Madeira da região de Serra da Mesa vira carvão

Mais de 200 fornos estão ativos nas margens do reservatório. Reportagem do Popular mostrando mudanças provocadas por grandes empreendimentos chega à região norte do Estado. Matéria de Marília Assunção, de Niquelândia e Uruaçu, publicada pelo O Popular, GO, 02/01/2008

No Norte de Goiás, uma grande polêmica envolve centenas de fornos e a silenciosa transformação em carvão de milhares de hectares de Cerrado nativo de um perímetro de 4 mil quilômetros em seis municípios. É o DESMATAMENTO de toda a faixa que forma a boca do lago da Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, o maior reservatório artificial do Brasil em volume (54,4 mil metros cúbicos de água), cujo enchimento à cota máxima de 460 metros em relação ao nível do mar foi retomado. A região é mostrada pelo POPULAR em uma série de reportagens – já foram mostradas cinco cidades da Região Sudoeste – sobre a influência que grandes empreendimentos têm na vida das cidades e de seus moradores.

O lago ainda vai subir 11 metros, já que até hoje só atingiu a cota de 449 metros. Em alguns pontos, isso pode significar que a lâmina d”água alcançará quase 2 quilômetros acima do ponto onde o lago está hoje, encobrindo o que encontrar pela frente.

Basta um giro rápido, mas complicado devido à dificuldade de acesso à região, para apurar números surpreendentes: mais de 200 fornos crepitam em diferentes pontos às margens do reservatório.

Número este que deve ser maior, porque os fornos estão ocultos pela densa vegetação ainda existente na região. Em vários casos, porteiras trancadas com correntes e cadeados dificultam a chegada até as carvoarias, mas, até em dias nublados e de chuva fina, a fumaça sinaliza a queima da madeira, invadindo também as narinas. Perto de várias porteiras, migalhas de carvão que caem dos sacos que estão sendo transportados ainda confirmam o que os olhos não alcançam.

Exigência

Os produtores de carvão estão estimulados pela exigência de que, dessa vez – ao contrário do início do enchimento, que encobriu matas inteiras -, a vegetação seja removida antes. Esta é uma exigência recente dos promotores de Justiça da região do lago, diante da confirmação da retomada do enchimento do reservatório. Eles querem evitar novo comprometimento da qualidade da água represada – onde já foi estimada a extinção de 17 espécies de peixes, proliferaram algas, excesso de elementos como amônia, ferro e oxigênio dissolvido, havendo fortes suspeitas de que a principal causa seja o apodrecimento das plantas alagadas, um processo chamado de eutrofização.

Curiosamente, no entanto, a maioria dos carvoeiros está autorizada a remover a vegetação, mas impedida de comercializar o carvão, agindo com pouco ou nenhum acompanhamento ambiental, pelo relato dos próprios produtores. Este, contudo, é apenas um dos agravantes na região.

DESMATAMENTO além da cota, construções na área inundável, pesca na piracema, estradas péssimas, estão entre os flagrantes feitos pela reportagem em três dias percorrendo áreas na beira do reservatório, que já abriga grande volume de água, espalhado por 1,7 mil quilômetros quadrados de área. A vida em torno do reservatório nos municípios de influência de Serra da Mesa envolve muitas outras irregularidades e aparentemente muito pouca fiscalização pelos responsáveis, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e a empresa que formou o lago, a estatal federal Furnas Centrais Elétricas.

Fiscais do Ibama foram à região do lago recentemente, visitando as carvoarias quando elas já estavam consolidadas dentro da área de Furnas, utilizando documentos do próprio órgão. Em um só dia de fiscalização entre Uruaçu e Niquelândia, conforme o chefe da Divisão de Gestão e Proteção do Ibama, Pedro Alberto Bignelli, foram contados mais de 160 fornos, sendo 135 em só lugar.

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