As fantásticas fábricas de celulose, artigo de Mayron Régis

[EcoDebate] O padre Antônio Vieira, um dos mestres da língua portuguesa, em suas longas pregações na igreja da Sé, cidade de São Luis, ensinava, nos idos do século XVII, que no Maranhão as pessoas mentiam com uma facilidade estonteante. As mentiras possuem penas curtas, mas, infelizmente, captar de antemão as suas peculiaridades pouca gente consegue.

Os maranhenses gracejam bastante quando captam no vocal do outro alguma inverdade, alguma insegurança e alguma incerteza. Nesse estado, reinam a mentira, o puxa-saquismo e os bonecos de ventríloquo, mas, de outra parte, a sociedade civil maranhense, em quaisquer das regiões, revida com a cobrança das promessas históricas e a desconfiança das políticas públicas despejadas a toque de caixa.

A cobrança e a desconfiança acabaram se tornando riquezas culturais do estado do Maranhão e riquezas que nenhum índice consegue medir em sua profundidade. Os índices medem a variação da inflação, do crescimento do consumo e do desenvolvimento humano. A variação da inflação compõe a pauta de qualquer noticiário que se pretenda moderno, assim como a previsão do tempo, contudo ela flagra pouco as inerências das pessoas e de suas comunidades ao longo da história. As inerências vão retroagindo a um ponto de vista primário porque se obedecem todo um discurso e todo um cronograma que se pretendem abarcadores da realidade e promotores de novas formas de conhecimento.

Como abarcar uma realidade com apenas um argumento, um diagnóstico ou com apenas o espalhafato de um jornal? Os pesquisadores da STCP, empresa de consultoria contratada pela Suzano Papel e Celulose, sentem a pulsação da sociedade civil das regiões dos Cocais, Tocantina e do sul do Maranhão no que diz respeito a um projeto de reflorestamento com eucalipto.

O município de Imperatriz, oeste maranhense, ocultou uma dessas consultas entre os pesquisadores e a sociedade civil. Enviaram um convite ao STTR, mas sobre o caráter da reunião quem lia se desavisava e desavisava os outros. Para ela afluíram o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco de Babaçu, o Centru, o STTR de Imperatriz, a UEMA, Prefeitura de Imperatriz e o Fórum Carajás, que soubera com poucos dias de antecedência.

A primeira impressão é que as regiões Tocantina e sul do Maranhão foram contempladas com um projeto magnífico que beneficiará toda a população. As organizações da sociedade civil rogaram objeções dos mais variados naipes que disparatavam os pesquisadores que qualificavam o seu trabalho como mera consultoria para a Suzano. Quem se dê o trabalho de pesquisar vai ver que não é bem assim, a Suzano é STCP e STCP é Suzano.

Nas audiências do Piauí e do Maranhão, os pesquisadores da STCP isentam os seus trabalhos de qualquer influência passada, presente ou futura da parte da Suzano como se ela fosse uma patroa que aprove algo diferente do que está no seu cronograma e no cronograma dos seus investidores. O tramar dos projetos de reflorestamento com eucalipto no Maranhão e no Piaui, entre os anos de 2005 e 2009, prova que isenção só mesmo as isenções fiscais concedidas pelos dois governos.

Quem primeiro chega é a STCP que testa as condições dos terrenos e das mentes para depois vir a Suzano com as bênçãos das classes política e empresarial, só que a agenda política bolina a agenda empresarial ridicularizando tanto uma como outra. A manchete do jornal “O Estado do Maranhão” de 27 de agosto de 2009 proclama “A maior fábrica de Celulose do Mundo” e no Piauí os meios de comunicação anunciam a criação de cursos superiores por causa da instalação da Suzano, sem esclarecer que, para tal feito, precisa-se de todo um trâmite no Ministério da Educação.

Mayron Régis, jornalista Fórum Carajás

Esse texto faz parte do programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba, apoiado pela ICCO e realizado de forma conjunta com a SMDH, CCN e Fórum em Defesa do Baixo Parnaíba

EcoDebate, 11/09/2009

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