Sobre barraginhas, terraços e caixas de captação de enxurradas, artigo de Osvaldo Ferreira Valente

Barraginha
Barraginha

[Ecodebate] A necessidade premente de fazer alguma coisa em benefício da conservação de nossos recursos hídricos tem propiciado o surgimento ou ressurgimento de tecnologias salvadoras, que passam a ser indicadas para quaisquer ecossistemas hidrológicos a serem trabalhados. No caso de manutenção da capacidade de produção de quantidade de água de nascentes e de córregos, em períodos de estiagens, temos visto, o que é muito bom, preocupações com a recarga artificial dos aquíferos mantenedores, pois é comum que os sistemas naturais já não estejam mais em condições de cumprirem, sozinhos, o papel que antes exerciam. Mas alguns cuidados precisam ser tomados na escolha das tecnologias, pois elas deverão estar apropriadas às especificidades locais. Vamos discutir um pouco esta apropriação nos parágrafos seguintes.

Em primeiro lugar, é bom ficar bem claro que se existe uma nascente é porque existe, também, um aquífero (ou lençol d’água) associado a ela. E se durante as estiagens a nascente continuar com boas produtividades de água é porque o aquífero está sendo bem abastecido nos períodos de chuvas e está inclinado, mesmo que ligeiramente, em direção à base de emergência da nascente. Esta vai drenando os volumes de água do aquífero, próximos a ela, e estes volumes vão sendo repostos por movimentação da água armazenada um pouco mais longe da nascente. Como a movimentação da água no solo é lenta, os volumes armazenados nas zonas do aquífero mais distantes da nascente levam um bom tempo para chegar ao ponto de emergência e são esses volumes que garantem o suprimento nos períodos de estiagens. Quaisquer que sejam as tecnologias adotadas, elas deverão estar ajustadas aos fundamentos listados.

Como os sistemas naturais já estão muito alterados e as superfícies impermeabilizadas por operações de cultivo, por pastagens pisoteadas, por estradas, por construções etc., precisamos encontrar tecnologias que supram o antigo comportamento natural e possam conviver com as necessidades de uso do solo. São tecnologias capazes de favorecerem a infiltração de água no solo, permitindo um bom armazenamento nos aquíferos. Daí surgirem as alternativas das barraginhas, dos terraços e das caixas de captação de enxurradas. Mas é preciso ter cuidado no uso delas, pois não custa lembrar, sempre, que os ecossistemas hidrológicos são sensíveis e específicos, exigindo tratamentos adequados caso a caso. Outro detalhe importante é que tais estruturas deverão estar bem distribuídas pela pequena bacia que sustenta o aquífero e a nascente, pois como já foi dito, há necessidade de que as zonas mais distantes do aquífero, em relação à nascente, também recebam água, garantindo, pelo movimento lento através das camadas de solo, que parte dos volumes armazenados só cheguem à nascente nas épocas de estiagens.

No caso das barraginhas, por exemplo, fica difícil, em regiões montanhosas, construí-las mais distantes das nascentes. A sua forma aberta ( ver na foto), exige uma área plana maior e que será encontrada, quase sempre, já bem próxima da nascente. O esquema da figura anexada a este artigo mostra um perfil comum de encosta em região montanhosa. Nele pode ser mais bem visualizado o que acabamos de dizer. As enxurradas serão retidas, é claro, mas os volumes serão rapidamente drenados pela nascente e não esperarão os períodos de estiagens. Não podemos, então, concentrar a infiltração perto da nascente. Pelo mesmo motivo a mata ciliar também não serve para garantir vazões de estiagens.

Quanto aos terraços e caixas de captação (ver fotos), eles podem ser distribuídos pelas encostas, abastecendo as zonas mais distantes dos aquíferos. O esquema da figura anexada serve, também, para mostrar isso. Os terraços são colocados em nível ao longo de encostas cultivadas, com espaçamentos adequados às condições de chuvas, solos e declividades e de bases estreitas para não promoverem grandes movimentações de solo. Terraços feitos com tratores de esteiras em pastagens, por exemplo, fazem grandes estragos e criam caminhos para os animais, com o pisoteio provocando impermeabilização e os terraços deixando de provocar maiores infiltrações de água. Se feitos da mesma maneira em áreas de outras culturas, podem expor camadas de subsolo, dificultando o cultivo. Já as caixas de captação podem ser ajustadas às declividades, por tamanhos e formas, e serem construídas ao longo de estradas e em pontos de concentrações de enxurradas ou em áreas torrenciais. Os terraços têm a vantagem de distribuir melhor as infiltrações na pequena bacia, comparados às barraginhas e caixas de captação, que têm ações localizadas e concentradas em poucos pontos e, por isso, simulam menos as condições naturais.

Mas é também importante deixar bem claro que tais tecnologias são como remédios, tanto podem curar o mal como provocarem efeitos colaterais sérios, como deslizamentos de encostas, por exemplo. Daí a necessidade de estarem corretamente indicadas para situações hidrológicas previamente avaliadas. Não existem tecnologias “salvadoras da pátria”, mas tecnologias que precisam ser adequadas e adaptadas às condições e necessidades de cada ecossistema hidrológico.

Terraços
Terraços

Caixa de captação de enxurradas ao longo de estrada
Caixa de captação de enxurradas ao longo de estrada

Perfil comum de encosta em região montanhosa
Perfil comum de encosta em região montanhosa

Osvaldo Ferreira Valente é Engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas e professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa (UFV); colaborador e articulista do EcoDebate. Email ovalente{at}tdnet.com.br

EcoDebate, 02/09/2009

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