A tocaia do agronegócio no Baixo Parnaíba Maranhense, artigo de Mayron Régis

[EcoDebate] Os chãos das Chapadas, depois da correção com calcário, parecem inesgotáveis e os plantadores de soja se fiam nisso. Corrige-se o solo. Reescreve-se a Chapada no cartório municipal. As Chapadas que atendem pelo nome de Gleba União – Milagres do Maranhão e Santa Quitéria – Baixo Parnaíba maranhense – estavam quase à mão do agronegócio do Cerrado leste maranhense.

Na beira da estrada, ou se adensando na Chapada, pequis e os bacuris pertenciam a quem os tocasse e, após tocá-los, a mão os levaria à boca. Divertia-se bastante na coleta do pequi e do bacuri. Divertia-se como uma criança se divertiria. Indo aos bandos, enchendo as bocas e enjoando de tanto comer pequi e bacuri. Carregavam dezenas de frutos a suas residências para continuarem farreando – as boas memórias que engatam como um caminhão velho subindo uma ladeira.

Alguém de Brejo espera que batam à sua porta oferecendo uma quantidade enorme de pequis os quais remeterá para os parentes em São Luís ou outra cidade mais próspera. Inutilizou as suas memórias quando se deu conta de que o turno da entrega dos pequis fora cancelado. Diferente deste, o filho do senhor Juvenal, povoado da Gameleira, município de Chapadinha, degusta bacuris que coleciona em seu trajeto do baixão para a Chapada e da Chapada para o baixão. Ele demanda pouca fala e deixa a critério de todos mais um melhorarem os bacuris que entopem o chão.

O senhor Juvenal e sua mulher se casaram fazia mais de cinqüenta anos. Ela morava perto dele e terminada a cerimônia se mudara imediatamente para a Gameleira. A décadas atrás, o transporte de média e longa distância, pelos interiores, harmonizava-se em cima de lombos de animais de quatro patas como o burro e o cavalo.

De repente, em algum ponto que se subtendia ser o caminho para a Gameleira, dois vaqueiros cavalgavam solenes atrás de um curral para prender sua boiada. Os motorizados aprendiam a ver o que se emendava pel a frente e os conselhos dados pelos vaqueiros, de qual entrada a esquerda eles virariam para o povoado, os consolaram com a proeminência daquilo que se queria a sua volta. Os bacurizeiros rodeiam parte daquelas Chapadas e assim eles se enraizaram nas Chapadas de São José, da Gameleira, da Prata e da Mombaça – município de Chapadinha. Nas proximidades deste município, e nas Chapadas mais ao sul, no sentido de Urbano Santos, a urbanização e os plantios de soja e de eucalipto afligiram e afligem os restritos núcleos de bacurizeiros.

O agronegócio da soja e do eucalipto atocaia, senão todas, praticamente, quase todas as Chapadas do Baixo Parnaíba maranhense – tocaias que parasitam o dia e a noite as expensas de múltiplos recursos humanos e materiais – tocaias que reconfortam os plantadores de soja pela imediata autorização dada pela Secretaria de Meio Ambiente do Maranhão para desmatarem a e para a carbonização da mata nativa do Cerrado.

Na comunidade quilombola e agro-extrativista de Santa Helena, município de Milagres do Maranhão, a Paineiras atocaia mais de novecentos hectares de Chapada. Os plantadores de soja se associaram e se associam para atocaiar qualquer hectare solto nas Chapadas de Brejo, Milagres do Maranhão, Santa Quitéria e Urbano Santos como a dos povoados de Macacos dos Vitor, Lagoa Seca e Várzea de Baixo, município de Milagres. Os moradores desses povoados querem a demarcação de 3.700 hectares de Chapada para que o rio Buriti – bacia do rio Parnaíba – enfeitice as populações de suas margens. E nessa tocaia por essa Chapada, o vereador Dei, município de Brejo, declarou que “gaúcho” pode até matar.

Mayron Régis, jornalista Fórum Carajás

Esse texto faz parte do programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba, apoiado pela ICCO e realizado de forma conjunta com a SMDH, CCN e Fórum em Defesa do Baixo Parnaíba.

[EcoDebate, 17/12/2008]

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