poluição: Em Pequim, respirar fundo será problema para atletas

Os atletas vão enfrentar um adversário inusitado nas Olimpíadas de Pequim: a poluição. A capital chinesa apresenta níveis de poluentes no ar superiores aos considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A poluição, proveniente de indústrias, queima do carvão e grande número de veículos em circulação, pode causar problemas respiratórios e comprometer o desempenho dos competidores nas provas. Por Flávia Dourado, da ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, SBPC/LABJOR, 27/05/2008.

Segundo o coordenador técnico da equipe de atletismo do Laboratório de Bioquímica do Exercício / Grupo Gestor de Benefício Sociais (GBS) da Unicamp, Lucas Tessutti, a absorção dos poluentes pelo pulmão é determinada por vários fatores, como morfologia dos tecidos, da mucosa e do sangue, padrão de respiração, capacidade total pulmonar, inflamação das vias aéreas e propriedades físico-químicas dos gases. Por isso, a resposta à poluição difere de indivíduo para indivíduo e de local para local. Tessutti diz, ainda, que a inalação de poluentes pode modificar o débito cardíaco (volume de sangue bombeado pelo coração por minuto), a ventilação (a respiração fica mais curta devido à diminuição da superfície de troca gasosa) e o espessamento da mucosa das vias aéreas.

O professor de medicina esportiva da Unifesp, Paulo Zogaib, explica que grandes quantidades de poluentes no ar reduzem a capacidade de proteção do organismo contra inflamações respiratórias e comprometem, sobretudo, a ventilação. “A poluição pode levar a um quadro de broncoespasmo – contração da musculatura do brônquio – que prejudica a ventilação, isto é, a entrada e saída de ar nos pulmões”.

Como a quantidade de energia que o corpo produz é proporcional ao consumo de oxigênio, a diminuição do fluxo respiratório reduz a capacidade de praticar exercícios, uma vez que, se uma pessoa não capta oxigênio do ar atmosférico em volumes adequados, ela não consegue produzir energia suficiente e, conseqüentemente, seu rendimento cai.

Risco maior para atletas

Respirar um ar com partículas poluentes oferece, portanto, riscos à saúde de qualquer pessoa. Mas, no caso dos atletas, os efeitos são potencializados. Isso acontece porque que, em repouso, um indivíduo ventila cerca de 10 litros de ar por minuto. Entretanto, durante a atividade física, essa ventilação aumenta muito – sobre para 100, 120 litros de ar, dependendo do tamanho do tórax da pessoa – pois é preciso mais oxigênio para produzir mais energia. “Se um atleta ventila 100 litros de ar por minuto – 10 vezes mais que quando está parado – ele inala uma dose de poluentes também 10 vezes maior. Por isso, o risco de broncoespasmo é muito mais elevado no exercício”, destaca Zogaib.

Nos jogos de Pequim, a situação é pior para os atletas que disputarão provas aeróbias (de resistência), como triatlo, ciclismo e maratona – competições de longa duração, que acontecem em ambientes externos. Alguns atletas já anunciaram que não vão participar dessas provas. É o caso do etíope Haile Gebrselassie, atual recordista mundial da maratona. O corredor sofre de asma e teme que os efeitos do ar poluído na corrida de mais de 42 Km, que dura em média duas horas, cause danos à sua saúde.

Minimizando impacto

A partir de 20 de julho, a China adotará uma série de medidas para conter a emissão de poluentes em Pequim. O plano – que ficará em vigor até 24 de agosto, quando os jogos serão encerrados – prevê o corte do número de carros em circulação pela metade; a proibição de caminhões-tanque e postos de gasolina que não possuam tecnologia de redução de poluentes; diminuição da emissão de gases por parte das 19 fábricas mais poluidoras de Pequim, em pelo menos 30%; e interrupção de grandes obras de construção civil.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) se diz confiante em relação às medidas tomadas pelos organizadores dos Jogos, mas admite que a poluição oferece riscos para os atletas que competirão em provas de resistência ao ar livre. Por isso, anunciou que adiará essas disputas por algumas horas, caso a qualidade do ar não esteja favorável.

Os comitês olímpicos nacionais também estão se preparando. A assessoria do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) informou que, apesar de não ter recebido nenhum tipo de orientação ou recomendação do COI sobre o assunto, está realizando uma série de exames físicos e de avaliações em todos os atletas brasileiros que vão participar das Olimpíadas, para descobrir quais deles estão mais suscetíveis aos possíveis impactos causados pelo ar poluído.

Segundo Zogaib, a melhor estratégia para minimizar o problema da poluição é hospedar e treinar os atletas em outros locais – como Japão, Coréia do Sul ou regiões menos poluídas da própria China – e só levá-los para a capital chinesa um ou dois dias antes da prova. A equipe paraolímpica, por exemplo, ficará em Macau, China, para treinamentos e adaptação ao fuso, e será levada para Pequim apenas na véspera dos Jogos.

Outra possível alternativa que tem sido cogitada é o uso de máscaras. O chefe do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da UPS, João Vicente de Assunção, adverte que essa medida só funcionaria se as máscaras fossem de um tipo especial para conter partículas e gases. Além disso, diz ele, o equipamento interferiria na capacidade respiratória dos atletas, por ser um elemento de resistência à passagem do ar.

Escolha estratégica

Assunção ressalta que as medidas propostas para atenuar a poluição em Pequim deveriam ser efetivas – e não paliativas – para que perdurassem após as Olimpíadas. Para ele, teria que estar entre as obrigações de qualquer país sede implementar melhorias definitivas para a população local.

Enquanto políticos, ativistas, esportistas e a sociedade em geral recriminam a escolha de Pequim para sediar os Jogos, Assunção vê no evento uma oportunidade de provocar mudanças benéficas na China. “A preocupação dos atletas, técnicos e dirigentes de entidades participantes e organizadoras tem o lado positivo de mostrar para os chineses que algo precisa ser feito”. O professor chama atenção para o fato de que a população chinesa respira o ar poluído diariamente, condição muito mais grave que a exposição temporária e curta de atletas. “Fico em dúvida se a desqualificação da China por causa da poluição do ar teria um efeito pedagógico maior que a divulgação do problema em termos mundiais”, avalia.

Um comentário em “poluição: Em Pequim, respirar fundo será problema para atletas

Comentários encerrados.

Top