Achado não é roubado no Rio Jacu, Baixo Parnaíba Maranhense, artigo de Mayron Régis

[EcoDebate] Ao adaptar grandes obras literárias para a sua linguagem, a televisão alenta a “imprescindível” função cultural que exerce para a e no seio da sociedade como um todo. As adaptações permitem que boa parte da população acesse bens culturais até então inacessíveis. Essa “permissão” de acesso não implica na desobstrução dos obstáculos históricos, sociais e econômicos que se interpunham entre esses bens e a maior parte da população. No máximo, implica num adormecimento das faculdades mentais que, justamente, incumbem-se da reinterpretação da realidade.

As adaptações literárias refletem contradições no que pretende a indústria cultural para a sociedade a partir dos desígnios do capitalismo. Ela embaralha os papéis que os atores sociais desempenhariam normalmente na sociedade e ao embaralhar de novo a papelada ela desmobiliza esses atores com novos “achados” arqueológicos, sociológicos, antropológicos, psicológicos e etc.

Encontra-se uma sentença de morte em qualquer um desses “achados” submetidos à anuência da indústria cultural porque achar algo ou alguém dá a entender que estava perdido – achado não é roubado, alguns diriam – e o que estava completamente alheio surge para ser sugado até o talo.

Muitos já disseram que se decreta a sentença de morte de uma obra literária quando um roteirista a transpõe para a televisão. Pelas várias transposições que renderam obras televisivas chochas, tende-se a crer que sim. Contudo, transpor de uma linguagem para outra deixa buracos e quanto mais buracos pior para a recepção do conteúdo. Numa sociedade cada vez mais urbana como a brasileira e cada vez mais guiada pela televisão, a adaptação literária chutaria a percepção da nomenclatura urbana para um protótipo de vida rural ou vida semi-urbana. Os “achados” da indústria cultural e do sistema capitalista proliferam como proliferam as monoculturas de norte a sul do Brasil.

Derrubar uma mata para plantar milhares de hectares de eucalipto ou de soja requer esperança na semente, no maquinário, na força dos braços, no banco, no governo e no tempo. Transpor uma espécie exótica para um bioma como o Cerrado, como a Caatinga, como a Floresta Amazônica requer no máximo estudos de adaptação da espécie ao solo e ao clima. As monoculturas se tornaram os grandes “achados” da humanidade para o combate à fome, ao desemprego e à adaptação às mudanças climáticas.

As empresas de monoculturas acharam as florestas tropicais dos países em desenvolvimento como fonte barata de madeira, de recursos hídricos, de terra e de recursos humanos e “se acham” na responsabilidade para liderar projetos de combate e adaptação às mudanças climáticas. As “adaptações literárias” que as empresas reflorestadoras e de alimentos fazem dos seus projetos para a sociedade deixa imensas lacunas e degringola a verdadeira literatura sobre os impactos da transposição de espécies exóticas para áreas de floresta tropical e para áreas de cultivo de comunidades tradicionais.

Os governos do Piaui e do Maranhão devem achar que as suas maneiras de administrar os processos de licenciamento da Suzano nas bacias do rio Parnaiba, do rio Munim, do rio Preguiças e do rio Tocantins se esmeram pela irretocável defesa do meio ambiente e pelo indispensável incentivo ao desenvolvimento econômico dos estados. Convém aos dois governos acharem isso, mas convém mais ainda a Suzano que os licenciamentos dos plantios sejam estaduais e não um licenciamento federal, mesmo que duas dessas bacias sejam federais e nas outras duas haja unidades de conservação federais.

Desde 2006 o governo do Maranhão assumiu a responsabilidade pela concessão de licenças para desmatamento, enquanto que para o Ibama ficou a categoria de consultor quando os desmatamentos forem maiores que mil hectares. A Suzano trinchou uma área de três mil hectares, no município de Anapurus, Baixo Parnaiba maranhense, em vários processos de menos de mil hectares para que o licenciamento tramitasse na Secretaria de Meio Ambiente do Maranhão e não fosse preciso estudo de impacto ambiental. Esse plantio, diferente do que a empresa irradia aos quatro ventos sobre seus plantios para celulose, vai para cerâmicas próximas.

Para algumas áreas que são menores, como a de Anapurus, a Suzano destaca algumas terceirizadas. Elas contratam funcionários que desmatarão a mata nativa e plantarão eucalipto. No povoado de Gonçalo, município de Urbano Santos, a KLN desmata 800 hectares de Cerrado para plantar eucalipto. A madeira derrubada vai ser transportada para padarias e cerâmicas nos municípios próximos e em São Luis. Acaso os Estados Unidos continuassem pagando bem pelo ferro-gusa manufaturado pelas guseiras do Maranhão, como a Margusa, os ganhos recheariam as carteiras de todo mundo, mas com a baixa na economia americana a equação matemática não fecha. O preço ofertado pelos americanos ao ferro-gusa deve dar nos nervos dos empresários maranhenses que com isso fecharam seus alto-fornos e pouco investiram em plantios de eucalipto.

Toda a cadeia de plantio de eucalipto rendia um bom trocado. Como bem observou Wilson, morador de Urbano Santos: “Os gaúchos queriam plantar soja aqui, mas viram uma outra possibilidade com os plantios de eucalipto.” As frutas como bacuri e pequi pendiam no galho das árvores, mas isso em nada conteve a venda das posses dos moradores na chapada do Jacú. Um morador ou uma associação pode pedir ao Iterma a regularização de suas posses ou pode pedir á Secretaria de Meio Ambiente uma licença ambiental que o órgão demora a responder. Em sentido contrário, o órgão responde rapidamente a pedidos de plantadores de soja ou de empresas de reflorestamento com eucalipto. Aconteceu mais ou menos assim na Chapada do Jacu em que empresários ofereceram 50 reais por hectare, e após o sacramentar da venda, regularizaram no Iterma e obtiveram as licenças junto à Sema. Ao todo a chapada do Jacu rivaliza com mais de 7500 hectares. Por hora, parou-se o reflorestamento na área da Margusa em 400 hectares.

As informações sobre os plantios nas áreas da Suzano e em áreas de outras empresas, centradas nos municípios do Baixo Parnaíba, bastariam para reprovar quaisquer projetos megalomaníacos de transformar o Maranhão e o Piaui em meros fornecedores de madeira. Os 160 mil hectares de reflorestamento com eucalipto no Piaui representam apenas 6% da região de Teresina, mas que áreas são essas?

* Colaboração de Mayron Régis, jornalista Fórum Carajás, para o EcoDebate, 31/10/2009

* Esse texto faz parte do programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba, apoiado pela ICCO e realizado de forma conjunta com a SMDH, CCN e Fórum em Defesa do Baixo Parnaíba

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