Neutralização de CO2 esbarra em método

Número de árvores que precisam ser plantadas para seqüestrar uma tonelada de carbono varia em 300% entre empresas; Discrepância se deve à falta de metodologia única para estimar captura de carbono por espécies tropicais; ONG muda cálculo do serviço. Matéria de Eduardo Geraque, publicada pela Folha de S.Paulo, 29/12/2007.

Quem colocou na lista de resoluções de Ano Novo contribuir menos para o aquecimento global em 2008 precisa ter cuidado. Neutralizar já as emissões de dióxido de carbono, assim, com o verbo no presente, é impossível. Não dá para ficar com a consciência tranqüila da noite para o dia.

Para piorar, as principais empresas que oferecem o serviço de compensação de carbono por meio do plantio de árvores ainda não falam a mesma língua. Cada uma usa um cálculo diferente e, como conseqüência disso, o número de árvores que precisam ser plantadas na mata atlântica (o único bioma usado até agora nos projetos), com o dinheiro do cliente pode variar em mais de 300%.

“Não utilizamos em nossos trabalhos o conceito de “neutralização de carbono”, mas utilizamos o conceito de “compensação futura de carbono'”, disse à Folha Eduardo Deangelo, diretor da Brasil Flora, uma das empresas que prestam serviço de compensação de carbono.

Não se trata só de uma questão semântica. No caso da empresa dele, depois de feito o inventário de emissões de gases-estufa (e pelo menos aqui as metodologias são iguais em todas as empresas, com números da matriz energética brasileira) é que chega o momento crítico.

Aritmética carbônica

Quanto, afinal, uma árvore consegue seqüestrar de carbono enquanto ela está crescendo? Bem, depende. Segundo Deangelo, você precisa de 1,6 árvore para fixar uma tonelada de carbono em um prazo de até 15 anos. Ou seja, se a árvore conseguir crescer até lá sem ser derrubada antes, aí sim será possível dizer que o carbono emitido na viagem de Réveillon foi realmente compensado.

Mas, no caso da MaxAmbiental, empresa que detém os selos “Carbono Neutro” e “Carbono Zero”, o número mágico é de cinco árvores por tonelada. Para a Iniciativa Verde, dona da marca “Carbon Free”, a taxa é maior, 6,2 árvores/tonelada. No mundo real, com a árvore custando de R$ 10 a R$ 12 no mercado, as diferenças de metodologia podem pesar no bolso do cliente. Em projetos grandes, as empresas falam em milhões de árvores.

Deputados neutros

O caso da Câmara dos Deputados, que tem um projeto de compensar o carbono emitido, ilustra isso. Os números reais foram calculados pela MaxAmbiental, que presta consultoria para os deputados brasileiros.

As três principais fontes de emissão de carbono da Câmara, pela ordem, são: produção de lixo orgânico (729 toneladas de carbono/ano), consumo de energia elétrica (524 toneladas de carbono/ ano) e viagens de avião superiores a 1.600 km (358 toneladas de carbono/ano). No total, as emissões chegam a 2.383 toneladas de carbono emitidas em um ano.

O que significa a necessidade de plantar 11.917 árvores também no período de um ano, pelos cálculos da empresa. Mas, se por acaso, fosse a Brasil Flora a dona da conta da Câmara dos Deputados, o número de árvores cairia para 3.813 -menos de um terço do valor.

“Nós levamos em conta não apenas a biomassa da árvore, mas o que é incorporado pela raiz da planta, além da ciclagem de nutrientes ao longo dos anos”, explica Deangelo. “O fator climático tropical também é importante”, afirma.

De acordo com Eduardo Petit, da MaxAmbiental, a taxa de estocagem de carbono por árvore utilizada pela empresa é baseada em dados científicos. “Já fizemos mais de cem projetos até agora. Atuamos desde 2003 com ações de neutralização e já plantamos mais de 200 mil árvores”, apregoa.

Na SOS Mata Atlântica, ONG paulista que também “neutraliza” carbono, a taxa praticada até agora é de 1,7 árvore para prender uma tonelada de carbono, a mas conta vai mudar.

Preocupada em não vender fumaça ao cliente, a SOS está mudando sua metodologia. Segundo Adauto Basílio, diretor de Capacitação de Recursos da ONG, a partir de agora será usada a relação de 3,6 árvores para compensar uma tonelada. “Antes, usávamos a relação de 1,7 árvores por tonelada. Ou seja, isso [a quantidade de árvores] vai dobrar”, afirma Basílio.

A SOS Mata Atlântica tem projetos grandes para desenvolver. Ao todo, os projetos da instituição vão movimentar, entre árvores já plantadas e as futuras, um total de 26 milhões de mudas de árvores. “Trabalhamos com uma perda de 10%”, explica Basílio.

Fator tempo

A questão do tempo, além de outros cuidados técnicos importantes, não pode ser esquecida, afirma Francisco Maciel, da Iniciativa Verde. A empresa, uma das pioneiras do setor, está no ramo há seis anos.

Maciel, que também é músico, usa o exemplo do CD gravado por ele. O processo também teve as emissões de carbono compensadas. “Como a vida útil de um CD é de dez anos, fechamos o horizonte do projeto nesse intervalo de tempo. Ao colocar esse fator sobre o nosso patamar de árvores por tonelada, tivemos que plantar três vezes mais árvores.”

A empresa dirigida por Maciel, inclusive, já teve uma metodologia mais conservadora do que a que utiliza agora. Os projetos novos serão feitos com uma relação de cinco árvores por tonelada aproximadamente e não mais 6,2 árvores. A Maxambiental também já mudou seu patamar, antes ela usava menos árvores por tonelada.

“Em todo projeto é preciso também considerar uma margem de segurança de 20%”, diz Maciel. Para ele, é fundamental que todo o processo seja feito com transparência.

“Neutralizar 100% é impossível. Você precisa ter uma linha de corte. E transparência total. Tanto no momento de dar o selo [verde] quanto na hora de mostrar onde as árvores serão plantadas. Não dá para ser “carbon free” um ano e no outro não”, afirma.

A Iniciativa Verde já fez projetos para a Convenção da Biodiversidade das Nações Unidas e para a São Paulo Fashion Week. E, ainda, como todas prometem fazer, vai monitorar os locais de plantio das árvores por um prazo de cinco anos.

Excesso de árvores ameaça cartão “verde”

Os responsáveis pela idéia do cartão de crédito Carbono Zero da rede de postos Ipiranga também utilizam uma metodologia chamada de “conservadora” para calcular o número de árvores a serem plantadas em troca do CO2 emitido por seus clientes. Mas nem toda a compensação, no futuro, será feita só pelo plantio de árvores, afirmam.

“Vamos negociar a compra de créditos de carbono também, de aterros sanitários, quem sabe”, explica Ricardo Maia, diretor de marketing do grupo.

Na verdade, o novo produto pode virar vítima do próprio sucesso. Onde plantar tanta árvore, por exemplo, será um problema. “Esperamos ter vendido de 100 mil a 120 mil cartões em um ano. Com um gasto médio de R$ 300 em cada um”, diz Maia.

Segundo ele, uma árvore compensa 137 litros, numa proporção árvore/ tonelada de carbono que é a mesma usada pelas empresas Iniciativa Verde e pela MaxAmbiental.

No primeiro mês de contabilidade do produto, em novembro, 345 clientes movimentaram o eqüivalente a 9,3 toneladas (R$ 14.102), compensadas com o plantio de apenas 46,5 árvores por mês.

Mas se os planos do grupo estiverem corretos, a partir do ano que vem, será preciso plantar 120 mil árvores por mês. Isso que deixaria todo o processo mais caro para a empresa.

Até agora, segundo Maia, a Ipiranga já tem 25 mil árvores (crédito de 5.000 toneladas). Elas foram compradas antes mesmo do plantio, numa espécie de “mercado futuro”, e serão plantadas no Paraná. Apostando na consciência do cliente, a rede negocia a compra de mais 70 mil toneladas.

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