As vidas devastadas que os ricos não veem. Artigo de Ulrich Beck

Imagem do filme Garapa
Imagem do filme Garapa, de José Padilha

"A injustiça social grita por vingança. Na crise da economia mundial, os ricos pagam – no pior dos casos – em valores acionários, enquanto os mais vulneráveis, que justamente não têm nada a ver com a crise, "pagam-na" com a moeda líquida da sua chamada existência. Não são mais 'pobres' – o conceito é muito frágil. Falar de 'classe' seria um cínico eufemismo."

A opinião é de Ulrich Beck, em artigo para o jornal La Repubblica, 08-09-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

San Francisco, primeiros dias de agosto de 2009. Perambulando pelos arredores do hotel Hilton, sede do congresso norte-americano de sociologia deste ano, onde darei uma conferência. Os sociólogos, semelhantes nisto aos cirurgiões que operam de urgência, são pessoas muito insensíveis. Os tempos de crise são, para eles, alta temporada. Não é assim para os sem-teto e os mendigos que colocam à mostra a sua pobreza, ou para as pessoas de cor que defendem o seu território nos guetos e nas favelas.

Há um trapo de homem na margem da rua. Um policial controla rapidamente que dê sinais de vida e vai embora. São tantos os que se arrastam cansativamente, buscando evitar em seu corpo as luxações sempre em aguardo. Ao meio-dia, sentamo-nos em um restaurante vietnamita, cozinha excelente, lugar ao lado da janela. De repente, como surgida do nada, aparece uma figura grande e magra, vestida com trapos esvoaçantes, como um grande pássaro que cobre toda a janela, aproveitando o horror provocado por ele (ou por ela, não está claro). Com um gesto repetido já tantas vezes, o garçom a caça como um cão inoportuno, que se conhece e se bate.

Lá, alguém cambaleia através da rua movimentada, em meio às buzinas e ao ruído dos freios do rio de carros. Não consigo tirar de meus olhos frios os corpos, em parte cheios como bolas, em parte magros como um prego, que vêm ao meu encontro (um em cada dez passantes, grosso modo). Aqui, a desumanidade da sociedade impiedosamente capitalista que remete à humanidade da liberdade e da democracia tem os seus rostos.

Injustiça social que grita por vingança. Também na crise da economia mundial, os ricos pagam – no pior dos casos – em valores acionários, enquanto os mais vulneráveis, que justamente não têm nada a ver com a crise, “pagam-na” com a moeda líquida da sua chamada existência. Não são mais “pobres” – o conceito é muito frágil. Falar de “classe” seria um cínico eufemismo. Zygmunt Bauman as chamou de “wasted lifes”, em uma analogia que tem dificuldade para tolerar as montanhas de rejeitos produzidos permanentemente pelo “capitalismo sempre mais veloz e sempre mais belo”. Bauman fala das subcidades invisíveis, nas quais esses “wasted humans” vegetam. Já não é um progresso que eles estejam onipresentes nas principais ruas de San Francisco?

Certamente, a coexistência reconciliada entre a pobreza mais desoladora e a riqueza não é nada nova. Mas, na política interna mundial, é uma injustiça que grita por vingança hoje, quando a igualdade social se tornou uma expectativa difundida em todo o mundo, e as crescentes desigualdades não podem ser justificadas como queridas por Deus, nem ser escondidas atrás dos muros dos Estados nacionais. Mas também é um problema moral para mim, para a minha geração, para o sociólogo alemão. Jogamos na cara de nossos pais: “Como puderam!”. E hoje? Milhares de cidadãos do mundo norrem nas fronteiras marítimas da União Europeia, milhões de crianças morrem de fome por ano. Mas nós viramos a cabeça para o outro lado. Tudo isso é, ao mesmo tempo, banal, desarmante e profundamente vergonhoso.

E o sociólogo que há em mim diz que isso não acabou, e que as regiões e os países esquecidos devem temer uma indiferença e uma desertificação ainda maiores. Como é sabido, tudo isso não abala ninguém. Demonstra apenas a relatividade da indignação humana. Mas justamente isso se tornou errado.

Na política interna mundial, falta a legitimação que até agora tornou possível essa relatividade da indignação. Os pobres se tornam pobres não apenas por causa da sua pobreza, mas também por obra dos fluxos de informações que tornam a sua situação comparável. Eles se tornam os “nossos” pobres, e pobres porque conhecem a nossa riqueza. Quanto mais as normas da igualdade se difundem no mundo, quanto mais energicamente e com sucesso o Ocidente promove os direitos humanos, tanto mais a desigualdade global perde a base de legitimação da indiferença institucionalista. Porém, isso ocorre na forma de uma assimetria unilateral: os pobres não aceitam mais a não comparabilidade construída pelas fronteiras nacionais. Eles se comparam – e querem entrar!

Os países ricos se defendem mantendo-se firmes à ilusão da não comparabilidade nacional-estatal. Eles concentram o seu olhar, a sua compaixão e o seu desprezo na pobreza “interna”, “própria”, nacional. Assim também a ilusão da não comparabilidade contribui para que, nos países ricos, sempre mais pessoas se sintam pobres ou ameaçadas pela pobreza.

Política interna mundial significa que a pobreza dos pobres se torna um escândalo político não apenas por causa da crescente pobreza, mas também por causa da generalização da igualdade. Agora, todos podem ver que a sua pobreza é a condição da nossa riqueza, que a desumanidade da sua situação pressupõe e, ao mesmo tempo, coloca em discussão as nossas pretensiosas pretensões de humanidade. Porém, esse “poder ver” vale mais para os pobres. E consegue apenas inquietar a má consciência dos ricos, e isso também só raramente.

De noite, no meu quarto de hotel no 35º andar, com uma vista encantadora que vai do mar de casas de San Francisco até a Golden Gate Bridge, vejo nos noticiários da televisão uma pesquisa sobre uma organização humanitária ativa no campo da medicina, cuja mensagem constitui um contraste radical com a histeria publicamente fomentada pelos protestos contra a política de reforma da saúde do presidente norte-americano Obama. Uma senhora negra é entrevistada, depois de esperar durante uma noite inteira junto ao filho de 12 anos para obter, na manhã seguinte, bem cedo, um bilhete para uma intervenção gratuita. A mulher tem problemas nos dentes e não se lembra nem da última vez que visitou um médico. Para ela, de fato, “a escolha é simples: ou pago o aluguel, ou pago o plano de saúde”.

Centenas de pessoas esperam aqui, confiando-se à boa sorte, pela grande oportunidade de finalmente submeter – e gratuitamente – o seu corpo aos urgentíssimos trabalhos de reparação médica. Não são os mais pobres entre os pobres. Pertencem majoritariamente à classe média-baixa. São ainda muito “ricos” para se beneficiar do programa de ajuda, mas já muito pobres para poder se permitir um seguro contra as doenças. Entre eles, há também desempregados, que, com o trabalho, perderam também a proteção do plano de saúde.

E, neste país, no qual 50 milhões de pessoas não estão asseguradas contra as doenças, o presidente Obama, que quer eliminar essa indecência, é demonizado como o “novo Hitler”. Não consigo me convencer disso. A política interna mundial certamente tem uma consequência: estamos mais próximos – e isso aumenta a incompreensão recíproca.

(Ecodebate, 11/09/2009) publicado pelo IHU On-line, 09/09/2009 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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