Cortador de cana tem esforço comparado a maratonista


Dos casos de desrespeito à legislação trabalhista que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou no ano de 2007, a imensa maioria estava ligada ao setor econômico da cana-de-açúcar, denominado de sucroalcooleiro. Ou seja, enquanto os agrocombustíveis, em especial o etanol, são tidos como prioridade da agenda governamental, a cana mostra seu lado perverso quando atrai milhares de brasileiros para a “escravidão”. Por Rômulo Maia, Portal Acesse Piauí, 30/08/2008 às 16h00.

Os números evidenciam o “gosto” amargo da cana-de-açúcar. 52% dos trabalhadores libertados pelo Ministério do Trabalho em condição análoga à escravidão estavam nas usinas do setor sucroalcooleiro: 3.131 do total de 5.974. Dos libertos, conforme a Superintendência Regional do Trabalho no Piauí, mais de 50% eram piauienses. Os dois maiores fornecedores de braços prontos para servir, de acordo com estudo realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), são os estados do Maranhão e Piauí.

Além de submetidas às condições degradantes – tendo que dormir amontoados em galpões sujos, sem uma cama confortável para descansar ou comida e água decente para ingerir -, essas pessoas, ao ingressam na atividade do corte da cana, encontram a extenuante jornada de trabalho. Empreitada diária tolerada, a todo custo, para garantir a sobrevivência de suas famílias.

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Metodista de Piracicaba comprova o quanto o trabalho é desgastante. Segundo constatações da pesquisa, o corte manual da cana leva o trabalhador a um desgaste físico igual ao de um maratonista. Isso significa que em apenas 10 minutos o trabalhador corta 400 kg de cana, realiza 131 golpes de facão e flexiona o tronco 138 vezes.

Outro estudo, elaborado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Piauí (Fetag), traz mais dados: a cada 10 toneladas de cana cortada, o trabalhador perde seis litros de líquidos, o equivalente a uma corrida de 20 km.

Como ganham por produtividade, praticamente nenhum cortador larga o facão ou a foice para descansar. A pausa pode significar perda de produção e, portanto, de dinheiro. Para Anfrísio Moura, secretário de políticas salariais da Fetag esse é o motivo dos trabalhadores suportarem esse regime quase sobre-humano de trabalho. “O piso salarial da categoria é de aproximadamente 500 reais. Como o pagamento está ligado a produção individual, um bom cortador pode obter, por mês, rendimentos de R$ 1.200 a R$ 1.500”, explica.

O problema é que os esforços desprendidos para obtê-la geram danos irreparáveis ao corpo dos trabalhadores. Não raro, muitos desses indivíduos perdem a saúde ainda na idade produtiva. As péssimas condições no corte da cana e o pagamento proporcional – por metro de cana colhido – favorecem mutilações e estão ligadas a paradas cardíacas e a acidentes cerebrais hemorrágicos. Justificam também problemas de coluna, cegueiras e dores intermitentes.

[EcoDebate, 01/09/2008]

Top