identificou os municípios que, apesar de terem uma grande parcela de sua população vivendo em situação de pobreza, estão conseguindo obter bons resultados no desempenho escolar. Foram identificados 35 municípios que têm um desempenho escolar bem acima do que seria esperado, considerando-se o nível de pobreza existente nos mesmos (ver tabela no anexo).

A maioria desses municípios está na região sudeste, mas alguns estão localizados no nordeste, onde o desempenho escolar é em média mais baixo do que em outras regiões do Brasil. Esses municípios serão estudados em detalhe na segunda etapa da pesquisa, visando identificar os programas e atividades educacionais responsáveis pelo bom desempenho. Com isso, será possível disseminar as melhores práticas para outros municípios afetados pela pobreza, melhorando o desempenho escolar dos alunos mesmo em condições sociais adversas.

TABELA

Desempenho de escolas municipais acima do que seria o esperado, considerando-se o impacto da pobreza

Estado Município IDEB*
SP Itápolis 8,1
SP Adolfo 7,7
SP Santa Fé do Sul 7,6
SP Cosmorama 7,5
SP Santa Rita d’Oeste 7,2
SP Taquarivaí 7,2
SP Dois Córregos 7,1
SP Cajuru 7
SP Turmalina 7
SP Barra do Chapéu 6,9
SP Terra Roxa 6,9
SP Valentim Gentil 6,9
SP Valparaíso 6,9
SP Estrela d’Oeste 6,8
MG São João B.Glória 6,7
SP Guaiçara 6,7
SP Lucianópolis 6,7
SP Américo de Campos 6,6
SP Barrinha 6,6
SP Guaraci 6,6
SC Iporã do Oeste 6,5
SP Ouro Verde 6,4
MG Lajinha 6,3
ES Vila Pavão 6
GO São Luiz do Norte 6
SC Ipuaçu 5,9
MG Jequeri 5,7
MG Silveirânia 5,6
PR Ramilândia 5,4
CE Altaneira 5,2
MA São Roberto 5,1
MA Cachoeira Grande 4,9
MA Rosário 4,9
BA Boa Vista do Tupim 4,8
MA São João do Carú 4,8

*Obs.: Em 2007, a média do IDEB no Brasil ao final da 4ª série foi de 3,9. A meta do MEC é que a média nacional chegue a 6,0 em 2021.

Informe da Unifesp publicado pelo EcoDebate, 19/12/2009

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