Seca do lago do Sobradinho preocupa os ribeirinhos

Com capacidade total de água registrada em 15%, o lago do Sobradinho preocupa os pequenos agricultores e pescadores da região do médio São Francisco. Além da falta de peixe e da dificuldade para irrigar as plantações, a maioria dos moradores aponta a barragem como o principal fator para a falta d”água, que teve início em dezembro de 2007. O período deveria ser de chuva, mas como o índice pluviométrico está abaixo do normal, é possível observar os bancos de areias e a morte de espécies como o cari. Matéria de Maíra Portela, publicada pelo Correio da Bahia, BA, 04/01/2008

O período de umidade da bacia do São Francisco começa em novembro e vai até abril. Mas as chuvas previstas não aconteceram. Ao retornar a Juazeiro, a jornalista Carla Bahia teve um sobressalto com a situação do município. Além do mau cheiro emanado pelos restos mortais dos peixes cari, jogados indevidamente às margens do lago do Sobradinho, a travessia entre a cidade e a Ilha do Rodeadouro tem sido prejudicada devido ao aparecimento dos bancos de areia.

“Eu morei quatro anos em Juazeiro e nunca vi o rio assim, nem peixes desse tamanho mortos dessa maneira. Essa é a época de reprodução do cari, nem deveria haver pesca. Em alguns lugares está até faltando água”, evidencia. No centro de Petrolina (Pernambuco), Carla Bahia revela que o odor também é bastante forte e a distância entre o local onde as embarcações atracam e o cais de desembarque está mais longa que o normal.

A pesca ilegal é criticada pelo presidente da Colônia de Pescadores de Juazeiro, Domingos Márcio de Matos, 47 anos, conhecido como seu Nem, que garante o respeito à lei por parte dos associados. O período correspondente entre 1º de novembro e 28 de fevereiro é quando acontece a piracema, momento em que os peixes sobem o rio para desova. “Recebemos seguro durante esses meses para não realizar a pesca”, explica.

Impacto

Apesar de não efetuar a pesca no período coincidente com a seca, o impacto provocado pela barragem é o que mais preocupa a categoria. “Como não há enchente os peixes não podem reproduzir durante a piracema e muitos estão deixando de existir”, denuncia seu Nem. Espécies como pirá, matrinchã, corvina, dourado e surubim são raras para os pescadores. Os que ainda podem ser encontrados resumem-se a quatro: cari, curimatã, piau e pacu. Uma solução para o problema, segundo o presidente da colônia, seria a escada ecológica – estrutura que possibilita a piracema em barragens.

O técnico ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de Juazeiro, Juraci Meira, afirma que a pesca ilegal do cari teve seu ápice no último final de semana, mas quando a equipe foi ao local fiscalizar, a atividade havia se dissipado. “Não recebemos denúncias de mortandade de peixes”, garante. Quanto a baixa do nível do lago do Sobradinho, Meira admite que está realmente baixo, em torno de 15% na última medição, em função da hidroelétrica. Segundo ele, alguns braços do rio e ecossistemas isolados apresentam prejuízos pela falta de água.

Agricultura é prejudicada

A baixa do Lago do Sobradinho não atingiu apenas os pescadores. A SAFRA do pequeno produtor Antônio de Souza Amiceto, 44 anos, foi toda perdida pela deficiência na irrigação. Alimentos como cebola, feijão, melão e melancia foram perdidos. O prejuízo é calculado em torno de R$20 mil. Ele relembra ter sofrido algo semelhante no ano de 2001, quando houve o apagão. “Não diria que o problema de hoje seria por falta de chuva, mas sim pela irresponsabilidade dos controladores da barragem, que são encarregados em manter o nível do rio”, opina.

Com um fluxo de vazão equivalente a 1.300m³ por segundo, a barragem do Sobradinho deve chegar a uma média de 1.100 m³, à pedido do Ibama. A estimativa é do superintendente da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), João Henrique Franklin, que justifica a seca devido à falta de chuvas no período. “Durante os meses de novembro e dezembro não tivemos uma quantidade relevante de chuva. Para garantir a energia para o Nordeste foi preciso reduzir a vazão”, esclarece.

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