Especial: 3a Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente


Luziânia (GO) – Conferência de jovens discute envolvimento da escola na construção de políticas públicas voltadas para a preservação do meio ambiente Foto: Elza Fiúza/ABr

  • Alunos dão exemplos de preservação e cobram das escolas engajamento com o meio ambiente
  • Professora diz que educação ambiental precisa ser transversal e cobra mais capacitação
  • Oficinas estimulam produção de material sobre preservação ambiental nas escolas
  • Observadores internacionais dizem que Brasil funciona como embrião em educação ambiental
  • Marina Silva diz que bancada conservadora em relação ao meio ambiente tem dias contados


Alunos dão exemplos de preservação e cobram das escolas engajamento com o meio ambiente

Amanda Guimarães está entre os cerca de 700 alunos que participam da 3ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil de Meio Ambiente, em Luziânia (GO). A menina de 13 anos cursa a 8ª série em uma escola da rede pública de ensino de Salvador (BA) e dá exemplos do que já é feito em sua sala de aula – tonéis preparados pelos próprios estudantes para coleta seletiva do lixo e projetos para reduzir o desperdício de papel e de água na instituição de ensino.

Ao comentar a iniciativa de reunir crianças e adolescentes com idade entre 11 e 14 anos para discutir o fortalecimento da escola nas políticas de meio ambiente, Amanda avaliou como “super importante” que os mais jovens sejam o foco da conversa. “Somos o futuro e é preciso conscientização.”

Ela lembrou que algumas instituições de ensino do país se mostram “engajadas” quando o assunto é proteger o meio ambiente ,mas que a maioria “apenas fala mas não pratica”. Em Salvador, Amanda faz parte da Comissão de Qualidade de Vida e de Meio Ambiente de sua escola e garantiu que os professores promovem com regularidades palestras e oficinas de educação ambiental.

Durante visita a Brasília pela primeira vez, a menina deixou um recado para crianças e adolescentes de todo o país: “Vamos preservar o meio ambiente porque o futuro depende de nossas ações. A partir do momento em que comecei a conhecer melhor as necessidades do país, passei a me engajar.”

João Pedro Marsola, de 14 anos, veio de Santa Cruz do Rio Pardo (SP) como um dos delegados na conferência. Para ele, o encontro serve para “conscientizar ainda mais”. Entre um debate e outro, ele contou que a escola onde estuda já promove atividades como visitas a sítios, onde os estudantes plantam árvores, conhecem as nascente de rios e entrevistam agricultores da região.

Questionado sobre o que pretende levar da conferência, ele disse que espera aprender a cuidar do meio ambiente e garantiu que todo o conhecimento adquirido na capital federal será repassado ao irmão, de 17 anos, e aos amigos do interior de São Paulo.

“Vou passar tudo. Tenho um amigo que, uma vez, chupou cinco balas e colocou os papéis em um canto da sala. Pedi que ele recolhesse porque aquilo não era certo. Ele não gostou do que eu disse, mas recolheu os papéis.”

Professora diz que educação ambiental precisa ser transversal e cobra mais capacitação

Incluir atividades relacionadas à educação ambiental nas escolas não é “nada complicado”, na opinião da professora baiana Angélica Moura.

No entanto, afirma a professora, é preciso cobrar do governo mais capacitação dos profissionais que trabalham em sala de aula.

Angélica Moura veio de Salvador (BA) para acompanhar 26 alunos com idade entre 11 e 14 anos que participam da 3ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, em Luziânia.

Ela considera sem fundamento a educação que não contextualiza o espaço em que vivem os estudantes. “Não pode haver separação”, disse Angélica, defendendo a inclusão da educação ambiental no currículo escolar de forma transversal – presente em todas as disciplinas. “Não achamos pertinente ter um professor só para isso.”

A professora admitiu que muitos colegas ainda se mostram “confusos” quanto à melhor forma de promover aulas sobre meio ambiente. “Eles acham que é um trabalho à parte”, disse ela, ressaltando que crianças e adolescentes sentem falta de iniciativas que promovam a conscientização e o debate sobre o tema.

“O estudante sai mais fortalecido. Estamos preparando um exército”, afirmou Angélica, depois de admirar a multidão de meninos e meninas presentes a um debate. A professora defendeu que a escola seja exemplo de educação ambiental, “para que o discurso aconteça na prática”.

Já o professor José Eli da Veiga destacou que as conseqüências negativas geradas pelo que chamou de “busca pelo conforto” chegaram a tal ponto que é preciso parar e refletir sobre o meio ambiente. “É absolutamente estratégico que o Brasil viva esse processo com as crianças.”

Veiga ressaltou que grande parte das regulamentações que existem atualmente devem ser vistas como “avanços tremendos”. No encontro, disse aos estudantes que, ainda que se consigam grandes vitórias na preservação ambiental, a maioria dos estragos já está feita. “E as conquistas podem ainda ser anuladas, se não reduzirmos o aquecimento global”, advertiu.

Oficinas estimulam produção de material sobre preservação ambiental nas escolas

Verca de 700 alunos com idade entre 11 e 14 anos participaram de oficinas promovidas durante a 3ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente. Entre as propostas estão a produção de matérias para o rádio e de fanzines – uma espécie de mini-revista com charges, quadrinhos e textos que será distribuído para prefeitos e diretores de escolas.

Sabrina Amaral tem 27 anos e veio do Rio Grande do Sul para chefiar uma das oficinas. “Oficineira”, como é chamada pelos meninos, ela disse que o objetivo das atividades é que os alunos saibam produzir material que promova a educação ambiental dentro das escolas e também nas comunidades onde vivem.

Ela coordena uma turma de 137 meninos e meninas. “Às vezes, não sabemos a dimensão de conhecimento que eles têm”, ressaltou, ao apontar todos os aparelhos eletrônicos nas mãos da “gurizada”, como gosta de se referir aos participantes. São celulares, câmeras fotográficas e outros aparelhoss que registram momentos de descontração em meio aos debates.

“Eles filmam e fotografam o tempo todo. É uma coisa que eles já fazem ,mas de forma inconsciente. É preciso que haja consciência de que também podem ser educadores.”

Já o trabalho de Mariana Pereira, 25 anos, responsável pela oficina de fanzine, é estimular a educação ambiental por meio da linguagem escrita. O material é de fácil reprodução e tem como um dos temas “Não Odeie a Mídia, Seja a Mídia”. Cerca de 160 “delegados” – como são chamados os participantes do encontro – integram a turma.

“É tudo muito livre e aberto à criação. É só colocar no papel e fazer a fotocópia. O material será distribuído pelos Correios e vai se chamar Semberabinha. Vai um para o prefeito, um para a diretora da escola e um para quem quiserem enviar.”

Observadores internacionais dizem que Brasil funciona como embrião em educação ambiental

Como um dos 70 observadores internacionais na 3ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, Felisberto Viegas quer levar para seu país de origem, São Tomé e Príncipe, na África, experiências adquiridas em meio a alunos de 11 a 14 anos da rede fundamental de ensino brasileira.

“O Brasil funciona como um embrião e é preciso dividir as experiências boas.”

Para Viegas, discutir educação significa discutir mudanças de comportamento, enquanto discutir educação ambiental é discutir o futuro.

“Para que os mais novos possam instruir os mais velhos”, afirmou, após ressaltar a necessidade global de colocar o discurso ambiental em prática.

Fernando Saldanha, observador de Guiné-Bissau, na África, garantiu que, a partir dos documentos produzidos pelos estudantes brasileiros, seu país irá preparar uma delegação para a Conferência Internacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, prevista para junho de 2010, em Brasília. “Teremos conhecimentos que vamos duplicar em nossos países.”

Na opinião de Saldanha, a vantagem de trabalhar o tema em meio a cerca de 700 crianças e adolescentes brasileiros é que a compreensão dos mais novos acontece de forma mais fácil. “Eles vão crescer e assumir responsabilidades sociais e políticas.”

Marina Silva diz que bancada conservadora em relação ao meio ambiente tem dias contados

Ao participar da 3ª Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, a senadora Marina Silva (PT-AC) afirmou hoje (4) que a bancada conservadora do Congresso Nacional no que diz respeito ao meio ambiente “tem os dias contados”. Ao se referir aos cerca de 700 alunos com idade entre 11 e 14 anos reunidos em Luziânia (GO), ela acrescentou: “Essa meninada vai fazer mudanças.”

Marina defendeu que a educação funcione como base de todo processo de mudança. Ela lembrou que, durante toda a sua trajetória, o homem sempre se colocou como independente, “como se as outras formas de existência fossem recursos infinitos que estariam ao nosso dispor para todo o sempre”.

Atualmente, a capacidade do planeta de suportar a ação humana, segundo a senadora, já está comprometida em cerca de 30%. “Estamos no vermelho”, disse, ao avaliar que o lugar considerado “privilegiado” para que as pessoas possam refletir e tratar de temas ambientais precisa ser a escola. “ É onde você envolve os professores, os alunos e a comunidade.”

Marina admitiu, entretanto, que a iniciativa de fortalecer o envolvimento das escolas na elaboração de políticas de meio ambiente não deve gerar respostas “imediatistas”. Trata-se de crianças e adolescentes que, de acordo com ela, levarão a noção desses conceitos apenas no futuro, mas que podem influenciar decisões políticas.

“Eles têm uma força de pressão muito grande. Boa parte da atitude inovadora dos pais e dos avós na questão ambiental é influência direta dos filhos. Hoje, grandes empresários que passam o bastão para seus filhos não o passam para pessoas com a mesma mentalidade que eles tiveram e que herdaram de seus pais. Crianças são um público promissor.”

Matérias de Paula Laboissière, da Agência Brasil.

[EcoDebate, 06/04/2009]

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Um comentário em “Especial: 3a Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente

  1. Sou do Ceará e representei o meu estado sendo um dos componentes da delegação na 2ªCNIJMA, esse evento é maravilhoso e nos possibilita
    oportunidades incríveis.

    Parabéns aos idealizadores e espero que a conferência tenha conscientizado a todos e plantado novas sementes em busca da preservação do meio ambiente.

Comentários encerrados.

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